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— Qual é o seu “favor”, Wu Kwok?

— Vamos beber às barras de prata e ao seu pagode, Tai-Pan. Depois falamos.

— Ele mandou enforcar o menino, se ficasse a bordo mais de uma hora — disse Scragger, enchendo seu canecão com rum.

— E, se você mandasse levantar a vela, mandou explodirem nosso barco e enforcarem o rapaz.

— Qual é a duração de uma hora, camarada?

— É tempo bastante.

Wu Kwok comeu por um momento.

— Você mandaria enforcar o menino? — Você não mandaria? — Struan tirou seu relógio e colocou-o sobre a mesa. — Você já usou metade de seu tempo.

Wu Kwok aceitou um canecão dado por Scragger e bebeu lentamente. Struan sentiu o cabelo de seu pescoço eriçar-se, com a tensão. Ouvia os ruídos abafados de conversas em chinês, amarras esticadas e madeiras que rangiam.

Houve um fraco tamborilar de chuva no convés acima. Wu Kwok pegou um palito e limpou os dentes, com uma mão polidamente cobrindo a boca. A chuva se intensificou.

— O favor de Wu Fang Choi... — começou Wu Kwok.

— Sua frota tem vinte clíperes, não é?

— Dezenove.

— Dezenove. Em cada um deles, nós colocaremos um dos nossos rapazes. Vocês treinam eles como capitães. Oficiais. Dezenove homens. Vocês treinam eles bem. Tudo que vocês acharem preciso e quiserem para fazer deles bons capitães. Podem meter o chicote, passar por baixo da quilha, como castigo... o que quiserem, se eles não estiverem obedecendo... mas nada de mortes. Durante cinco anos, eles ficam com vocês, depois voltam pra casa. Outra coisa: dentro de um ano e um dia, nós queremos um clíper. Como o China Cloud. Pagamos o que custar, em barras de prata. Com canhões, cordames e velas como o China Cloud. Dez de nossos homens vão para Blighty ver como é construído, depois voltam pra casa com ele. Onde e como pegamos o navio, isso se combina depois... certo, Scragger?

— Sim.

— Por fim, nós damos a vocês um menino... três meninos ... para treinar. Três rapazes para treinar como grã-finos. Melhor escola de Londres — disse Wu Kwok. — Custe o preço que custar.

— Melhores roupas, carruagens, casa e comida — Scragger acrescentou. — Devem ser criados como malditos grã-finos. Tratados da melhor maneira. Universidade de Oxford ou Cambridge. Sim. Quando completarem a universidade, então voltam pra casa.

— Isso não é um favor... são muitos — disse Struan.

— Muitos... poucos... são favor — disse Wu Kwok, maldosamente. — É esse o pedido. Talvez eu tome os dez laques e também os trinta. Depois compro navio. Dinheiro compra tudo, né, camarada? Sim, eu tomo laques talvez e faço trato com Demônio de Um Olho Só, como é o nome dele?

— Brock — disse Scragger.

— Sim, Brock. Faço trato com Brock, ou algum outro. Trato é trato. Só treinar homens. Um navio. Pedido justo. Você diz sim ou não.

— Vou fazer um novo acordo com você. Leve de volta a moeda e, estando eu ou não a bordo do China Cloud, experimente só pegar todas as barras de prata, por Deus.

— Tem duzentos navios no horizonte. Eu perco cem, mas são duzentos navios, veja bem. Levo laques, Tai-Pan, levo laques. Struan pegou sua metade da moeda e se levantou.

— Está certo?

— Não está certo. Favor... você concorda com favor. Será que o Tai-Pan da Casa Nobre não tem palavra, hein? Sim, não?

— Dentro de um mês, traga cem homens, nenhum deles procurado pelos mandarins por qualquer crime, todos sabendo ler e escrever. Entre eles, escolherei dezenove para ser capitães. E dez homens para observar a construção. Traga os três meninos depois.

— É muito perigoso, camarada — disse Wu Kwok — tantos homens. — Certo, Scragger?

— Não, se forem levados, vamos dizer... para Aberdeen. Para ir à feira, não tem perigo nisso. Hein? Secretamente? Wu Kwok ficou pensando, um momento.

— Trato feito. Dentro de um mês. Aberdeen.

— Eu só entregarei o clíper a você, pessoalmente... ou a Wu Fang Choi — disse Struan. — A ninguém mais.

— A qualquer pessoa que eu mandar.

— Não.

