— Vou cobrar a ele um tael.
— Seis é o mais barato. O mais barato. Isso é o que meu pai diz, sabendo que você é um negociante duro. Seis.
— Um.
— Sente-se. Bebemos mais grogue e aí vem mais grude — disse Wu Kwok.
— Dentro de cinco minutos, este navio explodirá e o refém será enforcado. Wu Kwok arrotou:
— Você não vai enforcar meu filho, camarada.
— Claro — disse Struan com desdém — que é algum pobre rapaz todo enfeitado. Wu Kwok riu e bebeu um grande gole.
— Você é mesmo esperto, Tai-Pan. Dois taéis por navio, o preço é esse. Cobre do seu mandarim, hein? E lhe digo mais, fique com o menino... pode enforcá-lo, se quiser, ou atirar ao mar... ele é todo seu. Traga-o para bordo e nós o enforcaremos para você.
— O quê? — explodiu Scragger. — O menino não é seu filho?
— Claro que não, Scragger. Você acha que sou idiota? — disse Struan, com dureza. — Sei o valor do juramento de um patife. — Caminhou para fora, altivamente.
— Mas você jurou e eu também — disse Scragger, horrorizado, a Wu Kwok. — Nós fizemos a ele o nosso juramento. Você disse que era seu filho. Você me disse, por Deus.
— O Tai-Pan nunca poria seu filho a bordo do nosso navio... por que ia pôr o meu no navio dele?
— Mas eu fiz a ele um juramento, por Deus. Isto é logro! Wu Kwok se levantou, muito devagar.
— Você está me chamando de trapaceiro, camarada?
— Não, patrão, não — disse Scragger, depressa, afastando do rosto sua raiva cega.
— Foi só por causa do meu juramento. Vamos manter os nossos juramentos. Não ficou bem para nós o que foi feito, não ficou bem. Isto é só o que tenho a dizer. Wu Kwok abanou a cabeça, cansadamente, ao se retirar para seu quarto de dormir.
— Os bárbaros são gente muito estranha, camarada. Muito estranha, na verdade.
— A porta de treliças se fechou.
Scragger foi para o convés. Por Deus, pensou ele, quase chorando de raiva, por Deus, isto foi demais. Eu vou dar um jeito naquele maldito pagão sujo, por Deus, juro que vou. Mas só depois que os homens forem escolhidos. Ah, só então. Antes disso, não, por Deus, porque iria estragar tudo.
Mas depois disso, por Deus, depois disso...
CAPÍTULO ONZE
O China Cloud atravessava a forte chuva, dirigindo-se à costa sul da Ilha de Hong Kong, ao porto principal do lado norte.
Os Struans jantavam na cabina principaclass="underline" ostras cozidas, lingüiças, arenques, repolho cozido com bacon, frango assado frio, biscoitos, pratos com torta de maçã e torta de fruta em conserva. Vinho seco branco, à temperatura do mar, e champanha. E chá.
— Quarenta laques... quatro moedas — disse Robb, brincando com sua comida. — Uma para Wu Fang Choi. Quem terá as outras três?
— Jin-qua guardou uma, com certeza. Talvez duas — disse Struan. Estendeu o braço até o outro lado da mesa e se serviu de outro arenque frito defumado.
— Estamos comprometidos a um imenso favor — disse Robb. — Vale dez laques para aqueles demônios. Com um clíper como o China Cloud nas mãos, ora, até fragatas podem ser destruídas. As vias marítimas asiáticas de todo o império poderão ser cortadas. Um navio... e dez homens treinados para construir mais. Dezenove homens treinados como capitães... para treinar mais! Estamos numa armadilha, e nosso futuro está numa armadilha. Terrível.
— Jin-qua enganou você. Ele enganou você — disse Culum.
— Não. Ele foi mais esperto do que eu, sim, mas mesmo isto não está correto. Eu não fui suficientemente esperto. Eu, rapaz! Não ele. Quando alguém se senta numa mesa para fazer um acordo, cada lado está obrigado a fazer o melhor acordo possível. É muito simples. Sim, eu fui mais fraco do que ele. Mas, mesmo se eu tivesse pensado que as moedas serias divididas com outros... ainda assim eu faria o acordo como ele queria. Não tínhamos opção, nenhuma opção.
