— Mas isso não vai fazer bem nenhum.
— Eu sei. Ah, sim, Tai-Pan, eu sei, é claro. Mas sou cristã há apenas dois anos, então você e seu Deus precisam ser pacientes comigo. Ele me perdoará — concluiu, triunfantemente.
— Está bem — disse Struan.
Ela desceu. Quando voltou, tinha lavado o rosto e as mãos, e seu cabelo estava entrançado. Em suas mãos havia um tijolo de prata embrulhado em papel. O papel estava coberto com caracteres chineses.
— Você escreveu os caracteres?
— Sim. Achei caneta e tinta. Escrevi uma oração para o deus das águas.
— O que diz?
— “Ó grande, Sábio e Poderoso Deus do Mar, em troca desta enorme dádiva, quase cem taéis de prata, por favor nos leve a salvo para um navio bárbaro chamado China Cloud, pertencente ao meu bárbaro, e depois para a ilha de Hong Kong, que os bárbaros roubaram de nós.”
— Não gostei muito dessa oração — disse ele. — Afinal de contas, garota, é minha prata, e não gosto de ser chamado de bárbaro.
— É uma oração cortês, e diz a verdade. É um deus do mar chinês. Para um chinês, você é bárbaro. É da maior importância dizer a verdade, nas orações. — Ela caminhou, cautelosamente, pelo lado adernado do navio e, com grande dificuldade segurou o pesado tijolo de prata coberto de papel com o braço esticado, dizendo a oração que escrevera. Depois, com os olhos ainda fechados, desembrulhou o tijolo de prata, deixou o papel cair na água e enfiou o tijolo depressa nas dobras de seu casaco. Abriu os olhos e espiou o papel sendo sugado pelo rio, na esteira do barco.
Voltou alegremente, com a prata salva em seus braços.
— É isso. Agora, podemos descansar.
— Isso é uma trapaça, por Deus — disse Struan, explodindo.
— O quê?
— Você não jogou a prata na água.
— Psiuuu! Não fale tão alto! Você estraga tudo! — Depois sussurrou. — Claro que não. Acha que sou louca?
— Pensei que você queria fazer uma oferta.
— Eu fiz — ela sussurrou, perplexa. — Você não achou que eu ia realmente jogar toda essa prata no rio, achou? Pelo sangue de Cristo, sou alguma idiota? Sou maluca?
— Então por que fazer toda essa...
— Psssiuuu! — disse May-may, com premência. — Não fale tão alto! O deus do mar pode ouvir o que você está dizendo.
— Por que fingir atirar a prata ao mar? Isto não é uma oferenda.
— Juro por Deus, Tai-Pan, não entendo você de jeito nenhum. Para que os deuses precisam de verdadeira prata, hein? Para que usariam verdadeira prata? Para comprar roupas de verdade e comida de verdade? Os deuses são os deuses, e os chineses são os chineses. Fiz a oferenda e salvei sua prata. Juro por Deus, os bárbaros são pessoas estranhas.
E ela desceu, murmurando para si própria em dialeto de Soochow:
— Como se eu fosse destruir tanta prata! Será que sou uma imperatriz, para poder jogar prata fora? Ayeeee yah — disse ela, atravessando o corredor e chegando ao porão.
— Até a imperatriz do demônio não seria tão louca! — Ela colocou a prata no fundo do casco, onde a havia encontrado, e voltou para o convés. Struan ouviu-a voltar, ainda murmurando irritadamente em chinês.
— O que você está dizendo? — perguntou ele.
— Sou tão louca a ponto de gastar tanto dinheiro, ganho de maneira tão difícil? Sou uma bárbara? Sou uma gastadora...
— Muito bem. Mas ainda não entendo por que você achou que o deus do mar iria responder às suas preces, quando foi tão obviamente logrado. Essa história inteira é fantasticamente estúpida.
— Quer fazer o favor de não dizer essas coisas tão alto — disse ela. — Ele recebeu a oferenda. Agora, vai nos proteger. Não é prata verdadeira que o deus deseja, mas apenas a idéia. Foi o que ele recebeu. — Ela abanou a cabeça. — Os deuses são como as pessoas. Eles acreditam em tudo, se você disser da maneira certa. — Depois, acrescentou — Talvez o deus tenha saído, e ele não vai nos ajudar, de qualquer maneira, e então nós naufragaremos, não tem importância.
