Kai-sung tinha agora trinta e seis anos. Estava lindamente trajada, com vestes em dourado e vermelho, tendo alfinetes de jade e prata no cabelo esticado. Era quase como se aqueles dezessete anos não houvessem passado. Seu rosto era como alabastro e os olhos tão penetrantes quanto em sua juventude.
Mas havia lágrimas escorrendo pelo seu rosto, e ela sussurrou algo em cantonês, que May-may traduziu, alegremente.
— A Irmã Mais Velha está triste porque sua Tai-tai morreu, Tai-Pan. A Irmã Mais Velha diz que sempre, quando quiser que as crianças venham para cá, serão como se fossem dela. E lhe agradece por ter sido generoso para com ela e seu filho.
— Diga-lhe que está muito bonita e lhe agradeça. May-may fez isso e, depois, chorou um pouco com Kai-sung, mas em seguida ficaram felizes. Kai-sung ajoelhou-se novamente e partiu. Chen Sheng afastara Struan para um lado.
— Ouvi dizer que talvez você tenha tido bom pagode, Tai-Pan. — Seu rosto grande abria-se num sorriso total.
— Talvez.
— Compro homens construir Hong Kong muito balato, se tem bom pagode! — Chen Sheng segurou seu grande estômago e estourou de rir. — Ei, Tai-Pan! Tenho escrava virgem. Quer? Compro para você, hein? Balato, balato.
— Ayeeee yah, que virgem! Já tenho problemas demais!
Struan e May-may pegaram seus filhos e voltaram para casa. O dinheiro que May-may perdera para ele era superior ao valor da casa. Ela, formalmente, entregou-lhe a escritura, com grande cerimônia e, simultaneamente, ofereceu-lhe um baralho.
— O dobro ou nada, Tai-Pan, no que se refere a dívidas. Ele tirou um valete e ela gemeu e arrancou o cabelo.
— Que horror, que horror! Sou uma louca, uma idiota! Para que fui abrir a droga da minha boca?
Em profunda agonia, ela fechou os olhos, pegou uma carta, encolheu-se e abriu os olhos pela metade. Era uma rainha e ela gritou de felicidade e se atirou nos braços dele. Ele combinou com May-may que voltaria depressa de Hong Kong ou enviaria o China Cloud para buscá-la, e depois navegou para a Baía Deepwater.
***
A porta da cabina se abriu.
— Olá, papai — disse Culum.
— Olá, Dirk — disse Robb.
— Bem-vindos a bordo. Fizeram boa viagem?
— Bastante boa. — Robb deixou-se cair numa cadeira. Havia círculos escuros sob seus olhos.
— Você parece exausto, Robb.
— Estou. Tentei tudo, tudo. — Afrouxou seu pesado e quente sobretudo. — Ninguém quer dar-nos crédito. Estamos perdidos. Que boas notícias poderia você trazer, Dirk? — Apalpou o bolso de seu jaquetão e tirou de lá uma carta. — Temo também não trazer boas notícias. Isto chegou para você no pacote de correspondência de ontem. É de papai.
Toda a excitação e a felicidade de Struan com o que ele conseguira desapareceu. Winifred, pensou ele, deve ser a respeito dela. Pegou a carta. O selo estava intacto. Reconheceu a elaborada caligrafia de seu pai.
— Quais são as notícias de casa? — perguntou ele, tentando manter a voz sem alteração.
— Isso foi tudo que chegou, Dirk. Nada recebi. Sinto muito. Como está você? O que aconteceu com seu rosto? Você o queimou? Sinto muito ter ajudado tão pouco. Struan pôs a carta sobre a escrivaninha.
— Você comprou a terra?
— Não. A venda de terras foi adiada. — Robb tentou manter os olhos afastados da carta.
— Será amanhã, papai. Não houve tempo suficiente para examinar os lotes. Então, foi adiada. — Culum cambaleou, enquanto o navio adernava a uma pressão das velas. Ele se segurou na escrivaninha. — Posso abrir a carta para você?
— Não, obrigado. Você viu Brock?
—O White Witch voltou de Whampoa há dois dias — disse Robb. — Mas eu ainda não o vi. Estamos realmente em guerra outra vez?
— Sim — disse Struan. — A frota ainda está em Hong Kong?