— Se ele foi mais esperto do que você, Dirk, que chance tenho eu? E Culum?
— Nenhuma. A não ser se estiverem preparados a pensar por si próprios e aprender com os erros dos outros. E não tratarem os chineses como se fossem iguais a nós. Eles são diferentes.
— Sim, são — disse Culum. — Feios, repulsivos, pagãos. E impossíveis de diferenciar um do outro.
— Não concordo. Só quis dizer que eles pensam diferente — disse Struan.
— Então, qual a resposta para eles, papai?
— Se eu soubesse, acertaria todas as vezes. Eles têm cinco mil anos de prática, é isso. Agora, passe o cozido, por favor. Ah, muito bem. Culum entregou-lhe o prato e Struan se serviu de uma terceira porção.
— Você não parece perturbado, Dirk — disse Robb. — Isto poderá nos arruinar. Arruinar o comércio asiático.
— Você não está comendo, Robb. E nem você, Culum. Comam. — Struan partiu uma perna de frango e colocou-a em seu prato. — A situação não é assim tão terrível. Em primeiro lugar, os dezenove homens: sim, serão espiões de Wu Fang Choi, e de sua malta. Mas, para nós ensinarmos alguma coisa a eles, terão de aprender inglês, hein? E se pudermos falar com eles, por que não poderemos mudá-los? De piratas a cidadãos úteis?
Talvez até cristãos, hein? Dezenove chances de trazê-los para nosso lado. Boas possibilidades, eu diria. E, se estiverem do nosso lado... mesmo que só um, entre eles... então saberemos onde estão os covis dos piratas. Então nós os controlaremos e destruiremos à vontade. Em segundo lugar, o clíper: dentro de um ano e um dia, terei de enfrentar uma batalha naval, é isso. Entregarei o navio, e depois o afundarei. Não prometi não afundá-lo.
— Por que não o entregar com barris de pólvora no porão e, preso a eles, um pavio, ardendo lentamente? — perguntou Robb.
— Wu Kwok é esperto demais para isso.
— Não há nenhuma maneira de você pendurar minas do lado de fora do casco, abaixo do nível do mar?
— Talvez fosse possível, sim. Isto poderia passar despercebido, no exame que eles farão. Mas, mesmo quando a pessoa está numa armadilha, tem de tentar abrir caminho, não se pode fugir a um juramento sagrado. Nenhum truque, Robb. Nós perderíamos prestígio por um século. Eu vou matar Wu Kwok.
— Por quê?
— Para lhe ensinar o valor de um juramento. E para nos proteger durante a próxima geração. Houve um silêncio.
— Pensei que você ia para a Inglaterra dentro de cinco meses — disse Robb.
— E vou. Viajarei de volta no novo navio, quando estiver pronto. Nós vamos chamá-lo Lotus Cloud. — Struan limpou a boca com um guardanapo. — Os homens e o navio, eu posso entender. Mas por que educar três meninos como “grã-finos”? Não entendo isso. Os meninos me preocupam, e eu não sei por quê.
— Não serão filhos de Wu Kwok?
— Filhos ou sobrinhos sim, certamente. Mas por quê? O que ganharão com isso?
— Tudo que é inglês. Todos os nossos segredos — disse Culum.
— Não, rapaz. Aos meninos se aplica o mesmo que aos homens. E ainda mais. Os meninos serão convertidos com mais facilidade ao nosso estilo de vida. Wu Fang e Wu Kwok devem ter pensado nisso. Por que estariam preparados para perder três filhos? Por que serem criados como “grã-finos”, e não capitães, soldados, construtores de navios ou armeiros, alguma coisa útil? Por que “grã-finos”?
Eles não conseguiram encontrar a resposta.
Quando o China Cloud atravessou o canal oeste e entrou no porto de Hong Kong, Struan chegava ao tombadilho, para se unir a Culum e Robb. A chuva parara e o vento estava forte. A noite começava a cair. Struan se sentia reanimado e sereno. Mas, logo ao pisar no convés, sua serenidade acabou.