Ela ficou deitada de lado, espiando-o, acariciando-o. Depois, dormiu.
Quando ela acordou, o sol estava alto. As terras à margem do rio eram baixas e se estendiam até horizontes cheios de neblina. Uma terra abundante, coberta por inúmeros arrozais, verdes e cheios do arroz de inverno pendente. Montanhas coroadas por nuvens, muito distantes.
O Pagode de Mármore estava bem à frente. Logo abaixo encontrava-se o China Cloud
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LIVRO IICAPÍTULO NOVE
Quatro dias depois, o China Cloud estava secretamente ancorado na Baía Deepwater, na extremidade sul da Ilha de Hong Kong. Era uma manhã fria, com um céu coberto de nuvens e mar acinzentado.
Struan estava em pé junto às janelas em forma de diamante da cabina principal, olhando para a ilha. As montanhas áridas desciam abruptamente até o mar, em torno da baía, com os cumes envoltos em nuvens. Havia uma pequena praia de areia no vértice da baía e depois a terra se erguia rapidamente mais uma vez, até as nuvens, agreste e solitária. Gaivotas grasnavam. As ondas lambiam suavemente o casco do navio e a sineta de bordo soou seis vezes.
— Sim? — disse Struan, em resposta a uma batida na porta.
— O cúter voltou — disse o Capitão Orlov, cansadamente. Era um corcunda musculoso e cabeça grande. Um chicote de ferro estava amarrado ao seu pulso, pela correia de couro. Desde que as barras de prata haviam chegado a bordo, ele usava o chicote de ferro dia e noite, e até dormia com ele.
— Pelas barbas de Odin, nossa carga é pior do que a peste negra.
— Mais problemas?
— Problemas, diz? Jamais num navio meu, pela cabeça da mãe de Jesus Cristo! — O homenzinho deformado riu com alegria malévola. Pelo menos, não enquanto eu estiver acordado, hein, Olhos Verdes?
Struan encontrava Orlov vagueando pelas docas de Glasgow, há muitos anos. Era um norueguês que sofrerá um naufrágio nas perigosas Orkneys, e não conseguia encontrar um novo navio. Embora os marinheiros não fizessem distinção entre nacionalidades, nenhum proprietário confiaria um navio a um homem tão estranho, que não chamava ninguém de “sir” e nem de “mister” e servia só como capitão — nenhum escalão inferior a este.
— Sou o melhor do mundo — Orlov gritava, com seu rosto sarapintado, de nariz comprido, tremendo de fúria. — Já cumpri meu período de marinheiro... não volto mais! Faça um teste comigo e vou provar isso, pelo sangue de Thor!
Struan testara os conhecimentos de Orlov quanto ao mar e ao vento, e testara sua força e sua coragem, nada encontrando que deixasse a desejar. Orlov falava inglês, francês, russo, finlandês e norueguês. Sua mente era brilhante e sua memória espantosa. E, embora parecesse um diabrete e fosse capaz de matar como um tubarão, se necessário, era justo e completamente digno de confiança. Struan dera-lhe um navio pequeno, e depois um maior. Em seguida, um clíper. Ano passado, fizera-o capitão do China Cloud e sabia que Orlov correspondia a tudo que esperava.
Struan despejou mais chá, quente e doce, e temperou com rum.
— Logo que o Sr. Robb e Culum chegarem a bordo, parta para o porto de Hong Kong.
— Quanto antes melhor, hein?
— Onde está Wolfgang?
— Em sua cabina. Quer falar com ele?
— Não. E providencie para não sermos perturbados. Orlov ajeitou, irritado, suas roupas úmidas do mar, ao sair.
— Quanto antes nos livrarmos dessa carga empesteada, melhor. É a mais terrível que já transportei.
Struan não respondeu. Embora exausto, seu cérebro se mantinha alerta. Quase em casa, disse a si próprio. Mais algumas horas e você estará a salvo no porto. Graças a Deus existe a Marinha Real. Junto de uma das fragatas, você pode descansar.