— Ou a mim, camarada? — perguntou Scragger.

— Não. A Wu Kwok ou a Wu Fang Choi. Em mar aberto.

— Por quê? — perguntou Wu Kwok. — Hein, por quê? Qual é a malandragem que está em sua cabeça, camarada?

— Vai ser navio seu. Não vou entregar uma beleza dessas a qualquer outra pessoa. Onde está o seu prestígio, hein?

— Trato feito — disse afinal Wu Kwok. — Sem traição, por Deus, porque senão você vai pagar.

Struan, cheio de desdém, começou a caminhar para a porta, mas Scragger lhe barrou a passagem.

— Seu juramento sagrado, Tai-Pan?

— Já jurei a Jin-qua, Scragger. Você sabe o valor do meu juramento, por Deus! Scragger fez um sinal afirmativo com a cabeça a Wu Kwok e se afastou.

— Obrigado, Tai-Pan.

— Vendo como você concorda, de maneira tão gentil e amistosa, Tai-Pan — disse Wu Kwok — meu pai mandou um presente para você e uma mensagem. — Ele fez um aceno de mão para Scragger, que abriu uma arca, tirou e trouxe uma trouxa e entregou-a a Struan.

A trouxa continha uma bandeira — O Leão e o Dragão entrelaçados. E o diário de bordo de um navio: o diário de bordo do perdido Scarlet Cloud.

Struan abriu o livro e procurou a última página: “16 de novembro. Meio dia. N 11° 23' 11” E 114° 9' 22”. Tempestades continuam, forte ventania. Aos três toques da sineta, no turno intermediário da noite passada, as velas para tempestades foram arrancadas, com os mastros. Nosso navio foi atirado, desprotegido, aqui nos Recifes Tizzard onde, pela graça de Deus, veio a repousar, com a quilha arrancada e o casco esburacado.

18 de novembro. Quatro horas. Quatro juncos avistados entre nordeste e leste. Feitos preparativos finais para abandonar o navio.

18 de novembro. Cinco horas. Os quatro juncos mudaram de curso e se encaminham para nós. Distribuí mosquetes. Tentei preparar um canhão, mas fui impedido pelo adernamento do navio. Nós nos preparamos da melhor maneira possível. Para a possibilidade de serem piratas.

18 de novembro. Oito horas. Fomos invadidos. Piratas. Matamos o primeiro grupo, mas eles estão aí.”

Struan fechou o livro.

— Vocês mataram todos?

— Os juncos não faziam parte de nossas frotas regulares, camarada. Pelo menos a maioria, não.

— Vocês mataram todos?

— Eles se mataram, Tai-Pan. Eu não estava lá.

— Você sabe como alguns deles eram tratantes. Tai-Pan — disse Scragger. — Se os homens fossem de Wu Fang Choi... por que ele lhe daria o diário de bordo, hein? A notícia foi dada a Wu Fang Choi. Ele me mandou dar uma olhada. Não havia homem nenhum a bordo, quando cheguei lá. E nem corpos. Nada.

— Você saqueou o navio?

— Você conhece as leis do mar, Tai-Pan. O navio estava naufragado e abandonado. Metade da carga foi recuperada. Dezesseis canhões e uma porção de pólvora e balas.

— Onde está o cronômetro?

As sobrancelhas de Scragger se ergueram.

— Ora, a bordo do meu junco, claro, embora eu não saiba como usá-lo. Mas, quem acha, guarda, hein? É justo, hein? Mas, sabe, Tai-Pan, sabe o que os malditos malfeitores fizeram? Deixaram o cronômetro parar. Imagine isso! Juro por Deus. Deixaram ficar sem corda. Foi preciso semanas até achar um navio mercante com a hora de Londres. Um americano, o Boston Skylark. — Ele gargalhou, ao se lembrar, e depois, acrescentou — quatro dos tripulantes foram escolhidos para vir conosco.

— E o resto?

— Foram deixados à deriva, ao largo das Filipinas. Perto da praia. Juro a você. Foi há três ou quatro semanas. Wu Kwok mudou de lugar sobre as almofadas, coçando-se preguiçosamente.

— Por fim, Tai-Pan, meu pai costuma dizer “Dez taéis por navio não é muito, por uma viagem segura. Dez taéis por navio e a bandeira inglesa será protegida por Wu Fang Choi.” Você tem um novo ancoradouro agora, aqui em Hong Kong, pelo que ouvimos dizer. Cobre do seu mandarim.