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— Desculpe, Tai-Pan. Quase mato nós dois, por causa de minha estupidez.

— Que nada, garota. Foi o dinheiro. Vá dar uma olhada no porão.

Ela seguiu para baixo. Ficou por lá um longo tempo.Quando voltou, carregava um bule de chá e duas xícaras.

— Fiz chá — disse, orgulhosamente. — Fiz fogo e fiz chá. A garrafa de rum estava quebrada. Então, vamos tomar chá.

— Não sabia que você sequer era capaz de fazer chá, quanto mais acender fogo — disse ele, brincando com ela.

— Quando ficar velha e desdentada, eu vou ser ama. — Ela notou, distraidamente, que o último marinheiro chinês não estava mais no convés. Serviu o chá e lhe ofereceu uma xícara, sorrindo palidamente.

— Obrigado.

Ah Gip recuperou a consciência. Vomitou e depois tornou a desmaiar.

— Não gosto do aspecto dela, de maneira nenhuma.

— Ela é uma ótima escrava. Ele bebeu o chá, agradecido.

— Quanta água há no porão?

— O chão está cheio de água. — May-may bebia seu chá.

— Acho que seria bom... não sei como dizer... “comprar” o deus do mar para nosso lado.

— Fazer um pedido?

Sim, pedido.

Ela fez um sinal afirmativo com a cabeça.

— Sim, seria bom fazer um pedido ao deus do mar.

— Como você faz isso?

— Tem barras de prata demais, lá embaixo. Uma barra seria muito bom.

— Seria muito mau. Grande desperdício de prata. Já falamos nisso milhares de vezes. Não há deuses, mas um Deus.

— É verdade. Mas, por favor. Por favor, Tai-Pan. Por favor.

— Os olhos dela lhe imploravam. — Precisamos de uma ajuda fantástica e total. Acho aconselhável pedir imediatamente ao deus do mar bênçãos particulares. Struan desistira de tentar fazê-la compreender que havia apenas um Deus, Jesus era o Filho de Deus, o cristianismo era a única religião verdadeira. Há dois anos, ele tentara explicar-lhe o cristianismo.

— Quer que eu seja cristã? Então, sou cristã — disse ela, alegremente.

— Mas não é tão fácil assim, May-may. Você tem de acreditar.

— Claro. Acredito no que você quiser. Só há um Deus. O Deus bárbaro cristão. O novo Deus.

— Não é um Deus bárbaro e não é um novo Deus. É...

— Seu Senhor Jesus não era chinês, hein? Então, ele é um bárbaro. E o que adianta dizer-me que este Deus Jesus não é novo, quando ele nasceu há apenas dois mil anos, hein? É mesmo muito novo. Ayeee yah, nossos deuses têm cinco, dez mil anos de idade.

Struan ficara desnorteado, porque embora fosse cristão, freqüentasse a igreja, algumas vezes rezasse e conhecesse a Bíblia tão bem quanto a maioria dos homens, homens comuns, não tivera prática e nem habilidade para ensiná-la. Então, mandou Wolfgang Mauss explicar a ela o Evangelho em mandarim. Mas, depois de Mauss ensinar-lhe e batizá-la, Struan descobrira que ela ainda ia ao templo chinês.

— Mas por que ir lá? Isto significa que você se tornou pagã outra vez. Você se ajoelha diante de ídolos.

— Mas, para que serve a estátua de madeira do Senhor Jesus na Cruz, que está na igreja, se não for um ídolo? Ou a própria cruz? Tudo não é a mesma coisa que um ídolo?

— Não é a mesma coisa.

— O Buda é o único símbolo de Buda. Eu não adoro um ídolo. Sou chinesa. Os chineses não adoram ídolos, só a idéia da estátua. Nós, chineses, não somos estúpidos. Somos terrivelmente inteligentes a respeito dessas coisas de deuses. E como posso saber se o Senhor Jesus, que é bárbaro, gosta de chineses, hein?

— Quer fazer o favor de não dizer essas coisas? Isto é blasfêmia. Wolfgang explicou o Evangelho inteiro a você, nesses últimos meses. Claro que Jesus ama todos os povos do mesmo jeito.

