Culum levantou-se e caminhou para a porta.
— O que você quer, rapazinho?
— A latrina. Quero dizer, o “toalete”. A porta fechou-se atrás dele.
— Desculpe ter dito tudo aquilo — suspirou Struan. — Tinha de ser feito daquela maneira.
— Eu sei. Também sinto muito. Mas você tem razão, quanto ao Parlamento. Mais e mais poder passará para o Parlamento, e ali vão ser resolvidas as grandes transações de negócios. Eu supervisionarei o financiamento, e ambos poderemos supervisionar Culum e ajudá-lo. Não foi maravilhoso o que aconteceu com Winifred?
— Sim.
— Culum tem idéias muito próprias a respeito de algumas coisas, não é?
— Ele é muito novo. Ronalda os criou... bem, ela tomou as Escrituras ao pé da letra, como você sabe muito bem. Culum terá de amadurecer, algum dia.
— O que você vai fazer com relação a Gordon Chen?
— Você quer dizer, com relação a ele e Culum? — Struan observou as gaivotas grasnando. — Isto vai ter de ser pensado logo que voltarmos a Hong Kong.
— Pobre Culum. Amadurecer não é fácil. Struan abanou a cabeça.
— Nunca é fácil.
Depois de um momento, Robb disse:
— Lembra-se de minha mulher Ming Soo?
— Sim.— Muitas vezes ficou imaginando o que aconteceu com ela e com a criança.
— O dinheiro que você lhe entregou daria para se instalar como uma princesa e encontrar um ótimo marido, Robb. Ela deve ser a mulher de um mandarim, em alguma parte. Não precisa se preocupar com elas.
— A pequena Isabel deve ter dez anos, agora.
Robb se deixou mergulhar outra vez na lembrança sempre agradável de sua risada e da gratificação que lhe dava Ming Soo. Tanta, pensou ele. Ela lhe dava mais amor e bondade, gentileza e compaixão num só dia do que Sarah lhe dera durante todo o casamento dos dois.
— Você deveria casar-se outra vez, Dirk.
— Há tempo para pensar a respeito disso. — Struan disse, distraidamente, examinando o barômetro. Marcava 30.1, bom tempo. — Trate Culum de maneira bastante dura, quando você for Tai-Pan, Robb.
— Vou fazer isso — disse Robb.
***
Quando Culum chegou ao convés, o China Cloud deu a volta e saiu do canal que a pequena ilha de Tung Ku Chau, em alto-mar, formava com Hong Kong. O navio saiu velozmente do estreito, na via dominada pelas montanhas, e entrou em mar aberto, dobrando em direção sudoeste. Outra ilha maior, Pokliu Chau, ficava duas milhas a bombordo. Uma forte monção nordeste mosqueava as ondas, e acima havia um opaco lençol de nuvens.
Culum seguiu em frente, evitando cuidadosamente os círculos de cordas e amarras bem-arrumados. Caminhou ao longo das reluzentes fileiras de canhões, maravilhando-se com a limpeza de tudo. Estivera a bordo de outros navios mercantes no porto de Hong Kong e eram todos imundos.
O trecho da proa até estibordo estava ocupado por dois marinheiros, então ele passou por sobre a amurada e se instalou a estibordo. Segurou-se nas cordas dos salvavidas e, com grande dificuldade, tirou as calças e se acocorou precariamente na rede.
Um jovem marinheiro ruivo aproximou-se, pulou por sobre o passadiço e entrou na proa, tirando as calças. Ele estava descalço e não se segurou nas cordas, ao se acocorar.
— Bom-dia, senhorrr — disse o marinheiro.
— Para você também — disse Culum, segurando-se sombriamente nas cordas.
O marinheiro terminou depressa. Inclinou-se para a frente, em direção ao passadiço, e tirou um quadrado de papel de uma caixa, limpando-se em seguida. Depois, cuidadosamente, atirou o papel para baixo e ajeitou as calças em tomo da cintura.
— O que você está fazendo? — perguntou Culum.