— Sim. Mas quando Eliksen chegou com a notícia, os navios fizeram manobras de guerra. Patrulhas foram enviadas para proteger as entradas a leste e oeste. Será que atacarão Hong Kong?
— Não seja ridículo, Robbie. Robb ficou espiando a esteira do navio. Dirk parece diferente, pensou. Depois, notou a barafunda da cabina.
— Por que há tantas armas aqui, Dirk? O que está errado?
— O que Longstaff andou fazendo, Culum? — perguntou Struan.
— Não sei — disse Culum. — Eu o vi só uma vez, e foi para conseguir sua aprovação para o adiamento.
— Também não o vi, Dirk. Depois da matéria a nosso respeito no jornal tive grande dificuldade para ver uma porção de pessoas. Especialmente Longstaff.
— Ah, é? O que aconteceu?
— Eu o encontrei no dia seguinte. Ele disse: “Puxa vida, é verdade?” E, quando eu lhe respondi “Sim”, tomou uma pitada de rape e disse “Que pena. Bom, estou muito ocupado, Robb. Bom-dia”, e tomou outro cálice de Porto.
— O que você esperava?
— Não sei, Dirk. Suponho que esperava simpatia. Ou alguma ajuda.
— Longstaff não demitiu Culum. Isto está a seu favor.
— Ele me quis de volta só porque não havia nenhuma outra pessoa disponível, no momento, para fazer isto — disse Culum. Começara a engordar, nas duas últimas semanas, e estava perdendo a palidez provocada pela peste. — Acho que ele gosta do fato de estarmos falidos. — Quero dizer — acrescentou Culum, depressa — não que eu tenha alguma importância. Refiro-me ao fato de a Casa Nobre estar falida.
— Se não existirmos nós, existirá uma outra companhia, Culum.
— Sim, eu sei, papai. Queria dizer que... bom, eu acho que você foi muito especial para Longstaff. Ele se ajoelhava diante de seu conhecimento por causa de sua riqueza. Mas, sem riqueza, você não tem nenhum cultivo. Sem cultivo, não pode ser igual. Sem igualdade, você não pode ter conhecimento. Nenhum. Acho isso bastante triste.
— Onde você aprendeu essa de se “ajoelhar”?
— Espere até ver Hong Kong.
— O que isso significa, rapaz?
— Estaremos lá dentro de poucas horas. Você poderá verificar por si mesmo. -— Depois, a voz de Culum se endureceu. — Por favor, abra a carta, papai.
— A notícia pode esperar. Winifred estava combalida, quando você partiu. Espera um milagre?
— Espero, sim. Rezei, sim para que acontecesse.
— Vamos para baixo — disse Struan.
As pilhas bem-arrumadas de tijolos de prata reluziam fantasmagoricamente, sob a lanterna vacilante do porão. O ar estava abafado e penetrado pelo cheiro enjoativamente doce de ópio cru. Baratas pululavam.
— É impossível — sussurrou Robb, tocando as barras de prata.
— Não sabia que existia tanta prata assim num só lugar da terra — disse Culum, também estarrecido.
— Está aqui, bem aqui — disse Struan.
Para se convencer, Robb pegou um dos tijolos, com a mão trêmula.
— É inacreditável.
Struan contou-lhe como obtivera as barras de prata. Contou tudo que Jin-qua dissera, exceto a respeito da barganha das quatro moedas, dos cinco laques a serem postos na terra de Hong Kong e os cinco laques a serem mantidos seguros e um laque para Gordon Chen. Descreveu a batalha naval com Brock. Mas não fez nenhuma menção a May-may.
— Aquele maldito pirata! — bradou Culum. — Longstaff vai mandar enforcar Brock e Gorth, quando ouvir falar disso.
— Por quê? — perguntou Struan. — Brock não fez mais do que eu fiz. Simplesmente, colidiu comigo.
— Mas isso é uma mentira. Você pode provar que ele...
— Não posso provar, e nada provarei. Brock tentou e falhou, foi tudo. É problema nosso, de mais ninguém.
— Não gosto disso — disse Culum. — Não é uma maneira legal de encarar um ato de deliberada pirataria.
— Haverá um ajuste de contas. Quando eu achar que chegou a hora.
— Por Deus, estamos salvos — disse Robb, com voz fraca. — Agora, todos os planos internacionais referentes a dinheiro serão executados. Seremos a mais rica companhia do Oriente. Deus o abençoe, Dirk. Você é incrível.