— Então, por que os padres cristãos que usam saias compridas e não têm mulheres dizem que os outros padres cristãos, que se vestem como homens e geram muitos filhos, só são ouvidos pelos tolos, hein? Sinhô Mauss diz que antes havia muitas guerras e muitas mortes. Ayeee yah, os demônios de saias compridas queimam homens e mulheres em fogueiras. — Ela abanou a cabeça, com firmeza. — Melhor mudarmos agora mesmo, Tai-Pan. Vamos ser cristãos de saias compridas; depois, se perdermos, para eles, não vamos ser queimados. Seus cristãos bonzinhos não queimam gente, hein?

— Não se muda assim, por essa razão. Os católicos estão errados. Eles...

— Eu lhe digo, Tai-Pan. Acho que deveríamos ser cristãos de saias compridas. E, também acho, você cuida de seu novo Deus Jesus com muito cuidado e eu cuido do Deus Jesus o melhor que eu puder e, ao mesmo tempo, presto atenção aos nossos deuses chineses, próprios para nós, também com muito cuidado. — Ela balançou a cabeça com muita firmeza e depois sorriu, maravilhosamente. — Então o deus mais forte tomará conta de nós.

— Você não pode fazer uma coisa dessas. Só há um Deus. Um!

— Prove isso — dissera ela.

— Não posso.

— Está vendo? Como pode o homem mortal provar a existência de Deus, qualquer deus? Eu sou cristã, como você. Porém, felizmente, também chinesa, e nessas coisas de deus é melhor pensar um pouco como chinesa. É muito aconselhável manter uma mente muito aberta. Muito. É pagode para você que eu seja chinesa; assim, em nosso favor, eu também posso fazer pedidos aos deuses chineses. — Ela acrescentou, apressadamente. — Que, é claro, não existem. — Sorriu. — Não é ótimo?

— Não.

— Claro, se eu pudesse escolher... e não posso, porque só existe um Deus... eu preferiria um deus chinês. Não quer que seus devotos matem outros deuses, ou matem todas as pessoas que não se ajoelham diante deles. — E prosseguira, rapidamente. — O Deus bárbaro cristão, que é o único, o único Deus, me parece, a mim, uma pobre e simples mulher, muito sanguinário e difícil de se conviver mas, naturalmente, eu acredito n’Ele. É isso — ela concluíra, enfaticamente.

— Não tem nada de “é isso”.

— Acho que o céu de vocês é infernalmente estranho, Tai-Pan. Todo mundo voando feito pássaro, e todo mundo de barba. Vocês fazem amor no céu?

— Não entendo.

— Se não podem fazer amor, eu não vou para o céu de vocês. Ah, não, absolutamente. Deus verdadeiro, ou não. Deve ser um lugar muito ruim, assim. Preciso descobrir, antes de ir para lá. Sim, de verdade. E, outra coisa, Tai-Pan. Por que deveria o único Deus verdadeiro, portanto fantasticamente inteligente, permitir só uma única esposa, hein, o que é terrivelmente estúpido? E, se você é cristão, por que somos como marido e mulher, quando você já tem mulher? Adultério, hein? Muito ruim. Por que você desobedece a tantos dos Dez Mandamentos, hein, e ainda assim chama a si próprio, todo convencido de cristão?

— Bom, May-may, alguns de nós somos pecadores e fracos. Jesus Cristo perdoará alguns de nós. Ele prometeu nos perdoar, se nos arrependermos.

— Se fosse eu, não perdoava — disse ela, com muita firmeza. — Não perdoava, se fosse o Deus Supremo e Único. Não, de verdade. E, outra coisa, Tai-Pan. Como pode Deus ser Trindade e ter também filho número um que também é Deus e nasceu de uma mulher de verdade, sem ajuda de homem de verdade, e ela então se torna Mãe de Deus? Isto é que eu não compreendo. Mas, não me confunda, Tai-Pan, sou tão cristã como qualquer outra pessoa, por Deus. Hein?

 Tiveram muitas conversas assim e, a cada vez, ele se encontrava preso numa discussão sem pé e nem cabeça, a não ser pelo fato de que sabia só existir um Deus, o verdadeiro Deus, mas sabia, também, que May-may jamais compreenderia. Esperara que talvez Ele se tornasse claro para ela, quando assim a desejasse.

— Por favor, Tai-Pan — disse May-may outra vez. — Um pouco de fingimento não vai fazer mal a ninguém. Eu já disse: uma oração para o Único Deus. Não se esqueça de que estamos, na China, e este é um rio chinês.