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— Sim.

— Talvez um raio o parta.

— Sim, talvez. Ah Gip, faça comida que a senhora possa comer! Sopa. Entendido? Sopa. Ah Gip fez um sinal afirmativo com a cabeça.

— Sopa não. Chá bom.

— Sopa!

— Chá.

— Ah, tudo bem — disse Struan, irritado, sabendo que seria chá, por mais vezes que ele dissesse sopa.

Carregou May-may para o convés e instalou-a no barrilete de pólvora. Wung, o timoneiro e os tripulantes não olharam para ela. Mas Struan sabia que estavam agudamente conscientes de sua presença e que ela fazia aumentar a tensão no convés. Então, lembrou-se do que ela falara a respeito de um raio, e isto deflagrou nele um plano. Sua preocupação o abandonou, e ele riu alto.

— Por que esse ha-ha, hein? — perguntou May-may, respirando fundo o ar marinho, com o estômago começando a se acalmar.

— Pensei numa boa maneira de liquidar o Sinhô de Um Olho Só — disse Struan.

— Ei, Wung! Vem cá. — Struan deu a May-may uma de suas pistolas. — Homem chegar perto, matar, entendido?

— Entendido, sinhô.

Struan fez sinal a Wung para acompanhá-lo e seguiu adiante. Ao caminhar, descontraidamente, pelo convés, a tripulação chinesa se afastava, para lhe abrir caminho. Parou no castelo de proa, verificando pela última vez se a lorcha de Brock estava bem visível, e correu para baixo, com Wung logo atrás. Os alojamentos dos tripulantes consistiam numa única cabina ampla, abrangendo a largura da embarcação, com beliches alinhando-se de cada lado. Havia uma tosca lareira, feita de tijolos, sob uma portinhola gradeada e aberta. Uma chaleira pendia sobre os carvões, que brilhavam fracamente. Molhos de ervas e cogumelos secos, peixe seco e fresco e verduras frescas, além de um saco de arroz, estavam nas proximidades, junto a grandes e pequenos jarros de cerâmica.

Ele tirou as tampas dos jarros e cheirou seu conteúdo.

Sinhô quer comida? Pode.

Struan abanou a cabeça. No primeiro jarro, havia soja. No segundo, gengibre em calda. Depois, raiz de ginseng em vinagre, e temperos. Havia óleos de cozinha, um jarro com óleo de amendoim e outro com óleo de milho. Struan despejou algumas gotas de ambos os jarros no fogo. O óleo de milho ardia mais do que o de amendoim.

— Wung, leve para cima — ele disse, apontando o jarro de óleo de milho.

Pra que, hein?

Struan voltou correndo para o convés. A lorcha aproximava-se do ponto da forquilha onde teriam de virar para o canal norte ou o canal sul. Struan apontou para o sul.

— Por que caminho longo, hein? — Wung perguntou, pondo o jarro no chão.

Struan olhou para ele e Wung recuou um pouquinho. O timoneiro já virará a cana do leme. Eles se encaminhavam para o lado sul da forquilha. A lorcha de Brock seguiu rapidamente na mesma amura. Havia ainda muitos barcos entre as duas lorchas e Struan estava salvo por algum tempo.

— Você fica — disse ele a Wung. — Ei, vaca cria. Você fica. Use pau de jogo do mesmo jeito.

— Entendido, sinhô — disse May-may. Ela se sentia muito melhor.

Struan entrou na cabina principal e reuniu todas as armas, levando-as em seguida de volta para a popa. Escolheu um mosquete, os dois arcos e flechas, e um chicote de ferro, e atirou o resto das armas por sobre a amurada.

— Pirata pode, não tem arma de fogo — Wung murmurou sombriamente.

Struan pegou o chicote de ferro e volteou-o sem rumo. Era um açoite feito de metal encadeado, uma arma mortal, se usada de perto — hastes de ferro de três pés de comprimento ligadas entre si e, na extremidade, uma bola de ferro com farpas. O cabo curto de ferro encaixava-se comodamente na mão, e uma correia protetora de couro passava por sobre o pulso.

