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Parlan Struan escrevia que a vida de Winifred estivera em perigo durante duas semanas e, depois, ela começara a se recuperar. Os médicos não conseguiram explicar o motivo, e apenas encolheram os ombros e disseram: “É a vontade de Deus.” Ela estava morando com ele, no pequeno sítio que Struan lhe dera há muitos anos.— Ela vai ficar feliz ali — disse Culum. — Mas há apenas os criados e as cabras para conversar. Onde ela vai freqüentar a escola?

— Primeiro, vamos deixar que se recupere bem. Depois, poderemos nos preocupar com isso — disse Robb. — Continue, Dirk.

Em seguida, a carta dava notícia da família. Parlan Struan tivera dois irmãos e três irmãs, e todos eles se casaram e agora seus filhos estavam casados, e tinham filhos. E também seus próprios filhos, Dirk e Flora, de seu primeiro casamento, e Robb, Uthenia e Susan, do segundo, formaram suas famílias.

Muitos de seus descendentes haviam emigrado: para as colônias canadenses, para os Estados Unidos da América. Alguns poucos estavam espalhados nas índias e na América do Sul espanhola.

Parlan Struan escrevia que Alastair McCloud, que se casara com a irmã de Robb, Susan, voltara de Londres com seu filho Hector, para viver outra vez na Escócia — a perda de Susan e de sua filha, Clair, com a cólera, lhe pesara muito, e quase o destruíra; ele recebera uma carta dos Kerns — Flora, irmã de Dirk, casara-se com Farran Kern, e, no ano passado, eles viajaram para Norfolk, Virgínia, de navio. Chegaram bem, a viagem fora boa e eles, e seus três filhos, estavam com boa saúde e felizes.

A carta continuava: “Conte a Robb que Roddy foi para a universidade ontem. Eu o coloquei na diligência para Edimburgo com seis xelins no bolso e comida para quatro dias. Seu primo, Dougall Struan, escreveu que vai ficar com ele nas férias e será seu guardião, até Robb voltar para casa. Tomei a liberdade de enviar uma ordem de pagamento à vista em nome de Robb, de cinqüenta guinéus, para pagar quarto e pensão por um ano, e um xelim por semana para os pequenos gastos. Também lhe dei uma Bíblia e o adverti contra as mulheres fáceis, a bebedeira e o jogo, e li para ele um trecho do Hamlet de Will Shakespeare, a respeito de ‘não ser devedor e nem fazer empréstimos’, e fiz o rapaz escrever isto e pregar na capa do Livro Sagrado. Ele tem boa caligrafia.

“Sua querida Ronalda e as crianças estão enterradas numa das covas destinadas às vítimas da peste. Sinto muito, Dirk, meu filho, mas a lei dizia que todos os que morriam tinham de ser enterrados assim, e cremados e cobertos com cal, para a segurança dos vivos. Mas o enterro foi consagrado de acordo com nossa fé, e a terra isolada como terreno bendito. Que suas almas repousem em Deus”. Não se preocupe com Winnie. A garota está verdadeiramente linda, e aqui em Loch Lomond, onde Deus pousou seu pé, ela crescerá e se transformará numa bela mulher, temente a Deus. Ouça bem, agora: não deixe os bárbaros pagãos da Cathay indiana dominarem sua alma e tranque sua porta cuidadosamente contra o mal que prolifera nessas terras diabólicas. Será que você não vai voltar logo para casa? Minha saúde está muito boa e o Senhor Deus me abençoou. Já tenho idade e poucos conseguem escapar, nesses dias terríveis, mas eu estou muito bem. Houve grandes tumultos em Glasgow e em Birmingham e Edimburgo, segundo dizem os jornais. Novos levantes cartistas. Os operários das fábricas pedem mais dinheiro, em troca de seus serviços. Houve um bom enforcamento há dois dias, em Glasgow, por roubo de carneiros. Malditos ingleses! Em que mundo estamos vivendo, quando um escocês é enforcado apenas por roubar um carneiro inglês, condenado por um juiz escocês. Terrível. Na mesma sessão do tribunal, centenas foram deportados para a terra australiana de Van Diemen, como punição por tumultos e greves e por queimarem fábricas. O amigo de Culum, Bartholomew Angus, foi condenado ao exílio por dez anos, em Nova Gales do Sul, por liderar uma manifestação cartista em Edimburgo. Ainda chegam pessoas...”

