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— Meu Deus do céu! O porto estava apinhado com os navios mercantes da Ásia e da Frota Naval Real. E a praia cheia de tendas, que abrigavam os quatro mil soldados da força expedicionária.

O que realmente abalou Struan, entretanto, foram as centenas de sampanas chinesas agrupadas ao norte do Cabo Glessing. Verdadeiros enxames de juncos e sampanas partiam e chegavam. Milhares de pequenos casebres haviam brotado como obscenos cogumelos na encosta de uma das montanhas.

— Os chineses têm chegado aos montes, desde que voltei de Cantão — disse Culum. — Só Deus sabe quantos. Pelo menos quatro ou cinco mil. Estão nos engolindo. Chegam de sampana ou enchem os juncos e se espalham pela praia. Depois, misturam-se com essa confusão. À noite, esses demônios se esgueiram e roubam tudo que podem carregar.

— Meu Deus do céu!

— Primeiro, eles se espalhavam por toda a ilha. Depois, fiz Longstaff fixá-los naquela encosta, temporariamente. Eles chamam o lugar de Tai Ping Shan, ou algo parecido.

— Por que você não me disse?

— Queríamos que você visse pessoalmente. O tio e eu. Algumas horas não fariam diferença. A população européia, deixando de parte os soldados, é de cerca de cento e cinqüenta pessoas. Longstaff está arrancando o que lhe sobra do cabelo. Já recolhemos dez ou quinze cadáveres de chineses numa só noite, no porto. Assassinados ou afogados.

— Só vendo, para você acreditar na miséria que existe ali — disse Robb. — De que jeito vivem! Havia espaço suficiente, mas eles vieram sem parar.

— Bom — disse Struan — não sofreremos com a falta de cules e de ajuda. — Virou-se para Orlov. — Faça uma salva para a nau capitânia e transmita um sinal, em seu nome: “Permissão para ancorar à distância de oito amarras.” Todos os homens ao convés, e que se reúnam na popa!

Orlov fez um sinal afirmativo com a cabeça.

***

Os canhões do China Cloud estrondearam e houve um disparo em resposta. A permissão foi dada. A tripulação reuniu-se. Então, Struan caminhou para a balaustrada do tombadilho.

— Todos estão confinados ao navio até o meio-dia de amanhã. Nenhuma palavra sobre nossa carga. E nem digam que estou a bordo. Farei passar embaixo da quilha, como castigo, qualquer um que disser uma só palavra. Amanhã, ao entardecer, terão pagamento dobrado correspondente a um mês, em prata, entregue a todos. Oficiais montarão guarda armada por turnos, no tombadilho. Estão dispensados.

Houve três vivas para o Tai-Pan, e os homens se dispersaram.

— A que horas é a venda de terras, Culum?

— Às três, papai, amanhã. No Vale Feliz.

— Robb, certifique-se de que tem os números corretos dos lotes, antecipadamente.

— Sim. Trouxemos uma lista. Compraremos o outeiro?

— Claro.

Robb pensou, por um momento.

— Se Brock for tão inflexível quanto você, talvez nós vamos ter de colocar todo nosso futuro naquele maldito morro.

— Sim. — Struan fez sinal para Orlov. — Aos dois toques do sino, durante o turno da manhã, transmita um sinal a Brock, em nome de Robb, pedindo-lhe para vir a bordo aos quatro toques. Acorde-me aos dois toques. Até essa hora, não devo ser perturbado. Você está no comando, agora.

— Bom — disse Orlov.

— Vou dormir um pouco. Robb, você e Culum façam a mesma coisa. Temos um longo dia pela frente, amanhã. Ah, sim, Culum, talvez você possa ir planejando o baile. Onde e como. Dentro de trinta dias. Ele foi para baixo.

Quando o China Cloud se aproximava da nau capitânia, Culum se dirigiu a Orlov.

— Por favor, mande colocar de prontidão a chalupa, logo que ancorarmos.

— O Tai-Pan disse que todos estão confinados a bordo. Não haverá chalupa pronta, sem sua permissão.

— Isso, obviamente, não se aplica a nós, ao Sr. Struan e a mim — disse Culum, asperamente. Orlov deu uma risadinha.

