— Sim. E nós estamos pesados. Mas também estamos bem armados.
— Sim, já vi. Canhão de popa e canhão de proa, mas nenhum de rodízio. — Um silêncio cheio de escárnio. — Cinco dias e suas promissórias estão vencidas. Certo?
— Sim.
— Vai saldá-las?
— Você vai descobrir isso dentro de cinco dias.
— Quarenta ou cinqüenta laques de barras representam muitas toneladas de prata.
— Deve ser, sim.
— Eu perguntei a Gorth: “Ora, o que faria o velho Dirk, se ele tivesse algum mau pagode!” Gorth disse: “Ele ia tentar mudar esse pagode”. “Sim, eu disse, mas como?” “Pedir emprestado”, disse ele. “Ah, é mesmo, um empréstimo. Mas onde?” Então, Dirk, meu rapaz, pensei em Jin-qua e em Ti-sen. Ti-sen está liquidado, então tinha de ser Jin-qua. — Ele ficou ruminando por um momento. — Há duas mulheres a bordo. Eu ficaria satisfeito de levá-las a Whampoa ou Macau. Para onde você disser.
— Elas já têm passagem.
— Sim, mas essa banheira velha pode afundar. Não gosto de ver duas mulheres se afogarem sem necessidade.
— Não vamos afundar, Tyler.
Brock se espreguiçou outra vez e gritou para sua lorcha, pedindo uma chalupa. Depois, abanou a cabeça, tristemente.
— Bom, rapaz, eu só queria oferecer passagem às mulheres. E a você, é claro. Esta banheira não parece muito firme no mar. Estranhamente pouco firme.
— Tem muito pirata nestas águas. Se algum navio chegar perto demais, vou usar meu canhão.
— Será uma boa coisa, Dirk. Mas se, na escuridão da noite, eu enxergar de repente um navio adiante, tentando me evitar, e se esse navio for tão impertinente a ponto de disparar um canhão contra mim, bom, rapaz, você faria o mesmo que eu. Vou supor que é um navio pirata e acabar com ele. Certo?
— Isso se você ainda estiver vivo, depois do primeiro tiro.
— Sim. É um mundo cruel, este em que vivemos. Não é coisa boa disparar canhões. A chalupa parou ao lado.
— Obrigado, Dirk. É melhor você içar logo essa bandeira, enquanto ainda tem uma. Porque assim não vão acontecer malditos equívocos. Peço perdão pelos ganchos. Vejo você em Hong Kong.
Brock deslizou por sobre a amurada da lorcha e ficou em pé na chalupa. Ele acenou com desdém e se afastou, conduzido pelos remadores.
— O que o sinhô de um olho só quelia? — perguntou Wung, abalado. A tripulação estava horrorizada, diante da lorcha de Brock.
— O que você acha, hein? Façam todos o que eu disser, para não morrer — disse Struan, abruptamente. — A todo pano, depressa. Apaguem as lanternas, já!
Tomando impulso, eles apagaram as lanternas e correram ao sabor do vento.
Quando Brock pulou para bordo de sua própria lorcha, ficou olhando a escuridão.
Não conseguia distinguir a lorcha de Struan, no meio das muitas que navegavam como fantasma em direção ao sul, descendo a correnteza.
— Você a vê?
— Sim, papai.
— Eu vou para baixo. Se acontecer você afundar uma lorcha com o ferrão, isso será ruim. Muito ruim.
— As barras de prata estão a bordo?
— Barras, Gorth? — disse Brock, com surpresa fingida. — Eu não sei o que você quer dizer. — Baixou a voz. — Se você precisar de ajuda, me chame. Mas não use canhões, veja bem, a não ser que ele dispare em nós. Não vamos fazer pirataria com ele. Temos muitos inimigos que gostariam de nos marcar como piratas.
— Durma bem, papai — disse Gorth.
***
Durante três horas, Struan deu voltas por entre o tráfego do rio, recuando, mudando de curso, contornando perigosamente os bancos de areia, sempre se certificando de que havia embarcações entre ele e a lorcha de Brock, que o perseguia bem de perto, incansavelmente. Agora estavam saindo do canal sul dando a volta pela pequena ilha e entrando mais uma vez no rio principal. Ele sabia que ali haveria mais espaço para manobrar, mas isto ajudaria Brock mais do que a ele.
