Выбрать главу

A cabina era enorme. Almofadas sujas enchiam um estrado elevado, dominado por uma mesa baixa, laqueada em vermelho. O aposento, como toda a embarcação, fedia a suor, peixe apodrecido e sangue. Atrás da parte posterior do estrado havia uma parede de treliça, que ia do convés à antepara. Era elaboradamente entalhada e tinha cortinas do lado oposto, onde dormia o comandante. Impossível ver através dessa parede, do lado de cá, pensou Struan, mas fácil de fazer passar uma espada por ela. Notou que havia quatro vigias gradeadas e seis lanternas a óleo pendentes das traves do teto.

Abriu-se uma porta na parede de treliça.

Wu Kwok era baixo, corpulento e de meia-idade. Seu rosto era redondo e cruel, seu rabicho comprido e gorduroso. A rica túnica de seda verde, amarrada em torno da barriga proeminente, estava manchada de gordura. Usava belas botas navais de couro e seus pulsos estavam rodeados por muitas pulseiras de jade, de valor incalculável.

Ficou observando Struan por algum tempo e, depois, fez sinal para que subisse ao estrado e se sentasse a um dos lados da mesa. Struan sentou-se diante dele. Scragger recostou-se na porta fechada, coçando-se distraidamente, com um sorriso sardônico no rosto.

Struan e Wu Kwok fitaram-se impassíveis, imóveis. Afinal, Wu Kwok ergueu a mão ligeiramente e um criado trouxe pauzinhos, xícaras, chá e bolinhos — pequenos e delicados bolinhos de farinha de arroz recheados com creme de amêndoas — e um prato de dim sum variados.

Dim sum eram pequenos e delicados pastéis, com recheio de camarão, porco frito, galinha, verduras ou peixe. Alguns eram cozidos, outros bem fritos.

O criado serviu o chá.

Wu Kwok ergueu sua xícara e fez sinal a Struan para fazer a mesma coisa. Beberam silenciosamente, com os olhos fixos um no outro. Depois, o pirata pegou seus pauzinhos e escolheu um dim sum. Colocou-o no pequeno prato diante de Struan e fez sinal a ele para comer. Struan sabia que, embora lhe tivessem sido fornecidos pauzinhos, Wu Kwok esperava que ele comesse com as mãos, como um bárbaro, assim perdendo prestígio.

Filho da mãe, pensou, e agradeceu a seu pagode por ter May-may. Pegou habilmente os pauzinhos, levou o dim sum à boca e recolocou os pauzinhos em seu recipiente de porcelana, mastigando em seguida com gosto, ainda mais satisfeito por sentir o espanto do pirata — de que um bárbaro pudesse comer como uma pessoa civilizada!

Struan pegou seus pauzinhos outra vez e, meticulosamente, escolheu outro dim sum do prato: o menor e o mais delicado, o mais difícil de sustentar. Era um pastel cozido, com recheio de camarão, com a massa tão fina ao ponto de ser quase transparente. Ele o ergueu depressa e sem esforço, rezando para não o deixar cair. Segurou-o com o braço estendido, oferecendo-o a Wu Kwok.

Os pauzinhos de Wu Kwok deram um bote e ele pegou o dim sum e o carregou para seu pratinho. Mas um pequeno pedaço de camarão caiu na mesa. Embora Wu Kwok permanecesse impassível, Struan sabia que ele estava enraivecido, pois perdera prestígio.

Struan deu o coup de grâce. Inclinando-se, pegou o fragmento de camarão e o colocou em seu prato, escolhendo em seguida outro pequeno dim sum. Outra vez ele ofereceu. Wu Kwok pegou-o. Não deixou cair nenhum pedaço.

Ele ofereceu um a Struan e Struan pegou-o, casualmente, no meio do ar, comendo

o com gosto, mas recusou o próximo oferecido. Era o cúmulo da etiqueta chinesa fingir para o anfitrião que a comida era tão boa a ponto de não se poder comer mais, mesmo que ambos, anfitrião e convidado, soubessem que poderiam continuar a comer, vorazmente.

