— Virar o timão! — Struan ordenou, e o China Cloud mudou de posição com relação ao vento. As velas adejaram ansiosamente e o navio perdeu velocidade e quase parou. — Mantenha a proa em direção ao vento!
— Sim, sim, senhorrr!
Struan olhou através do binóculo para o pequeno junco. No mastro principal drapejava uma bandeira branca.
— Pela morte de Cristo! Que brincadeira é essa? Os chineses jamais usam uma bandeira de trégua!
A embarcação se aproximou e Struan ficou ainda mais assombrado ao ver um europeu alto de barba negra, vestido com pesadas roupas marítimas, espada à cinta, timoneando o junco. Ao lado do homem, estava um rapaz chinês, ricamente trajado, com túnica e calças de brocado verde e botas negras macias. Struan viu o europeu apontar seu longo telescópio para o China Cloud. Depois de um momento, o homem depôs o telescópio, riu ruidosamente e acenou.
Struan passou o binóculo para Mauss.
— O que pensa daquele homem? — Ele se inclinou para o Capitão Orlov, que tinha um telescópio apontado para o junco. — Capitão?
— Pirata, com certeza — Orlov entregou seu telescópio a Robb. — Outro boato está confirmado... de que Wu Fang Choi tem europeus em sua frota.
— Mas por que todos iriam abaixar as velas, Dirk? — perguntou Robb, com incredulidade.
— O emissário vai dizer-nos. — Struan caminhou para a ponta do tombadilho. — Senhor — ele bradou para Cudahy — está pronto para dar um tiro de advertência?
— Sim, sim. — Cudahy pulou para o primeiro canhão e o apontou.
— Capitão Orlov! Apronte a chalupa. Você lidera o grupo de abordagem. Se não afundarmos aquele barco primeiro.
— Por que abordar, Dirk? — perguntou Robb, aproximando-se de Struan.
— Nenhum junco pirata vai chegar a menos de cinqüenta jardas. Pode ser um aviso de tiro ou estar cheio de pólvora. Em tempos como os de agora, é bom estar preparado para armadilhas.
Culum, desajeitado, apareceu na gaiúta, vestido com roupas de marinheiro — camisa grossa de lã, casaco, lã e calças boca de sino e sapatos de corda.
— Olá, rapaz — disse Struan.
— O que está acontecendo?
Struan lhe contou e acrescentou:
— As roupas ficaram bem em você, rapaz. Está com aspecto melhor.
— Estou muito melhor — disse Culum, sentindo-se desajeitado e estranho. Quando o junco pirata estava a uma distância de cem jardas, o China Cloud deu um tiro de advertência por cima da proa do outro e Struan pegou uma trompa.
— Parem! — ele gritou. — Senão vou fazer vocês explodirem. Obedientemente, o junco virou na direção do vento e deixou cair as velas, começando a derivar com a força da maré.
— Ó de bordo, China Cloud. Permissão para embarcar — gritou o homem de barba negra.
— Por que, e quem é você?
— Capitão Scragger, da cidade de Londres — gritou o homem, em resposta, e gargalhou. — Quero dar uma palavrinha com o senhor, Lorde Struan, em particular!
— Venha a bordo sozinho. E desarmado!
— Bandeira branca, camarada?
— Sim! — Struan caminhou para a grade do tombadilho. — Mantenha o junco sob cobertura, Sr. Cudahy!
— Ficará coberto, senhorrr.
Um pequeno escaler foi baixado por sobre a amurada do junco e Scragger entrou nele, agilmente, e começou a remar em direção ao China Cloud. Ao se aproximar, começou a cantar com voz forte e cadenciada. Era uma canção marítima, Derrubem o Homem.
— Sujeitinho atrevido — disse Struan, divertido, contra a vontade.
— Scragger é um nome incomum — disse Robb. — Nossa tia-avó Ethel não se casou com um Scragger, de Londres?
— Sim. Pensei na mesma coisa, rapaz. — Struan sorriu. — Talvez nós tenhamos um parente pirata.
— Não somos todos piratas? O sorriso de Struan se alargou.
— A Casa Nobre estará segura em suas mãos, Robb. Você é um homem sábio... mais sábio do que você próprio pensa. — Ele olhou outra vez para o bote. — Sujeitinho petulante.
