— Você, nem tanto assim — disse Culum. — Você me disse que está doente o tempo todo.
— Sim, mas isso vem de anos. Nunca acreditei no que seu pai dizia a respeito da água, e então continuei a bebê-la. Agora, minhas tripas sangram e sangrarão sempre. É tarde demais para mim, mas, por Deus, eu gostaria de ter experimentado. Talvez estivesse sem esse problema. Dirk jamais bebe água. Só chá.
— É o que os chineses fazem, rapaz.
— Não acredito nisso.
— Bom, enquanto você está descobrindo se é verdade ou não, — replicou Struan — obedecerá a essas ordens. São ordens. Culum fechou a cara.
— Só por causa de alguns costumes chineses pagãos, tenho de mudar todo meu estilo de vida. É isso que você está dizendo?
— Estou preparado para aprender com eles. Sim. Tentarei tudo para manter minha saúde, e você vai fazer a mesma coisa, por Deus. — Struan deu um grito. — Camaroteiro! A porta se abriu.
— Sim, sim, senhorrr.
— Prepare um banho para o Sr. Culum. Em minha cabina. E roupas limpas.
— Sim, sim, senhorrr.
Struan atravessou a cabina, e se debruçou sobre Culum. Examinou a cabeça do filho.
— Você tem piolhos no cabelo.
— Eu não entendo você, de maneira nenhuma! — explodiu Culum. — Todo mundo tem piolhos. Os piolhos nos acompanham, gostemos ou não. A pessoa se coca um pouco, e é tudo.
— Eu não tenho piolhos, e nem Robb.
— Então vocês são esquisitos. Únicos. — Culum tomou um gole de champanha, cheio de irritação. — Tomar banho é um risco estúpido para a saúde, como todo mundo sabe.
— Você está fedendo, Culum.
— Como todo mundo — disse Culum, cheio de impaciência. — Não é por isso que sempre usamos pomadas? Feder também é um estilo de vida. Os piolhos são uma maldição que acompanha as pessoas, e daí?
— Eu não fedo, e nem Robb, e nem a família dele, e nem os meus homens, e nossa saúde é a melhor do Oriente. Você vai fazer o que eu lhe disser. Os piolhos não são necessários, e nem tampouco feder.
— É melhor você ir para Londres, papai. É o maior fedor do mundo. Se as pessoas ouvirem você falar a respeito de piolhos e de feder, vão pensar que está louco.
Pai e filho olharam um para o outro.
— Você vai obedecer às ordens. Vai se limpar, por Deus, ou então mandarei o
mestre fazer isto por você. Para o convés!
— Faça isso, Culum — intercedeu Robb. Ele sentia o ressentimento de Culum e a inflexibilidade de Struan. — Que importa? Um acordo. Experimente durante cinco meses, hein? Se não se sentir melhor até então, volte para o estilo habitual.
— E se eu me recusar?
Struan olhou-o implacavelmente.
— Eu mimo você, Culum, como nunca fiz com ninguém. Mas algumas coisas você vai fazer. Senão, vou tratá-lo como a um marinheiro desobediente.
— O que, quer dizer isso?
— Levo você a reboque atrás do navio por dez minutos e assim você fica lavado.
— Em vez de dar ordens — Culum bradou, indignado — por que você não diz simplesmente “por favor”, de vez em quando? Struan deu uma boa risada.
— Por Deus, você tem razão, rapaz. — Bateu nas costas de Culum. — Quer, por favor, fazer o que eu digo? Por Deus, você tem razão. Vou dizer “por favor” com mais freqüência. E não se preocupe com as roupas. Vamos contratar para você o melhor alfaiate da Ásia. Você precisa de mais roupas, de qualquer jeito. — Struan olhou para Robb. — Seu alfaiate, Robb?
— Sim. — Logo que nos instalarmos em Hong Kong.
— Vamos mandar chamá-lo amanhã, para que venha de Macau, com seus ajudantes. A menos que já esteja em Hong Kong. Por cinco meses, rapaz?
— Está bem. Mas ainda acho esquisito.
Struan tornou a encher os copos.
— Agora, acho que deveríamos comemorar o renascimento da Casa Nobre.
— Como, Dirk? — perguntou Robb.
— Daremos uma festa.
