Struan notou as cicatrizes brancas nos pulsos de Scragger e teve certeza de que havia outras em seus tornozelos.
— Por que você, um inglês, está com ele?
— Ora, e por que, camarada? E por que mesmo? — Scragger replicou, erguendose. — Posso me servir de mais bebida? Obrigado, muito obrigado. — Trouxe outra vez a garrafa para a escrivaninha, e se instalou novamente. — Tem mais de cinqüenta marinheiros ingleses, na frota dele. E quinze, ou mais, americanos, e um francês. Capitães, fabricantes de canhões, atiradores, imediatos. Por ofício, eu era imediato de contramestre — ele continuou, expansivamente, inspirado pelo conhaque. — Há dez anos ou mais, naufraguei em algumas ilhas, ao norte. Os filhos da mãe dos pagãos que me pegaram para ser escravo eram do Japão. E me venderam para outros filhos da mãe pagãos, mas escapei e encontrei Wu Fang. Ele me ofereceu colocação, quando soube que eu era imediato de contramestre e sabia fazer a maior parte das coisas de bordo. — Esvaziou o canecão, arrotou e tornou a enchê-lo. — Agora, o que vamos nós fazer?
— Por que não fica a bordo, agora? Posso abrir caminho e passar por Wu Fang muito bem.
— Obrigado, camarada, mas gosto do meu emprego.
— Por quanto tempo você ficou preso?
O canecão de Scragger parou no meio do caminho e sua expressão se tornou defensiva.
— Por bastante tempo, camarada. — Ele olhou para as cicatrizes em seus pulsos.
— As marcas dos ferros, hein? Sim, elas continuam aí, depois de doze anos.
— De onde você fugiu, da Baía Botany?
— Sim, foi da Baía Botany — disse Scragger, outra vez amistoso. — Peguei quinze anos de degredo, quando era ainda rapaz ou, pelo menos, quando era mais jovem. Mais ou menos com vinte e cinco anos. Quantos anos tem você?
— Sou bastante velho.
— Eu nunca soube minha idade com certeza. Talvez tenha trinta e cinco ou quarenta e cinco. Sim, quinze anos, por matar um imediato nojento, numa nojenta fragata.
— Teve sorte de não ser enforcado.
— Ah, isso tive. — Scragger, todo feliz, arrotou outra vez.
— Gosto de conversar com você, Tai-Pan. Mudo um pouco, dos meus imediatos.
Sim, fui deportado de Blighty. Nove meses no mar, acorrentado com mais quatrocentos outros pobres-diabos e mais ou menos a mesma quantidade de mulheres. Acorrentados no porão, pois é. Nove meses, ou mais. Passando a água e bolacha, nada de carne. Isso não é maneira de se tratar um homem, de jeito nenhum. Cem entre nós viveram até chegar em terra. Fizemos um motim no porto de Sidney e rompemos as correntes. Matamos todos os nojentos carcereiros. Depois, ficamos no mato por um ano, e então eu achei emprego num navio. Um navio mercante. — Scragger deu uma risadinha malévola. — Pelo menos, nos alimentávamos dos navios mercantes. — Ele olhou para as profundezas de seu canecão, e seu sorriso desapareceu. — Sim, malfeitores, é o que todos somos, que Deus amaldiçoe todos os bundas-moles dos policiais — ele rosnou. Durante um momento, ficou silencioso, perdido em suas recordações. — Mas naufraguei, como já disse, e daí todo o resto.
Struan acendeu um charuto.
— Por que servir a um maldito pirata como Wu Fang?
— Eu lhe digo, camarada. Sou livre como o vento. Tenho três mulheres e toda a comida que posso comer, e pagamento, e sou capitão de um navio. Ele me trata melhor do que meus malditos aparentados. Malditos parentes! Sim. Para eles sou malfeitor. Mas, para Wu Fang, não sou, e em que outro lugar e como eu ia poder ter mulheres e comida e o produto do saque sem guarda e sem força, hein? Claro que vou ficar com ele... ou com qualquer outro que me ofereça a mesma coisa. — Levantou-se.
— Agora, virá, como ele lhe pediu, ou vamos ter de levá-lo para bordo?
— Leve-me para bordo, Capitão Scragger. Mas, primeiro, acabe seu conhaque. Será o último que vai provar neste mundo.
— Temos mais de uma centena de navios contra você.
— Deve pensar que eu sou mesmo um idiota. Wu Fang jamais se aventuraria a vir pessoalmente para essas águas. Nunca. Com nossos navios de guerra ali do outro lado de Hong Kong. Wu Fang não está na frota com vocês.
