— Se eu não concordar com as condições, então terei de partir? — perguntou Culum, com a boca seca, o coração doendo.
— Não. Você ainda é sócio, embora subordinado. Mas você não será mais Tai-Pan. Nunca. Terei de encontrar e treinar uma outra pessoa. Um ano é o período justo a pedir... exigir, de Robb. Ele já passou onze anos trabalhando. — Pegou um dos tijolos. — Você terá de provar seu próprio valor, Culum, mesmo se concordar agora. Será herdeiro aparente, é tudo. Não vai se aproveitar do meu suor, e nem de Robb. É a lei do clã, e uma boa lei para a vida. Todo homem tem de caminhar com os próprios pés. Claro que vou ajudar você, o quanto puder, enquanto estiver vivo, mas cabe a você provar o seu valor. Só um verdadeiro homem tem o direito de ficar em pé no pináculo.
Culum corou.
Robb estava olhando para Struan, detestando-o.
— Você não quer um Tai-Pan dentro de cinco meses, Dirk. Apenas uma ama-seca por um ano, não é isso?
— Garanta que assumirá por cinco anos e você escolherá a quem quiser.
— Posso eliminar Culum agora, em troca de uma promessa de cinco anos?
— Sim — disse Struan, imediatamente. — Acho que seria um desperdício, mas cabe a você decidir. Sim.
— Vê o que o poder faz a um homem, Culum? — disse Robb, com a voz tensa.
— A atual forma da Casa Nobre estaria morta, sem esta prata — disse Struan, sem rancor. — Eu já lhe dei minhas condições. Decida.
— Compreendo por que você é odiado nesses mares — disse Culum.
— É mesmo, rapaz?
— Sim.
— Você jamais saberá, verdadeiramente, até concluir seus cinco anos.
— Então, não tenho escolha, papai? São cinco anos, ou nada?
— É tudo ou nada, Culum. Se você está preparado para ser o segundo lugar, assuma o poder agora. O que estou tentando fazer você entender é que, para ser o Tai-Pan da Casa Nobre, você precisa estar preparado para existir sozinho, para ser odiado, para ter algum objetivo de valor imortal e para sacrificar qualquer pessoa que não lhe inspirar completa confiança. Devido ao fato de ser meu filho, estou oferecendo a você hoje, sem experimentá-lo, a chance de ter o supremo poder na Ásia. Ou seja, um poder de fazer quase tudo nesta terra. Eu não ofereci isto impensadamente. Sei o que significa ser o Tai-Pan. Escolha, por Deus!
Os olhos de Culum estavam presos à Bíblia. E à prata. Não quero ficar em segundo lugar, disse a si próprio. Sei isto agora. O segundo lugar não permitirá que sejam feitas coisas que valem a pena. Haverá todo tempo do mundo para se preocupar com as condições, com Jin-qua, com os chineses e com os problemas do mundo. Talvez eu não vá ter de me preocupar em ser Tai-Pan; talvez Robb não ache que eu sou suficientemente bom. Ó Deus, deixai que eu mostre ser capaz de me tornar Tai-Pan, para poder usar esse poder para o bem. Deixai que isto seja um meio para Vossos fins. A Carta deve ser aprovada. É o único meio.
O suor brotava-lhe da testa. Ele pegou a Bíblia.
— Juro por Deus obedecer a essas condições. Se eu me tornar Tai-Pan, e quando isto acontecer. Então, que Deus me ajude. — Seus dedos tremiam, quando ele recolocou a Bíblia no lugar.
— Robb? — disse Struan, sem levantar os olhos.
— Cinco anos como Tai-Pan e posso mandar Culum de volta para a Escócia? Agora? Mudar tudo que eu quiser?
— Sim, por Deus. Terei de repetir tudo? Dentro de cinco meses, você fará o que quiser. Se concordar com as outras condições. Sim.
Fez-se um silêncio no porão, só quebrado pelas constantes corridas dos ratos, na escuridão.
— Por que você iria querer que eu saísse do negócio, tio? — perguntou Culum.
— Para magoar seu pai. Você é o último descendente.
— Sim, Robb. Ele é.
— Isso é uma coisa terrível para se dizer! Terrível. — Culum estava horrorizado.
— Somos parentes. Parentes.