— Você não conhece seu pai, Culum, o Forte. Ele disse “todos”. E assim será.

Culum virou-se para a portinhola, mas Orlov o deteve, com o chicote de ferro descontraidamente em sua mão.

— Ele não deve ser perturbado. Foram suas ordens.

— Saia da minha frente!

— Ele jamais dá uma ordem sem querer que seja realmente cumprida. Pergunte a seu tio. Ninguém vai à praia, enquanto eu for capitão do China Cloud. Se ele quisesse que você fosse à praia, teria dito isso.

— Ficaremos a bordo até o meio-dia, Culum — disse Robb. No meio de toda sua fúria, Culum perguntou a si mesmo se seria obedecido com tal determinação, quando fosse Tai-Pan. Sabia que uma obediência assim não era prestada automaticamente ao título. Tinha de ser conquistada.

— Muito bem, Capitão. — Ele foi ficar ao lado de Robb, na amurada. Em silêncio, observaram a ilha se aproximar. Logo podiam ver o outeiro.

— Isso vai nos deixar falidos — disse Robb.

— Agora, temos a prata. Brock não vai competir.

— Ele fará ofertas sucessivas, sabendo que Dirk irá comprá-lo a qualquer preço.

Brock só vai parar de fazer seus lances quando o preço for astronômico. Dirk está comprometido com aquele outeiro, como nós estamos comprometidos com a Casa Nobre. É uma questão de prestígio, maldito prestígio! O maldito ódio dos dois um pelo outro acabará destruindo finalmente a ambos.

— Papai disse que cuidará dele dentro de cinco meses, não disse?

— Sim, rapaz. Tem de cuidar. Eu não posso. E nem você. Culum fixava os olhos no outeiro e em Hong Kong. Goste ou não, disse a si próprio, com o estômago dando voltas, aquele é o seu reinado. Se você tiver força bastante. E nervos para assumi-lo.

De repente, ficou muito assustado.

***

Ao amanhecer, Orlov chamou todos os homens e mandou polir e limpar o imaculado navio. Aos dois toques do sino, ele transmitiu o sinal e foi para baixo.

— Bom-dia. Dois toques — disse Orlov, junto à porta trancada.

— Bom-dia, Capitão — disse Struan, abrindo a porta. — Entre. — Usava uma túnica de brocado verde e nada embaixo. Com frio ou calor, Struan dormia nu. — Mande trazer o desjejum para mim. E peça ao Sr. Robb e a Culum para virem me ver dentro de meia hora.

— As ordens serão compridas.

— Onde está Wolfgang?

— Lá em cima.

— E o rapaz chinês?

— Está com ele. Seguindo-o por aí, como um cachorro. — Orlov entregou a Struan uma lista bem escrita. — Essas embarcações se aproximaram de nós, a noite passada ou hoje de manhã, e seus ocupantes perguntaram por si. A mulher de seu irmão mandou um barco procurá-lo, com o recado de que fosse para bordo o mais rápido possível. Capitão Glessing perguntou por seu filho. Sinclair e sua irmã também perguntaram por ele. Ela perguntou por si, e então está na sua lista. Houve um sinal da nau capitânia. “Seu filho deve ir para bordo o mais rápido possível.” O Capitão Glessing praguejava como um malandro, quando eu o mandei embora.

— Obrigado.

Houve uma batida à porta.

— Sim?

— Bom-dia, senhorrr. — disse o marinheiro. — Sinal do White Witch: “Com prazer.”

— Obrigado, sinaleiro.

O homem saiu às pressas. Struan entregou a Orlov um cheque de mil guinéus.

— Com nossos cumprimentos, Capitão. Orlov leu a soma. Piscou e leu outra vez.

— É principesco. Principesco. — Entregou de volta. — Eu estava apenas cumprindo meu dever.

— Com essa quantidade de prata, não. Pegue. Você mereceu.

Orlov hesitou e depois colocou o cheque no bolso. Desamarrou o chicote de ferro e, pensativamente, colocou-o no cabide de armas, junto com os outros.

— Seu filho — disse ele, afinal — é melhor vigiá-lo. Ele vai enfrentar uma situação difícil.

— Hein? — os olhos de Struan desviaram-se depressa da lista.

— Sim. — Orlov esfregou o restolho da barba.