— Eu me lembrarei disso, Capitão Orlov — disse Culum, e prometeu a si mesmo que, quando realmente se tornasse Tai-Pan, Orlov jamais seria um de seus capitães. Depois, ao tornar a olhar para o rosto do homem, teve a sensação esquisita de que Orlov adivinhara seus pensamentos.
— O que há, Capitão?
— Pergunte isso a você mesmo. — Orlov destrancou a caixa do cronômetro. Para fazer isso, precisava ficar em pé num degrau da escada. Em seguida, começou a dar corda no relógio, cuidadosamente, com uma grande chave. — É preciso dar trinta e três voltas.
— Por que você faz isso? E não um dos oficiais? — perguntou Culum, sem dar realmente muita importância àquilo.
— É dever do capitão. Um dos deveres. A pilotagem é uma das coisas secretas. Se todos a bordo soubessem pilotar, haveria um motim atrás do outro. É melhor que só o capitão e uns poucos oficiais saibam. Então, sem eles, os marinheiros estariam perdidos e indefesos. Mantemos o cronômetro trancado, neste local, por uma questão de segurança. Não é bonita? A feitura? Feito por bons cérebros ingleses e boas mãos inglesas. Marca com exatidão a hora de Londres.
Culum sentiu a proximidade do passadiço e a náusea crescendo dentro dele — sobrecarregada pelo medo de Orlov e da batalha que ia começar. Mas se controlou e decidiu que não permitiria a Orlov irritá-lo, até lhe fazer perder a cabeça, e tentou fechar as narinas para não sentir o cheiro ácido e penetrante da água suja do fundo do casco. Mais tarde, haverá um ajuste de contas, jurou.
— O cronômetro é tão importante assim?
— Esteve na universidade e pergunta isso? Sem essa beleza, estaríamos perdidos. Já ouviu falar no Capitão Cook? Ele usou o primeiro cronômetro, e o testou, há sessenta anos. Até aquela data, não tínhamos nenhum meio de descobrir em que longitude nos encontrávamos. Mas agora, com a hora exata de Londres e o sextante, sabemos onde estamos, milha por milha. — Orlov tornou a fechar a caixa e lançou um olhar abrupto para Culum. — Sabe usar um sextante?
— Não.
— Quando tivermos afundado os juncos, eu vou lhe mostrar. Acha que pode ser Tai-Pan da Casa Nobre em terra? Hein?
Houve um ruído de pés correndo no convés, e eles sentiram o China Cloud pular ainda mais rápido, através das ondas. Ali embaixo, todo o navio parecia pulsar, cheio de vida.
Culum lambeu os lábios secos.
— Poderemos afundar tantas embarcações e escapar?
— Se não, nós nadaremos. — O homenzinho olhou radiante para Culum. — Já naufragou, ou afundou?
— Não. E não sei nadar.
— Se é marinheiro, melhor não saber nadar. Nadar só prolonga o inevitável... se o mar quer você, e se sua hora chegou. — Orlov puxou a corrente, para se certificar de que
o cadeado estava seguro. — Há trinta anos que estou no mar e não sei nadar. Já naufraguei mais de dez vezes, dos mares da China ao Estreito de Bhering, mas sempre encontrei algum pedaço de mastro ou bote. Um dia, o mar vai me pegar. Quando chegar a hora. — Afrouxou o chicote de ferro, no pulso. — Vou ficar satisfeito de voltar ao porto.
Culum, cheio de reconhecimento, seguiu-o pelo passadiço acima.
— Você não confia nos homens que estão a bordo?
— Um capitão confia em seu navio, só em seu navio. E em si mesmo, apenas.
— Você confia em meu pai?
— Ele é o capitão.
— Não entendo.
Orlov não respondeu. Ao chegar ao tombadilho, observou as velas e franziu a testa. Pano demais, muito perto da costa. Um número excessivo de recifes desconhecidos e um cheiro de borrasca, em alguma parte. A linha invasora de juncos encontrava-se duas milhas à frente: implacável, silenciosa, aproximando-se deles.
O navio estava a todo pano, as velas principais ainda rizadas, toda a embarcação pulsando de alegria. Esta alegria tomava conta da tripulação. Quando Struan ordenou que as rizes fossem soltas, eles pularam para o cordame, cantaram enquanto colocavam as velas nos lugares e esqueceram as barras de prata que os contaminavam. O vento se tornou mais forte e as velas estalejaram. O navio adernou e ganhou velocidade, com a água do mar espumando como fermento nos embornais.
