— Você gosta dele?
— Ah, sim. Foi muito gentil comigo. — Culum quase acrescentou: mesmo sendo eu o filho do Tai-Pan. Ele agradecia sua sorte por Glessing e ele terem um interesse em comum. Ambos eram ótimos jogadores de críquete — Culum fora o capitão do time na universidade e, no ano anterior, jogara por seu condado.
— Por Júpiter — dissera Glessing — você deve ser ótimo. Eu só joguei pela marinha. Que posição você ocupava?
— Defesa da meta, primeira posição.
— Por Deus... eu só consegui até agora ficar em segunda. Diabo, Culum, meu velho, talvez devêssemos separar um lugar para um campo de críquete, hein? Praticar um pouco, não é?
Culum sorriu para si mesmo, muito alegre por ser um jogador de críquete. Sem isso, ele sabia que Glessing o teria afastado, e então não teria tido o prazer de estar perto de Mary. Ficou imaginando se não poderia acompanhá-la ao baile.
— A Srta. Sinclair e Horatio gostam muito de você, papai.
— Pensei que Mary estivesse em Macau.
— Ela estava, papai. Mas voltou a Hong Kong há alguns dias, uma semana, mais ou menos. Ela é linda, não é? Houve um repentino soar de sino do navio e ruído de pés correndo e o grito:
“Todos os homens ao convés!” Struan saiu como um raio da cabina.
Robb começou a segui-lo, mas parou à porta da cabina.
— Duas coisas, rapidamente, enquanto estamos sozinhos, Culum. Primeiro, faça o
que o seu pai diz e seja paciente com ele. Ele é um homem estranho, com idéias estranhas, mas a maior parte delas funciona. Em segundo lugar, eu o ajudarei em tudo o que puder a se tornar Tai-Pan. — Depois, saiu correndo da cabina, com Culum atrás dele.
Quando Struan irrompeu no tombadilho, a tripulação já estava em posições de ação e abrindo as janelas de tiro e, lá em cima, os homens subiam pelo cordame.
Bem em frente, espalhado contra o horizonte, estava uma ameaçadora frota de juncos de guerra.
— Pela bunda de Thor, é uma maldita frota! — disse o Capitão Orlov. — Contei mais de cem, Tai-Pan. Viramos e fugimos?
— Mantenha seu curso, Capitão. Temos a velocidade deles, Desocupar o convés! Vamos nos aproximar e dar uma olhada. Içar velas no mastaréu e sobre a proa! Orlov berrou para cima:
— Içar velas no mastaréu e na proa! A todo pano! — Os oficiais escutaram os gritos e os marinheiros correram para os ovéns e desdobraram as velas, fazendo o China Cloud ganhar velocidade e cortar as águas.
O navio se encontrava no canal entre a grande Ilha de Pokliu Chau, duas milhas a bombordo e a Ilha de Ap Li Chau, de menores dimensões, meia milha a estibordo. Ap Li Chau ficava a um quarto de milha ao lago da costa da Ilha de Hong Kong e formava uma bela baía que fora designada Aberdeen. Na costa de Aberdeen, havia uma pequena vila de pescadores. Struan observou mais sampanas e juncos de pesca do que existiam ali há um mês.
Robb e Culum subiram ao tombadilho. Robb viu os juncos e seu couro cabeludo formigou.
— Quem são eles, Dirk?
— Não sei. Saiam daí!
Culum e Robb se afastaram com um pulo, quando um grupo de marinheiros desceu pelo cordame e deu nós mais fortes nas amarras, correndo em seguida à popa, para posições de ação. Struan passou os binóculos para Mauss, que se arrastara a seu lado.
— Consegue distinguir a bandeira, Wolfgang?
— Não, ainda não, Tai-Pan. — Wolfgang, com a boca seca, espiava um grande e pesado junco de guerra, à frente dos outros, um dos maiores que já vira, mais de duzentos pés de comprimento e cerca de quinhentas toneladas, com a proa dominadora adernando lentamente, sob a pressão de três imensas velas. — Gott im Himmel, o número deles é grande demais para ser uma frota de piratas. Serão uma armada invasora? Com certeza, não ousariam atacar Hong Kong, estando tão próxima a nossa frota.
— Logo descobriremos — disse Struan. — Dois pontos a estibordo!
— Dois pontos a estibordo — bradou o timoneiro.
