Struan lembrava-se das armas que rugiam, dos gritos dos feridos, dos membros humanos espalhados pelo convés, escorregadios com o sangue — do fedor do sangue e de como os embornais estavam vermelhos. O cheiro de vômito no pequeno túnel negro que jamais terminava, viscoso de vômitos. Era preciso subir às apalpadelas até os canhões que explodiam, levando barriletes de pólvora e, depois, descer às cegas, mais uma vez, para a horrível escuridão, com os pulmões em fogo, o coração transformado numa máquina violenta, lágrimas de terror escorrendo — hora após hora.
— Eu estava mortalmente assustado.
— Você esteve realmente em Trafalgar?
— Sim. Eu tinha sete anos. Não era o mais velho do meu grupo, mas o mais assustado. — Struan deu palmadas calorosas no ombro do filho. — Então, não se preocupe. Não tem nada errado nisso.
— Não estou com medo agora, papai. É apenas o fedor do porão.
— Não se iluda. É o fedor do sangue que você acha que cheira... e o medo de que seja seu.
Culum, depressa, debruçou-se sobre a amurada do navio, vomitando outra vez. Embora o vento estivesse forte, não varria, de sua cabeça, o enjoativo cheiro doce, e nem, de sua mente, as palavras de Orlov. Struan foi até o barril de conhaque, bebeu uma dose dupla e entregou outra a Culum, ficando a observá-lo enquanto ele bebia.
— Com sua licença, senhorrr — disse o camaroteiro. — O banho que foi pedido está pronto, senhorrr.
— Obrigado. — Struan esperou até o camaroteiro se unir ao seu grupo de tiro e então disse a Culum: — Desça, rapaz. Culum se sentiu cheio de humilhação.
— Não. Estou bem aqui.
— Desça! — Embora fosse uma ordem, foi dada com gentileza, e Culum sabia que lhe estava sendo oferecida a oportunidade de descer e fugir à vergonha.
— Por favor, papai — disse ele, quase em prantos. — Deixe que eu fique. Sinto muito.
— Não precisa se desculpar. Já enfrentei este tipo de perigo mil vezes, e então é fácil para mim. Sei o que esperar. Desça, rapaz. Haverá tempo suficiente para tomar banho e voltar para o convés. E participar de um combate, se houver combate. Por favor, desça.
Desconsoladamente, Culum obedeceu.
Struan passou a prestar atenção em Robb, que estava inclinado por sobre a amurada, pálido feito cera. Struan ficou pensando, por um momento, depois se aproximou dele.
— Quer me prestar um favor, Robb? Fazer companhia ao rapaz? Ele não está se sentindo bem, de jeito nenhum. Robb forçou um sorriso.
— Obrigado, Dirk. Mas, desta vez, eu preciso ficar, enjoado ou não. Será uma armada invasora?
— Não, rapaz. Mas não se preocupe. Podemos abrir caminho entre eles a tiro, se for preciso.
— Eu sei. Eu sei.
— Como vai Sarah? Ela está bem perto de ter criança, não? Desculpe, eu esqueci de perguntar.
— Ela está bem, como a maioria das mulheres quando faltam poucas semanas. Eu vou ficar satisfeito, quando a espera acabar.
— Sim. — Struan virou-se e ajustou ligeiramente o curso do navio.
Robb forçou sua mente a se desligar dos juncos, que pareciam encher o mar, adiante. Espero que seja outra menina, pensou ele. As meninas são muito mais fáceis de criar do que os meninos. Espero que ela seja como Karen. Minha querida Karen!
Robb detestou a si mesmo outra vez por ter gritado com ela aquela manhã — tinha sido ainda aquela manhã, que todos estavam juntos no Thunder Cloud. Karen desaparecera, e Sarah e ele pensaram que tivesse caído por sobre a amurada. Ficaram frenéticos e, quando começou a busca, Karen chegou alegremente ao convés, vinda do porão, onde estava brincando. E Robb ficara tão aliviado que gritara com ela, e Karen se refugiara soluçando nos braços da mãe. Robb amaldiçoara sua mulher por não tomar conta de Karen com mais cuidado, sabendo que não era culpa de Karen, mas sem conseguir se conter. Então, dentro de alguns minutos, a pequena Karen estava como qualquer outra criança, rindo com facilidade, tudo esquecido. E ele e Sarah como quaisquer outros pais, ainda perturbados com a raiva mútua, sem esquecer nada...