— Sr. Cudahy! Dê uma olhada lá embaixo e traga as armas para cima!
— Sim, sim, senhorrr — Cudahy, o primeiro-imediato, era um irlandês de cabelos negros, com olhos que dançavam, e usava um brinco de ouro.
— Manter o rumo! Vigia nos convés! Preparar canhão! Carregar a metralha!
Os homens se atiraram aos canhões, fizeram-nos girar para fora das portinholas das canhoneiras, carregaram-nos com a metralha e, outra vez girando-os, recolocaram-nos em seus lugares.
— Grupo de tiro número três, dose dupla extra de rum! Número dezoito, limpar o fundo do casco!
Houve vivas e pragas.
Era um hábito que Struan iniciara há muitos anos. Quando ia haver uma luta, o primeiro grupo de tiro da tripulação era recompensado e o último incumbido de executar a tarefa mais suja do navio.
Struan examinou o céu e o esticamento das velas e virou o binóculo em direção ao grande junco de guerra. Tinha muitas portinholas de canhoneiras, um dragão como figura de proa e uma bandeira que, àquela distância, ainda era indistinta. Struan via dúzias de chineses no convés e tochas acesas.
— Aprontem os barris de água! — gritou Orlov.
— Para que são os barris de água, papai? — perguntou Culum.
— Para apagar incêndios, rapaz. Os juncos têm tochas ardendo. Devem ter um bom estoque de foguetes acesos e bombas de mau cheiro. As bombas de mau cheiro são feitas de piche e enxofre. Podem causar devastação num clíper, quando não se está preparado. — Olhou em direção à popa. A outra flotilha de juncos entrava no canal, atrás deles.
— Estamos cercados, não? — perguntou Culum, “com o estômago dando voltas.”
— Sim. Mas só um louco iria por aquele caminho. Olhe para o vento, rapaz. Por aquele caminho teríamos de navegar contra ele, e algo me diz que ele logo vai mudar contra nós. Mas, para a frente, temos o vento e a velocidade de qualquer junco. Veja como são pesados, rapazinho! Como cavalos de carreta contra nós... um navio veloz. Temos dez vezes mais poder de disparo, navio contra navio.
Uma das adriças no alto do mastro principal se partiu abruptamente e a verga rangeu, batendo contra o mastro e deixando a vela solta a adejar.
— Vigia de bombordo para cima! — berrou Struan. — Mandem subir a corda de sustentação do sobrejoanete!
Culum observou os marinheiros agarrarem-se à verga, quase no alto do mastro principal, com o vento açoitando-os, a se segurarem com unhas e dentes, sabendo que ele jamais faria aquilo. Sentiu a bílis do medo em seu estômago. Não conseguiu esquecer o que Orlov dissera: sangue em suas mãos. Sangue de quem? Cambaleou até a amurada e vomitou.
— Toma aqui, rapazinho — disse Struan, oferecendo a bolsa de água que estava pendurada numa malagueta. Culum empurrou-a, detestando o pai por ter notado que ele estava enjoado.
— Limpe a boca, pelo amor de Deus! — a voz de Struan era áspera.
Culum obedeceu, desconsoladamente, e não notou que a água, na verdade, era chá frio. Bebeu um pouco e se sentiu enjoado outra vez. Então, lavou a boca e sorveu um pouquinho do líquido, sentindo-se péssimo.
— A primeira vez em que entrei em combate, estava enjoado como um criado bêbado... mais enjoado do que você pode imaginar. E mortalmente assustado.
— Não acredito — respondeu Culum, com voz fraca. — Você nunca esteve amedrontado e nem enjoado em sua vida. Struan resmungou:
— Bom, você pode crer. Foi em Trafalgar.
— Eu não sabia que você tinha estado lá! — De tão pasmado, Culum, por um momento, esqueceu seu enjôo.
— Eu era carregador de pólvora. A Marinha usa crianças nas naus capitânias para levar pólvora do depósito até o convés de tiro. A passagem tinha de ser tão pequena quanto possível, para diminuir as chances de ser atingida por um disparo, fazendo todo o navio explodir.