— Hein? Ah, o papel, senhorrr! Que um raio me parta se eu sei, senhorrr. São ordens do Tai-Pan. Limpe a bunda com papel, ou então perca dois meses de pagamento e passe dez dias na maldita casa da guarda. — O marinheiro riu. — O Tai-Pan é muito correto, com seu perdão. Este é seu navio, então é bom limpar a maldita bunda. — Pulou para bordo, com facilidade, e mergulhou as mãos num balde de água do mar, atirando-a em seguida sobre os pés. — Lave também as malditas mãos, por Deus, e depois os pés, senão vai para a maldita prisão! É muito estranho. É um disparate completo... com seu perdão, senhorrr. Mas, com essa coisa de lavar as malditas mãos, e limpar a maldita bunda, e tomar banho uma vez toda maldita semana, e roupas limpas uma vez a cada maldita semana, a vida é mesmo uma merda.
— Merda total — disse outro marinheiro, debruçando-se no passadiço, a mastigar um naco de fumo. — O pagamento é em boa prata? Quando chegar o dia, por Deus! Comer como um maldito príncipe? Dinheiro da presa, além disso. Que mais você quer, Charlie? — Depois, para Culum: — Não sei como o Tai-Pan consegue isso, senhorrr, mas nos navio dele tem menos sífilis e menos escorbuto do que em qualquer outro, por esses mares. — Ele cuspiu em direção a estibordo o sumo do tabaco. — Então eu limpo a bunda e faço isso com gosto. Com seu perdão, senhorrr, se fosse o senhorrr eu fazia a mesma coisa. O Tai-Pan gosta muito que obedeçam às orde dele!
— Rizar a gávea e mastaréu de sobrejoanete — gritou o Capitão Orlov do tombadilho, com um vozeirão, para um homem tão pequeno. Os marinheiros bateram continência para Culum e uniram-se aos homens que estavam escalando os cabos.
Culum usou o papel e lavou as mãos, desceu e esperou uma oportunidade para intervir na conversa.
— De que adianta usar papel?
— Hein? — perguntou Struan.
— Na proa. Usar papel, ou dez dias de prisão na casa da guarda.
— Ah, eu esqueci de lhe dizer, menino. Os chineses acham que existe alguma ligação entre as fezes e as doenças.
— É ridículo — zombou Culum.
— Os chineses não pensam assim. Nem eu. — Struan virou-se para Robb. — Experimentei o sistema por três meses no China Cloud. O número de casos de doença diminuiu.
— Mesmo em comparação com o Thunder Cloud? — perguntou Robb.
— Sim.
— É uma coincidência — disse Culum.
Robb grunhiu.
— Você vai encontrar uma porção de coincidências em nossos navios, Culum. Faz apenas um pouco mais de cinqüenta anos desde que o Capitão Cook descobriu que limões e verduras frescas curavam o escorbuto. Talvez as fezes tenham alguma coisa a ver com as doenças.
— Quando você tomou banho pela última vez, Culum? — perguntou Struan.
— Não sei... um mês... não, eu me lembro. O Capitão Perry insistia para que eu tomasse banho junto com a tripulação uma vez por semana no Thunder Cloud. Quase morri de frio. Por quê?
— Quando você lavou suas roupas, pela última vez? Culum piscou para o pai e olhou para suas grossas calças de lã marrom e casaco de marinheiro.
— Nunca foram lavadas! Por que deveriam ser lavadas? Os olhos de Struan brilharam.
— De agora em diante, em terra ou a bordo, você banha seu corpo inteiro uma vez por semana. Use papel e lave as mãos. Mande lavar as roupas uma vez por semana. Não beba água, apenas chá. E escove os dentes todos os dias.
— Por quê? Não beber água? Isto é loucura. Lavar minhas roupas? Ora, elas vão encolher, perder o corte e Deus sabe o quê!
— É isto que você vai fazer. Assim é o Oriente. Quero você vivo. E bem. E saudável.
— Não vou fazer nada disso. Não sou uma criança e nem um de seus marinheiros.
— É melhor você fazer o que seu pai diz — falou Robb. — Eu lutei contra ele, também. Contra todas as idéias novas que ele pôs em prática. Até ele provar que essas coisas funcionavam. Por que, ninguém sabe. Mas, em locais onde morria gente feito mosca, nós escapamos.