— Sim — disse Robb, angustiado. — Mas estivemos falando verdades. Seu pai me sacrificaria, a você e a meus filhos, pelos objetivos dele. Por que eu não deveria fazer a mesma coisa?
— Talvez você faça, Robb. Talvez você faça — disse Struan.
— Você sabe que eu não faria nada para ferir você. Ó, meu Deus do céu, o que está acontecendo conosco? Adquirimos alguma prata e, de repente, estamos podres de cobiça e Deus sabe de que mais. Por favor, deixe que eu vá embora. Dentro de cinco meses. Por favor, Dirk.
— Eu preciso partir. Só no Parlamento posso realmente controlar Longstaff e seus sucessores... como você fará, quando deixar a Ásia. É assim que poderemos colocar o plano em execução. Mas Culum precisa ser treinado. Um ano como Tai-Pan e você partirá.
— Como pode ele ser treinado, num período tão curto?
— Eu saberei, dentro de cinco meses, se ele pode ser Tai-Pan. Se não puder, farei outros acertos.
— Que acertos?
— Você está pronto a concordar com as condições, Robb? Se estiver, jure sobre o Livro e vamos para cima.
— Que acertos?
— Cristo crucificado! Concorda, Robb, ou não? Será um ano, serão cinco? Ou nada?
Robb mexeu-se, mudando o apoio de uma perna para outra, enquanto o navio jogava, sob o vento mais forte. Todo seu ser o advertia a não fazer o juramento. Mas precisava fazer. Por causa de sua família, precisava. Pegou a Bíblia, que era pesada.
1.— Embora eu odeie o Oriente, e tudo que ele representa, juro por Deus obedecer às condições com o melhor das minhas capacidades, e que Deus me ajude a fazer isto. — Entregou a Bíblia a Struan. — Acho que você vai lamentar fazer-me Tai-Pan, por um ano.
— Talvez. Hong Kong não.
Struan abriu a Bíblia e lhes mostrou as quatro moedas pela metade que prendera na parte interna da capa, com cera de carimbar. Enumerou todas as condições de Jin-qua, com exceção do laque destinado a Gordon Chen. Esse é um negócio meu, disse Struan a si próprio, e ficou imaginando, rapidamente, o que Culum pensaria de seu meio-irmão — e de May-may — quando ouvisse falar deles. Robb sabia a respeito de May-may, embora jamais a tivesse encontrado. Struan ficou imaginando se seus inimigos já teriam contado a Culum a respeito de Gordon e de May-may.— Acho que você tinha razão em nos fazer jurar, Dirk — disse Robb. — Sabe Deus que horror significarão essas moedas.
***
Quando voltaram para a cabina, Struan foi até a escrivaninha e rompeu o selo da carta. Leu o primeiro parágrafo e gritou de alegria.
— Ela está viva! Winifred está viva, por Deus. Ela ficou boa!
Robb agarrou a carta. Struan estava fora de si e abraçou Culum e começou a dançar uma giga, e a giga se transformou em escocesa, e Struan juntou os braços aos de Culum e puxaram consigo Robb e, imediatamente, desvaneceram-se o ódio e a desconfiança entre eles.
Depois, Struan manteve-os quietos, com a enormidade de sua força.
— Agora, juntos! Um, dois, três — e deram o grito de guerra do clã, o mais alto que podiam.
— Feri! Golpe certeiro!
Depois se abraçaram novamente e gritaram:
— Camaroteiro!Um marinheiro apareceu correndo.
— Sim, sim, sinhô!
— Um duplo para todos. Ordene ao tocador de gaita que vá para o tombadilho!
Traga uma garrafa de champanha e outro bule de chá, por Deus!
— Sim, sim, senhorrr!
Então os três homens fizeram as pazes. Mas todos sabiam, nas secretas profundezas de suas mentes, que tudo mudara entre eles. Tinham sido ditas coisas demais. Logo eles seguiriam caminhos separados. Sozinhos.
— Graças a Deus você abriu a carta em seguida, Dirk — disse Robb. — Graças a Deus pela carta. Eu estava me sentindo terrível. Terrível.
— E eu — disse Culum. — Leia a carta, papai. Struan se instalou na funda poltrona de couro e leu a carta para eles. Era em gaélico e datada de quatro meses antes, um mês depois de Culum partir de Glasgow.