Pela frente e por trás, as frotas de juncos bloqueavam as vias de escape do China Cloud. Robb viu o irmão inclinado contra a bitácula, acendendo descontraidamente um charuto num pavio em chamas de um canhão, e desejou ser tão calmo.
Ó Deus, dai-me forças para suportar cinco meses e mais doze meses e a viagem para casa e, por favor, tornai mais fácil o parto de Sarah. Ele se debruçou por sobre a balaustrada e se sentiu muito enjoado.
— Dois pontos a bombordo — disse Struan, observando a costa de Hong Kong, com cuidado.
Ele estava quase suficientemente perto dos rochedos proeminentes ao largo da proa, a estibordo, e bem a barlavento da linha dos juncos. Alguns minutos mais e iria virar e investir contra o junco que já marcara para a morte, e atravessaria a linha com segurança
— se não houvesse navios de tiro, e se o vento não diminuísse, e se nenhum recife ou baixio escondido danificasse o navio.
O céu escurecia ao norte. A monção se mantinha forte, mas Struan sabia que, naquelas águas, o vento poderia mudar um quarto ou mais com alarmante rapidez, ou uma violenta borrasca era capaz de varrer os mares. Com o navio a tanto pano, poderia ficar em grande perigo, pois o vento rasgaria suas velas antes de poder-se rizá-las, ou quebraria os mastros. Então, além disso, poderia haver também muitos recifes e escolhos esperando para rasgar o bojo da embarcação. Não havia mapas daquelas águas. Mas Struan sabia que só usando a velocidade eles poderiam escapar. E com pagode.
— Gott im Himmel! — Mauss estava espiando pelo binóculo — É o Lótus! O Lótus de Prata!
Struan agarrou o binóculo e focalizou a bandeira que drapejava no alto do grande junco: um lótus de prata com o fundo vermelho. Não havia erro. Era o Lótus de Prata, a bandeira de Wu Fang Choi, o rei dos piratas, cujo sadismo era lendário, cujas incontáveis frotas pilhavam e dominavam as costas de todo sul da China, extorquindo tributos num raio de mil milhas, de norte a sul. Pelo que se supunha, sua base era em Formosa.
— O que estará Wu Fang Choi fazendo nessas águas? — perguntou Mauss. Outra vez, sentiu uma estranha mistura de medo e esperança crescendo dentro dele. Sua vontade será feita, ó Senhor.
— As barras de prata — disse Struan. — Devem ser as barras de prata. De outra maneira, Wu Fang Choi jamais se arriscaria a vir aqui, com nossa frota tão próxima.
Durante anos, os portugueses e todos os negociantes pagavam tributos a Wu Fang Choi pelo salvo-conduto de seus navios. Os tributos saíam mais baratos do que a perda dos navios mercantes, e seus juncos mantinham os mares do sul da China livres de outros piratas — a maior parte do tempo. Mas, com a chegada da força expedicionária, no ano passado, os negociantes ingleses haviam parado de pagar por sua passagem livre, e uma das frotas piratas de Wu Fang Choi começara a saquear as vias marítimas e a costa perto de Macau. Quatro fragatas da Marinha Real saíram à caça e destruíram a maioria dos juncos piratas, seguindo aqueles que fugiram para a Baía Bias — um reduto dos piratas na costa, quarenta milhas ao norte de Hong Kong. Ali, as fragatas destroçaram os juncos e sampanas piratas e investiram contra duas vilas dos piratas. Desde aquele tempo, a bandeira de Wu Fang Choi não se aventurara por perto.
Um canhão estrondeou na nau capitania dos piratas e, espantosamente, todos os juncos, com exceção de um, viraram com o vento e abaixaram as velas principais, deixando apenas as velas curtas à popa para ficar à deriva. Um pequeno junco destacou-se da frota e se encaminhou para o China Cloud.