— Pegue mais grude, camarada! Tem muitos mais desses — disse repentinamente Wu Kwok, insistindo como um anfitrião faria.

O choque ao ouvir o áspero sotaque cockney vindo de Wu Kwok diminuiu o prazer de Struan com o prestígio que ganhara, ao fazer o outro falar primeiro.

— Obrigado. Estou satisfeito de que fale inglês. Isto torna as coisas mais fáceis — disse Struan. — Muito mais fáceis.

— Sim, é verdade. — Wu Kwok estava muito orgulhoso de saber falar o idioma bárbaro.

— Onde aprendeu inglês? — Struan inclinou-se e coçou o tornozelo. O estrado e as almofadas estavam infestados de pulgas.

— Onde aprendeu a comer como um chinês, hein?

Struan escolheu outro pastel.

— Tentei aprender cantonês, muitas vezes. Mas não sou bom estudante e minha língua não pode reproduzir os sons direito. — Ele comeu o pastel, delicadamente, e bebeu um pouco de chá. — O chá é excelente. De Soochow?

Wu Kwok abanou a cabeça.

— Lin Tin. Gosta do chá de Soochow?

— O de Lin Tin é melhor.

— Aprendi inglês com Scragger e outros. Durante anos. — Ele comeu por um momento e outra vez insistiu para Struan se servir de uma nova porção da deliciosa comida. — Coma mais grude, camarada. Você é estranho. Fico satisfeito de conhecer um homem como você. Você não é comum, aposto. Seria capaz de matar muitos por dia, muitos.

Os olhos de Struan tornaram-se mais verdes e mais luminosos.

— Você morreria muito depressa. Meus métodos são diferentes dos seus. Num momento, vivo, no outro, morto. — Estalou os dedos. — É melhor... para amigo ou inimigo. Ou para um cão danado!

— Por que você fala tão estranho, hein? — Wu Kwok perguntou, depois de uma pausa perigosa.

— O quê?

— Você não fala como eu. É difícil entender você. O sotaque é diferente.

— Há muitos dialetos... tipos... de inglês — disse Struan calmamente, dando prestígio a Wu Kwok.

— Ele é grãfino, Wu Kwok, como eu disse — explicou Scragger. — Grã-finos falam, diferente. Eles vão pra escola, como eu lhe disse.

— Esse puto malfeitor Scragger está falando a verdade, camarada? Meu inglês correto?

— Quem fala cantonês mais correto... um camponês ou um professor? O camponês é correto para os campos, e o professor para a escola. WU Kwok recostou-se nas almofadas e bebeu seu chá. Ele rompeu o silêncio.

— Ouvimos dizer que você tem barras de prata a bordo. Quarenta laques.

— Como conseguiu isto? — Struan abriu o punho e colocou a metade da moeda sobre a mesa.

— Cada metade de moeda um favor, certo, camarada?

— Sim — disse Struan, furioso consigo mesmo, por cair na armadilha de Jin-qua.

— Como conseguiu?

— Com meu pai.

— Como ele conseguiu?

— Como acha que aquele velho salteador de estrada, Jin-qua, conseguiu meter as mãozinhas sujas em quarenta laques em barras de prata, camarada? Hein? De seus antigos companheiros de bordo, é claro. Você tem dez laques de meu pai a bordo. — A barriga de Wu Kwok tremeu, de tanto riso. — Sirva Sua Excelência de um pouco de grogue, Scragger. Ele precisando.

— Wu Fang Choi e Jin-qua são companheiros de bordo? — perguntou Struan, abalado.

— É maneira de falar, camarada. Estamos protegendo o comércio marítimo dele dos nojentos piratas. Nós somos os guardiães do mar. É justo pagar por serviços, hein? E o homem sábio investe seu dinheiro para lucrar, ? Então investimos com ele, de vez em quando. Chá, seda, ópio. Empréstimos. — Wu Kwok segurou a barriga, e lágrimas de riso escorreram de seus olhos oblíquos. — Então, agora nós somos sócios, nós e a Casa Nobre. Que investimento seria melhor, hein, camarada?