— Ah, meu Deus! — disse Culum.

— Quem é Bartholomew, Culum? — perguntou Struan.

— Morávamos no mesmo quarto, na universidade. Pobre Bart!

Struan disse, com voz dura:

— Você sabia que ele era um cartista?

— Claro. — Culum foi até à janela e ficou olhando para a esteira do navio.

— Você é cartista, Culum?

— Você próprio disse que a Carta era boa.

— Sim. Mas também lhe falei dos meus pontos de vista a respeito de insurreição. Você é cartista militante?

— Se estivesse em meu país, seria. A maioria dos estudantes universitários é a favor da Carta.

— Então é bom que você esteja por aqui, por Deus! Bartholomew liderou uma manifestação e pegou dez anos. Temos boas leis e o melhor sistema parlamentar do mundo. Insurreição, tumultos e greves não são a maneira certa de alcançar as modificações.

— O que mais diz a carta, papai?

Struan ficou olhando para as costas do filho, por um momento, ouvindo um eco do tom de voz de Ronalda. Ele fez uma anotação mental no sentido de examinar com mais cuidado, no futuro, a movimentação cartista. Depois, começou a ler novamente: “Ainda chegam pessoas diariamente a Glasgow, vindas dos Highlands, onde os proprietários rurais ainda cercam as terras dos clãs e mandam embora os membros do clã que teriam direito a elas, por nascimento. Aquele demônio de coração negro, o Conde de Struan, que Deus o faça cair morto, está formando um regimento para combater nas colônias indianas. Os homens correm para sua bandeira, atraídos por promessas de pilhagem e terras. Há um boato de que ele vai ter de entrar em guerra outra vez com os malditos americanos, pelas colônias canadenses, e circulam rumores de que a guerra eclodiu entre aqueles demônios e os franceses e russos, por causa dos turcos otomanos.. Aqueles malditos franceses! Como se não já tivéssemos sofrido bastante com aquele satanás Bonaparte.

“Vivemos uma situação lamentável, meu filho. Ah, esqueci de mencionar que foram feitos planos para a construção de uma ferrovia unindo Glasgow e Edimburgo, dentro de cinco anos. Não será ótimo? Então, talvez, nós escoceses poderemos nos unir e derrubar os demônios ingleses e ter o nosso próprio rei. Beijo você e seu irmão, e abrace Culum por mim. Seu pai respeitoso, Parlan Struan.”

Struan ergueu os olhos, com um sorriso seco.

— Tão sanguinário como sempre.

— Se o conde forma um regimento para ir à Índia, poderá aparecer por aqui — disse Robb.

— Sim. Tive o mesmo pensamento. Bom, rapaz, se chegar algum dia aos domínios da Casa Nobre, esse regimento voltará para casa sem líder, com a ajuda de Deus.

— Com a ajuda de Deus — ecoou Culum.

Houve uma batida na porta e o camaroteiro entrou às pressas com o champanha, copos e chá.

— O Capitão Orlov lhe agradece em nome da tripulação, senhorrr.

— Convide-o, e também a Wolfgang, para virem ter conosco depois da vigília.

— Sim, sim, senhorrr!Depois de terem sido servidos o vinho e o chá, Struan ergueu o copo.— Um brinde. Para Winifred, que retornou de entre os mortos!Beberam, e Robb disse:— Outro brinde. Este é para a Casa Nobre. Que nunca mais tornemos a pensar mal ou fazer mal um ao outro.

— Sim.

Beberam outra vez.

— Robb, quando chegarmos a Hong Kong escreva aos nossos agentes. Diga-lhes para descobrirem quem eram os dirigentes do nosso banco e quem foi responsável pelo abuso na concessão de créditos.

— Está bem, Dirk.

— E então, papai? — perguntou Culum,

— Então vamos destruir esses responsáveis — disse Struan. E as suas famílias. Culum sentiu um arrepio, diante da determinação implacável da sentença.

— Por que suas famílias?

— O que a cobiça deles fez com a nossa família? Conosco? Com nosso futuro? Teremos de pagar durante anos a sua cobiça. Então, eles terão de pagar em igual medida. Todos eles.