Uma vez no canal sul, Brock poderia passar ao largo, a barlavento, com toda facilidade, e depois atacá-lo, quando ele estivesse na amura a sotavento. Struan não teria vento para impeli-lo e ficaria preso a meia-nau. Um golpe direto, ou de raspão, com a sonda de ferro, poderia furar sua embarcação e fazê-la afundar como uma pedra. Como seus canhões eram solidamente presos na proa e na popa, não poderia virá-los para o meio da nau, a fim de se proteger. Se tivesse sua própria tripulação, seria diferente; ficaria manobrando até o amanhecer, certo de que seus homens poderiam usar suas armas para evitar qualquer tentativa de aproximação maior. Mas tinha dúvidas quanto à tripulação chinesa, e quanto aos antigos mosquetes que podiam, provavelmente, explodir no rosto de quem puxasse o gatilho. E Brock tinha razão, também. Se disparasse primeiro, na escuridão, Brock tinha o direito de devolver o tiro. E, se fosse dado com habilidade, no costado, iriam pelos ares.
Ele olhou para o céu, pela milésima vez. Precisava desesperadamente de uma repentina tempestade, com chuva, ou de nuvens que pudessem esconder a lua. Mas não havia nenhum sinal de tempestade, de chuva ou de nuvem.
Espiou em direção à popa e viu a lorcha aproximar-se deles. Estava cerca de cem jardas, à popa, e adiantava-se a barlavento, com a amura mais próxima ao vento do que eles, ganhando distância.
Struan esgaravatou os miolos, em busca de um plano viável. Sabia que só poderia escapar facilmente se tornasse o navio mais leve, atirando ao mar as barras de prata. Meia milha adiante, o rio iria bifurcar-se outra vez, em torno da Ilha de Whampoa. Se tomasse
o canal norte, estaria mais seguro, porque a maior parte do tráfego do rio era por aquele canal, e ele poderia evitar o esporão. Mas jamais poderia escapar em tempo suficiente para navegar ao longo de Whampoa, e em torno da ilha, a fim de se encontrar com o China Cloud, na extremidade sul. Era forçado a usar o canal sul.
Não conseguia ver nenhuma maneira de escapar à armadilha. A alvorada romperia dentro de duas ou três horas, e ele estaria perdido. De alguma maneira, tinha de escapar em meio à escuridão e se esconder, e depois deslizar, sub-repticiamente, até o seu local de encontro. Mas como?
Na escuridão, mais adiante, podia ver a bifurcação do rio, que reluzia, todo prateado, em torno da Ilha de Whampoa. Então notou Ah Gip no passadiço. Ela lhe fazia sinais. À popa, a lorcha de Brock estava bem afastada, ainda arribando a barlavento, preparando-se para correr em frente ao vento, se ele tomasse o canal norte.
Apontou para um pequeno pagode, na margem sul, dando ao timoneiro um rumo.
— Entendido?
— Entendido, sinhô!
— É bom ter entendido! — Struan fez um sinal com o dedo de um lado para outro da garganta. Desceu às pressas.
May-may estava muito enjoada. O fedor de peixe e o aperto da cabina, além do balanço do navio, fizeram-na quase desmaiar de náusea. Mas ainda segurava o mosquete. Struan ergueu-a e começou a carregá-la para o convés.
— Não — disse May-may, fracamente. — Chamei você por causa de Ah Gip.
— O que há com ela?
— Mandei que saísse, em segredo. Para escutar o que dizem os tripulantes. — May-may teve uma ânsia de vômito, mas se conteve. Quando o espasmo passara, disse — ela ouviu um homem falando com outro. Estavam falando sobre as barras de prata. Acho que todos sabem.
— Sim — disse Struan. — Tenho certeza de que sabem. — Ele deu pancadinhas no ombro de Ah Gip. — Seu pagamento grande vai chegar logo.
— Ayeeee yah — disse Ah Gip. — Para que pagamento, hein?
— Brock ainda está em nossos calcanhares? — perguntou May-may.