— Você é muito inteligente, Tai-Pan — riu Scragger. — Fui avisado. Sim. Wu Fang não está conosco, mas seu principal almirante, sim. Wu Kwok, seu filho mais velho. E o menino é filho dele, Esta é a verdade.
— A verdade tem muitas faces, Scragger — disse Struan. — Agora, saia do meu navio e vá para o inferno. A bandeira branca é só para sua embarcação. Vou lhe mostrar o que penso de sua maldita frota pirata.
— Você faria isso, Tai-Pan, se tivesse uma chance. Ah, eu esqueci — disse ele, e puxou uma pequena bolsa de couro que estava amarrada em torno de seu pescoço. Tirou um pedaço de papel dobrado e empurrou-o através da escrivaninha. — Disseram-me para lhe entregar isso — ele falou, com o rosto ironicamente retorcido.
Struan desdobrou o papel. Tinha o carimbo de Jin-qua. E continha uma das metades de moeda.
CAPÍTULO DEZ
Struan estava de pé, descontraidamente, na proa de sua chalupa, com as mãos enfiadas bem fundo nos bolsos de seu grosso casaco de marinheiro, um chicote de ferro amarrado ao pulso, pistolas à cinta. Seus homens remavam tensos, muito armados. Scragger permanecia sentado no meio da embarcação, cantando com voz de bêbado uma cançoneta marítima. Cem jardas adiante estava a nau capitânia dos piratas. De acordo com uma combinação prévia feita com Scragger — por insistência de Struan — a nau capitânia se afastara de sua frota protetora de juncos e se deslocara para mais perto da praia, algumas poucas jardas a sotavento do China Cloud. Ali, com apenas a pequena vela de popa erguida, para deixá-la à deriva, a nau capitania estava sob a mira dos canhões do China Cloud e à mercê deste. Mas o restante da armada de juncos ainda se encontrava em posição de bloqueio, cercando as duas embarcações.
Struan sabia que era perigoso ir a bordo de uma nau pirata sozinho, mas a moeda partida não lhe deixara nenhuma escolha. Ele queria levar Mauss consigo — um intérprete era necessário e Mauss também lutava como um demônio. Mas Scragger recusara:
— Sozinho, Tai-Pan. Tem gente a bordo que fala como pagão, e tem gente que fala inglês. Sozinho. Armado, se quiser, mas sozinho. Isto foi pedido. Antes de sair do China Cloud, Struan dera ordens finais, diante de Scragger.
— Se a nau capitania levantar velas, podem destruí-la. Se eu não tiver saído de lá dentro de uma hora, façam-na explodir.
— Ora, Tai-Pan — disse Scragger constrangido, forçando uma risada — isto não é maneira de aceitar um convite. De jeito nenhum. Lembre-se da bandeira branca, camarada.
— Façam o navio explodir. Mas, primeiro, enforquem o menino, no laís de verga.
— Não se preocupe — disse Orlov, malevolamente. — O menino estará morto e, pelo sangue de Jesus Cristo, jamais sairei destas águas enquanto existir um junco flutuando.
— Comecem a remar!
Struan ordenou, enquanto o cúter se colocava ao lado do junco. Uma centena de piratas chineses enfileiravam-se junto à amurada, conversando, zombando. Struan observou as portinholas de tiro. Quarenta canhões.
Subiu a escada de embarque e, ao chegar ao convés, viu que os canhões estavam em boas condições; barriletes de pólvora se encontravam espalhados, descuidadamente, e havia numerosas bombas de fedor e incendiárias; o navio pirata estava bem tripulado. Havia sujeira por toda parte, mas nenhum sinal de doença ou de escorbuto. As velas em boas condições, o cordame teso. Difícil — ou impossível — de tomar, em termos de equilíbrio de forças. Mas não havia possibilidade de o China Cloud afundar — com pagode.
Ele seguiu Scragger para baixo, até a cabina principal, sob o convés da popa, observando automaticamente os passadiços e avaliando possíveis riscos, para o caso de ser necessária uma retirada. Chegaram a uma suja ante-sala, apinhada de homens. Scragger abriu caminho através deles, até uma porta na extremidade do aposento, guardada por um truculento chinês, que apontou para as armas de Struan e injuriou Scragger. Mas Scragger respondeu-lhe aos gritos, em cantonês e, com desprezo, afastou o guarda com uma mão e abriu a porta.