Scragger parecia ter uns trinta e tantos anos. Seu cabelo comprido e despenteado e a barba eram negríssimos. Os olhos azuis-claros e pequenos e as mãos pareciam presuntos. Argolas de ouro pendiam de suas orelhas e uma cicatriz irregular enrugava a metade esquerda de seu rosto.
Ele amarrou seu bote e subiu pela rede de embarque com a facilidade de quem tem prática. Ao pular sobre o convés, tocou a testa com fingida deferência em direção ao tombadilho e fez uma curvatura elaborada.
— Bom-dia, Excelências! — Depois, para os marinheiros que o olhavam, boquiabertos: — Bom-dia, camaradas! Meu patrão, Wu Fang Choi, lhes deseja uma boa viagem para casa! — Ele riu e mostrou os dentes estragados, e depois foi até o tombadilho e parou diante de Struan. Era mais baixo do que Struan, porém mais corpulento. — Vamos descer!
— Sr. Cudahy, reviste-o!
— Ora, estamos com bandeira branca e eu não estou armado, pode ter certeza. Tem minha palavra! — disse Scragger, com a cara mais inocente do mundo.
— Será revistado, de qualquer maneira! Scragger se submeteu à revista.
— Está satisfeito, Tai-Pan?
— Por enquanto, sim.
— Então, vamos descer. Sozinhos. Como eu pedi.
Struan verificou a escorva de sua pistola e fez sinal a Scragger para descer pelo passadiço.
— O resto de vocês fica no convés.
Para espanto de Struan, Scragger seguia pelo navio com a familiaridade de quem já estivera a bordo. Ao chegar à cabina, deixou-se cair na poltrona e estirou as pernas, satisfeito.
— Gostaria de molhar a garganta, antes de começarmos, por favor. Remar dá sede.
— Rum?
— Conhaque. Ah, conhaque! E, se tiver um barrilete disponível, eu estaria bem inclinado.
— A quê?
— A ser paciente. — Os olhos de Scragger eram de aço. — Você é exatamente como eu pensei.
— Disse que veio da cidade de Londres?
— Sim, é verdade. Há muito tempo. Ah, obrigado — disse Scragger, aceitando o canecão de ótimo conhaque. Ele o cheirou com amor, depois engoliu-o, suspirou e acariciou as suíças engorduradas. — Ah, conhaque, conhaque! A única coisa errada na minha atual função é a falta de conhaque. Faz bem ao meu coração.
Struan tornou a encher o canecão.
1.— Obrigado, Tai-Pan.
2.Struan brincava com sua pistola.
3.— De que parte de Londres você é?
4.— Shoreditch, camarada. Foi lá que me criei.
5.— Qual o seu nome de batismo?
— Dick. Por quê?
Struan deu de ombros.
— Agora, diga por que veio — falou. Planejava escrever, pelo próximo correio, para descobrir se Dick Scragger era o nome de um descendente de sua tia-avó.
— Vou dizer, Tai-Pan, vou dizer. Wu Fang Choi quer falar com você. A sós. Agora.
— A respeito de quê?
— Eu não lhe perguntei, e nem ele me disse. “Vá buscar o Tai-Pan”, foi o que falou. Então, eu estou aqui. — Esvaziou o canecão e depois sorriu, com afetação. — Vocês têm barras de prata a bordo, é o que dizem os boatos. Hein?
— Diga a ele que eu o verei aqui. Ele pode vir a bordo sozinho e desarmado. Scragger estourou de rir e, inconscientemente, coçou os piolhos que o infestavam.
— Ora, você sabe que ele não ia fazer isso, Tai-Pan, como você também não iria a bordo do navio dele sozinho e sem proteção. Viu o menino a bordo do meu junco?
— Sim.
— É o filho mais novo dele. Será o refém. Você vai a bordo, armado, se quiser, e o menino fica aqui.
— E se o menino não for mais do que o filho de um cule, com aquelas roupas, e eu for liquidado?
— Ah, não — disse Scragger, magoado. — Tem o meu juramento, por Deus, e é verdade. Não somos um bando velhaco de piratas. Temos três mil navios em nossas frotas e dominamos essas costas, como bem sabe. Tem o meu juramento, por Deus. E o dele.