— Outra coisa — disse Struan, severamente. — Por que precisamos sussurrar, hein? É um deus do mar chinês. Como ele pode, ora essa, entender inglês, hein? Isso deixou May-may confusa. Ela franziu a testa, pensando muito. Depois, encolheu os ombros.
— Um deus é um deus. Talvez fale a língua dos bárbaros. Quer mais chá?
— Obrigado.
Ela despejou o chá na xícara dele e na sua. Depois, juntou as mãos, entrelaçando os dedos em torno dos joelhos, instalada sobre uma escotilha, cantarolando uma cançãozinha.
A lorcha chafurdava na corrente do rio. Amanhecia.
— Você é uma mulher e tanto, May-may — disse Struan.
— Eu também gosto de você. — Ela se aninhou contra ele. — Quantos homens são como você, em seu país?
— Cerca de vinte milhões de homens, mulheres e crianças.
— Existem, segundo dizem, trezentos milhões de chineses.
— Isto significaria que uma entre quatro pessoas na terra é chinesa.
— Eu fico preocupada com meu povo, se todos os bárbaros são como você. Você mata tanta gente, com tanta facilidade.
— Eu os matei porque eles estavam tentando matar-me. E não somos bárbaros.
— Estou satisfeita de ter visto você matando — disse ela, misteriosamente, com os olhos luminosos, a cabeça emoldurada pela luz crescente do amanhecer. — E estou muito satisfeita de você não ter sido morto.
— Um dia, eu serei morto.
— Claro. Mas estou satisfeita de ter visto você matando. Nosso filho Duncan vai ser digno de você.
— Quando ele tiver crescido, já não será preciso matar.
— Quando os filhos dos filhos dele estiverem crescidos, ainda haverá matança. O homem é um animal matador. A maioria dos homens. Nós chineses sabemos. Mas os bárbaros são piores do que nós. Piores.
— Você pensa assim porque é chinesa. Vocês têm muito mais costumes bárbaros do que nós. Os povos mudam, May-may. Então ela disse, simplesmente:
— Aprenda conosco, com as lições da China, Dirk Struan. Os povos nunca mudam.
— Aprenda conosco, com as lições da Inglaterra, garota. O mundo pode transformar-se num lugar ordeiro, onde todos serão iguais perante a lei. E a lei é justa. Honesta. Sem desvios.
— Será que isso é tão importante assim, quando se está morrendo de fome?Ele ficou pensando a respeito disso, por um longo tempo.
A lorcha se arrastava pelo rio abaixo. Outras embarcações passavam, subindo ou descendo o rio, e as tripulações olhavam para a lorcha com curiosidade, mas nada diziam. Adiante, o rio dava uma volta e Struan diminuiu a velocidade da lorcha, ao entrar no canal. O remendo de lona parecia estar resistindo.
— Acho que sim — respondeu ele, afinal. — Sim. Acho que é muito importante. Ah, sim, eu queria perguntar a você uma coisa. Você disse que foi visitar a Suprema Senhora de Jin-qua. Onde você a conheceu?
— Fui escrava em casa dela — disse May-may, calmamente. — Logo antes de Jin-qua me vender a você. — Ela o olhou nos olhos. — Você me comprou, não foi?
— Adquiri você, segundo seu costume, sim. Mas você não é nenhuma escrava. Você pode ir embora ou ficar, livremente. Eu lhe disse isso no primeiro dia.
1.— Eu não acreditei em você. Acredito agora, Tai-Pan. — Ela olhou para a praia e para os barcos que passavam. — Eu nunca tinha visto mortes antes. Não gosto de matança. Será porque sou uma mulher?
— Sim. E não. Eu não sei.
— Você gosta de matança?
— Não.
— É uma pena que sua flecha não tenha acertado em Brock.
— Eu não fiz pontaria nele. Não estava tentando matá-lo, apenas queria que se desviasse. Ela estava cheia de pasmo.
1.— Juro por Deus, Tai-Pan, você é realmente incrível.
2.— Juro por Deus, May-may — disse ele, com os olhos se enrugando, enquanto sorria — que você é realmente incrível.