— O quê? — Culum ergueu os olhos, excitadíssimo, com a indignação esquecida.
— Sim. Um baile. Para toda população européia. Em estilo principesco. Daqui a um mês.
— Isso vai causar o maior corre-corre! — disse Robb.
— O que quer dizer, tio?
— Haverá o maior pânico entre as senhoras. Todas competirão pela honra de ser a mais bem-vestida... segundo a última moda! Vão dar em cima dos maridos e tentar roubar os costureiros das outras! Meu Deus, um baile é uma idéia maravilhosa. Fico imaginando o que Shevaun vai usar.
— Nada... se isto lhe agradar! — Os olhos de Struan brilharam. — Sim, um baile. Daremos um prêmio para a senhora que estiver mais bem-vestida. Acho que o prêmio...
— Não ouviu falar do julgamento de Paris? — perguntou Robb, horrorizado.
— Sim, mas Aristotle será o juiz.
— Ele é inteligente demais para aceitar um encargo desses.
— Veremos. — Struan refletiu por um momento. — O prêmio tem de ser valioso. Mil guinéus.
— Você deve estar brincando! — disse Culum.
— Mil guinéus.
Culum ficou acabrunhado com a idéia de tal extravagância. Era obsceno. Criminoso. Mil guinéus na Inglaterra, hoje, e a pessoa poderia viver como um rei por cinco ou dez anos. O salário de um operário de fábrica, que trabalhava do amanhecer até o entardecer, e continuando pela noite adentro, seis dias por semana, durante todas as semanas do ano, era entre quinze e vinte libras anuais — e com isso tinha um lar e os filhos eram criados e mantida sua mulher, com pagamento de aluguel, comida, roupas, carvão. Meu pai está louco, pensou ele, embriagado pelo dinheiro. Pense nos vinte mil guinéus que arriscou na estúpida aposta com Brock e Gorth. Mas aquilo foi um jogo para se livrar de Brock. Um jogo que valeria a pena, se desse certo, e, de certo modo, deu — as barras de prata encontram-se no China Cloud e estamos ricos outra vez. Ricos.
Agora, Culum sabia que ser rico significava não ser mais pobre. Sabia que seu pai estava certo — não era o dinheiro que importava. Só a falta dele.
— É demais, demais — disse Robb, chocado.
— Sim. De certa maneira, é. — Struan acendeu um charuto. — Mas é dever da Casa Nobre ser principesca. A notícia vai se espalhar como nenhuma outra antes. E os
relatos a respeito circularão por cem anos. — Pôs a mão no ombro de Culum. — Jamais esqueça outra regra, rapazinho: quando você está fazendo apostas altas, tem de assumir grandes riscos. Se não está preparado para arriscar muito, não faz parte do jogo.
— Uma soma tão grande pode fazer, digamos, algumas pessoas arriscarem mais dinheiro do que poderiam gastar. Isso não é bom, verdade?
— Dinheiro é para ser gasto. Eu diria que este vai ser um dinheiro bem gasto.
— Mas o que você está disputando?
— Prestígio, rapaz. — Struan virou-se para Robb. — Quem será a vencedora? Robb balançou a cabeça, atarantado.
— Não sei. Beleza... Shevaun. Mas a melhor vestida? Algumas arriscariam uma fortuna para conseguir essa honra, quanto mais o prêmio.
— Você já conhece Shevaun, Culum?
— Não, papai. Eu a vi uma vez passeando na estrada que George... George Glessing, construiu, do Cabo Glessing ao Vale Feliz. A Srta. Tillman é linda. Mas acho a Srta. Sinclair muito mais atraente. Tão encantadora... George e eu passamos algum tempo em sua companhia.
— É verdade? — Struan reprimiu seu repentino interesse.
— Sim — replicou Culum, ingenuamente. — Tivemos um jantar de despedida com a Srta. Sinclair e Horatio, no navio de George. O pobre George teve seu navio tomado. Ele estava muito aborrecido. Vamos realmente ter um baile?
— Por que Glessing perdeu o navio?
— Longstaff nomeou-o chefe e superintendente principal do porto, e o almirante ordenou-lhe que aceitasse. A Srta. Sinclair concordou comigo que era uma boa oportunidade para ele... mas ele não pensa assim.