— Pirata vem, vai ter muita morte — disse Struan, duramente. Wung apontou furiosamente para a lorcha de Brock.

Ele a gente não pode pará, não é? — Apontou para a praia mais próximas. — Ali. Corremos praia... salvos!

Ayeeee yah — Struan virou as costas, com desprezo. Ele sentou-se no convés, com a correia de couro do chicote de ferro amarrada ao pulso. A assustada tripulação observou, pasmada, quando Struan arrancou a manga de seu paletó acolchoado de cule e rasgou-a em tiras, cuidadosamente amarrando-as em torno da cabeça e uma flecha com ponta de ferro. Recuaram quando ele ajustou a flecha no arco, mirou ao longo do convés, em direção ao mastro, e disparou. A flecha não acertou no mastro, mas se encravou na porta de teca do castelo de proa. Arrancou a flecha com dificuldade.

Voltou e desatou a tira do tecido acolchoado e molhou-a no óleo. Em seguida, cuidadosamente pulverizou-a com pólvora, tornou a amarrá-la em torno à ponta da flecha e amarrou uma segunda tira por fora.

— Olá! — o vigia da popa gritou. A lorcha de Brock aproximava-se, perigosamente. Struan pegou o leme e pilotou a embarcação, por um momento. Deslizou arriscadamente por trás de um pesado junco e mudou de direção habilmente, de maneira que, ao navegar sem obstáculos, corria na amura oposta. A lorcha de Brock se virou depressa, para interceptá-lo, mas teve de se desviar, a fim de evitar um comboio de juncos que se dirigia para o norte. Struan entregou o leme a um dos tripulantes e terminou de preparar quatro flechas. Wung não conseguia mais se conter.

— Ei, sinhô o que pode?

— Vai pagar o fogo de clarear.

Murmurando xingamentos, Wung foi embora e voltou com uma lanterna.

— Fogo de clarear!

Struan fez uma pantomima, como se mergulhasse a flecha na chama da lanterna e disparasse a haste inflamada na vela grande da lorcha de Brock.

— Muito fogo, hein? Eles param, nós vamos, hein?

A boca de Wung se escancarou. Depois, ele estourou de rir. Quando conseguiu falar, explicou tudo à tripulação e eles olharam radiantes para Struan.

— Você muito... muito Tai-Pan. Ayeeee yah! — disse Wung.

— Muito fantástico você — disse May-may, rindo também. — Sinhô de Olho Só tá perdido!

— Olá — o vigia chamou.

A lorcha de Brock já fizera a manobra, desviando-se, e se aproximava. Struan tomou a cana do leme e começou a fazer mil curvas, através do tráfego, chegando cada vez mais perto do canal sul. A lorcha de Brock se aproximava, inexoravelmente, quase já se colocando a barlavento. Struan sabia que Brock estava esperando o tráfego diminuir, antes de dar sua fatal estocada. Struan estava um pouco mais confiante agora. Se a flecha atingir |sua vela, disse a si mesmo, e se não a atravessar, se permanecer acesa enquanto estiver no ar, se a vela principal estiver suficientemente seca para pegar fogo, se eles esperarem pelo menos quatro milhas, antes de fazerem a primeira aproximação final, e se meu pagode estiver bom, então posso acabar com eles.

— Maldito seja Brock! — disse.

O tráfego do rio diminuía bastante. Struan moveu o leme e encaminhou-se a barlavento a fim de chegar tão perto quanto possível do lado sul do rio, de modo que, ao se virar outra vez, o vento estivesse para a ré do través, e ele pudesse ser impelido diretamente. O lado sul do rio era cheio de baixios perigosos. Colocando-se numa amura tão a barlavento, Struan ficou em posição perigosamente aberta. A lorcha de Brock estava esperando para investir. Mas Struan queria que ele atacasse agora. Era tempo. Há muito, aprendera uma lei básica de sobrevivência: traga seu inimigo para o combate só em seus termos, jamais nos dele.

— Ei, May-may, vá para baixo.

— Quero espiá. Pode, não se preocupe.