A cabina central era luxuosa e ampla. Mas agora se encontrava repleta de mosquetes, facas, chicotes de ferro, espadas e punhais. Ele desarmara toda sua tripulação, antes de levar as barras de prata para bordo. Agora, só ele e o Capitão Orlov portavam armas. Struan podia sentir a violenta tensão que invadia o navio. As barras de prata haviam contagiado a todos. Sim, pensou, não deixarão nenhum homem intocado. Nem mesmo Robb. Nem mesmo Culum. Talvez nem mesmo Orlov.
***
Após a partida do Pagode de Mármore, Ah Gip entrara em coma e morrera. Struan desejara enterrá-la no mar, mas May-may pedira-lhe que não.
— Ah Gip era uma escrava fiel — dissera ela. — Seria mau pagode não devolvê-la a seus pais, e nem enterrá-la como chinesa, ah, seria uma coisa terrível, Tai-Pan.
Então, Struan mudara de curso e seguira para Macau. Ali, com a ajuda de Mauss, comprara para Ah Gip um belo esquife e o entregara a seus pais. Também lhes dera dez taéis de prata para seu funeral. Os pais eram gente Hoklo, moradores em barcos, e lhe agradeceram. Insistiram também para que levasse a irmã mais moça de Ah Gip, Ah Sam, no lugar dela. Ah Sam tinha quinze anos, uma mocinha alegre, de rosto redondo, que também falava pidgin e, o que não era costumeiro para uma Hoklo, tinha os pés atados.
May-may conhecera Ah Sam e a aprovara, e então Struan concordara. Os pais pediram três mil taéis de prata por Ah Sam. Struan lhes teria dado o dinheiro, mas May-may dissera que ele e ela perderiam grande prestígio se pagassem o primeiro preço pedido. Então, barganhou com os pais e diminuiu o preço para cento e dezesseis taéis.
Struan enfrentara a formalidade da compra da moça, porque era o costume. Mas depois, quando a venda estava concluída e ele, segundo a lei chinesa, possuía uma escrava, rasgou o documento diante de Ah Sam e lhe disse que ela não era uma escrava, mas uma criada. Ah Sam não entendera. Struan sabia que, mais tarde, ela perguntaria a May-may por que ele rasgara o papel e May-may diria que era uma das esquisitices dos bárbaros. Ah Sam concordaria com ela, e o medo que sentia dele iria aumentar.
Enquanto o China Cloud estava em Macau, Struan confinou sua tripulação a bordo
— com exceção de Wolfgang Mauss. Ele temia que a notícia da existência das barras já se houvesse espalhado e, embora habitualmente confiasse em sua tripulação, não confiava quando havia tanto dinheiro pronto para ser apanhado. Esperava ser alvo de pirataria, tanto interna como externa. Em Macau, houve quase um motim e, pela primeira vez, ele e seus oficiais tiveram de usar o chicote indiscriminadamente, colocar guardas no tombadilho e ancorar num ponto afastado do porto raso. Todas as sampanas foram proibidas de chegar à distância de cem metros do China Cloud.
Ele enviara seu primeiro imediato, Cudahy, a Hong Kong na frente, para levar Robb e Culum ao local de encontro secreto, em Deepwater Bay, com instruções estritas para nada dizer a respeito das barras de prata. Sabia que isto aumentava o perigo, mas tinha de correr o risco. Com as barras de prata a salvo no China Cloud, teria tempo para pensar a respeito de Jin-qua e da Casa Nobre, de Robb e de Culum, e do que faria no futuro. Sabia que agora era o momento de determinar os moldes futuros da companhia. Com ou sem Robb e Culum. Custasse o que custasse.
Deixara May-may em Macau, na casa que lhe havia dado. Antes de embarcar, ele e May-may foram à casa de Chen Sheng.
Duncan, seu filho de três anos, começara a se prosternar, encostando a cabeça no chão, mas ele o erguera e lhe dissera que não devia jamais fazer aquilo outra vez, diante de homem nenhum. Duncan dissera: “Sim, Tai-Pan”, e o abraçara, bem como a May-may.
Kate, o bebê, fora tão acariciado quanto Duncan, e Chen Sheng se agitava como uma galinha velha. Foram trazidos alimento e chá e, depois, Chen Sheng pedira a Struan permissão para apresentar Kai-sung, que queria prosternar-se diante do Tai-Pan.