— Manter o curso! — Struan verificou a posição das velas. O palpitar do vento e o cordame esticado enchiam-no de excitação.
— Vejam! — Capitão Orlov gritou, apontando em direção à popa.
Outra flotilha de juncos arremeda, saindo de trás da extremidade sul de Pokliu Chau, preparando-se para cortar a retirada deles.
— É uma emboscada! Preparar para virar de bordo...
— Alto, Capitão! Eu estou no tombadilho!
O Capitão Orlov se aproximou mal-humorado do timoneiro, e ficou junto à bitácula, maldizendo a regra segundo a qual quando o Tai-Pan estava no tombadilho de qualquer navio da Casa Nobre, ele era o capitão.
Bom, pensou Orlov, boa sorte, Tai-Pan. Se não dermos a volta e corrermos, aqueles juncos emboscados vão cortar nosso curso e os outros, adiante, nos farão afundar, acabando com meu belo navio. Ah, não acabam, não! Vamos fazer trinta deles voarem para as covas em chamas do Valhala, e passaremos navegando entre eles, como uma Valquíria.
E, pela primeira vez, em quatro dias, esqueceu-se das barras de prata e, cheio de júbilo, pensou apenas na luta que ia começar.
A sineta do navio tocou oito vezes.
— Permissão para descer, Capitão! — disse Orlov.
— Sim. Leve o Sr. Culum e lhe mostre o que fazer. Orlov seguiu adiante de Culum, agilmente, até as profundezas do navio.
— Aos oito toques de sineta, na vigília da manhã, isto significa meio-dia, na contagem do tempo feita em terra, é dever do capitão dar corda no cronômetro — disse ele, aliviado de estar afastado do tombadilho, agora que Struan usurpara o comando. Mas também, ele disse a si próprio, se você fosse o Tai-Pan, faria o mesmo. Jamais permitiria que qualquer outra pessoa executasse a tarefa mais bela do mundo, enquanto você se encontrava ali.
Seus pequenos olhos azuis examinavam Culum. Ele vira o imediato desagrado de Culum e seus olhares disfarçados para suas costas e as pequenas pernas. Mesmo depois de quarenta anos suportando olhares assim, ele ainda detestava que o considerassem uma monstruosidade.
— Nasci durante uma tempestade de neve, num bloco de gelo flutuante. Minha mãe disse que era tão bonito que o espírito do mal, Vorg, esmagou-me com seus cascos, uma hora depois do meu nascimento.
Culum se mexeu, desajeitado, na semi-obscuridade.
— Ah?
— Vorg tem cascos fendidos. — Orlov deu uma risadinha. — Você acredita em espíritos?
— Não. Acho que não.
— Mas acredita no Demônio? Como todos os bons cristãos?
— Sim. — Culum tentava não demonstrar medo em sua expressão facial. — O que precisa ser feito com o cronômetro?
— É preciso dar corda nele. — Outra vez, Orlov deu uma risadinha. — Se você tivesse nascido como eu, talvez fosse Culum, o Corcunda, em vez de Culum, o Alto e Louro, hein? Então olharia as coisas de maneira diferente.
— Sinto muito... deve ter sido duro para você.
— Não foi duro... o Shakespeare de vocês teve palavras mais expressivas. Mas não se preocupe, Culum, o Forte. Posso matar um homem duas vezes maior do que eu com a maior facilidade. Gostaria que lhe ensinasse a matar? Não poderia ter melhor professor do que eu, a não ser o Tai-Pan.
— Não. Não, obrigado.
— É bom aprender. Muito bom. Pergunte a seu pai. Um dia, você vai precisar saber isso. Sim, muito breve. Sabia que eu tenho o dom da profecia? Culum estremeceu.
— Não.
Os olhos de Orlov brilharam e seu sorriso fez que se parecesse ainda mais com um duende maléfico.
— Você tem uma porção de coisas para aprender. Quer ser Tai-Pan, não é?
— Sim. Espero ser. Um dia.
— Haverá sangue em suas mãos, nesse dia.
Culum tentou controlar seu repentino sobressalto.— O que quer dizer com isso?
— Você ouviu. Terá sangue nas mãos, nesse dia. Sim. E logo vai precisar de alguém em quem possa confiar por muito tempo. Enquanto Norstedt Stride Orlov, o corcunda, for capitão de um de seus navios, você pode confiar nele.