— Que quer dizer com isso? Mais uma de suas bruxarias?
— Sim, mais uma das minhas premonições.
— Que situação difícil? — Struan sabia, por experiência própria, que Orlov não fazia predições impensadamente. Por um número excessivo de vezes, o estranho homenzinho mostrara estar certo.
— Não sei. — Um repentino sorriso iluminou-lhe o rosto. — Quando for Tai-Pan, ele acha que vai tomar meu navio.
— Então, você vai ter de ganhar seu respeito, fazer com que mude sua maneira de pensar, senão perde mesmo.
Orlov sorriu. — Sim, vou, não tenha medo. — Depois, seu sorriso desapareceu, — Mas ele vai assumir num dia ruim. Haverá sangue em mãos. Depois de uma pausa, Struan disse:
— De quem? Meu?
Orlov deu de ombros.
— Não sei. Ele vai criar muitos problemas para você. Disso tenho certeza.
— Que filho não cria?
— Tem razão. — Orlov pensou em sua família, em Narvik. seus dois filhos, belos homens robustos, de vinte anos. Ambos o odiavam, desprezavam-no, embora ele os adorasse, e adorasse sua mulher, Leka, uma lapona. Eles eram felizes até os filhos fazerem com que ela se voltasse contra ele. — Sim — disse ele, sentindo-se muito cansado — tem razão. Como sempre.
— É melhor dormir um pouco — disse Struan. — Vou precisar de você aos oito
toques do sino.
Orlov saiu.
Durante muito tempo, Struan ficou olhando para o espaço. Que problema? Que
sangue? Por que um “dia ruim”? Depois, afastou de sua mente essas questões irrespondíveis, contente em pensar apenas no dia de hoje, talvez no de amanhã. “Você está se tornando cada dia mais chinês”, disse, em voz alta. Sorriu e examinou a lista outra vez. Gorth Brock. A Srta. Tillman. Quance. Gordon Chen. Skinner. Mestre McKay. McKay?
— Camaroteiro! — gritou ele.
— Sim, senhorrr. — O camaroteiro colocou água quente no vasilhame ao lado de seu material para fazer a barba.
— Dê um recado ao Sr. Cudahy. Se o Mestre McKay aparecer, traga-o para bordo.
— Sim, senhorrr. — O camaroteiro sumiu,
Struan ficou de pé junto às janelas da cabina. Via a massa pulsante que era a povoação chinesa do Tai Ping Shan. Mas sua mente estava em outra parte: por que Shevaun Tillman aparecera? Uma rainha enlameada, sem dúvida. Fico imaginando se é virgem. Claro que é! Tem de ser. Você iria para a cama com ela, se soubesse que era? Sem se casar com ela? Nessa situação eu não ria para a cama com ela. O homem só precisa de virgindade duas vezes na vida. Uma vez com sua esposa e a outra vez na primavera da vida, com uma jovem amante escolhida a dedo. Quando homem aprendeu a sabedoria da paciência, da compaixão, e pode sem esforço transformar uma menina em mulher.
Claro que Shevaun é virgem; você está imaginando tolices. Mas o brilho atrás de seus olhos e o menear de suas nádegas prometem muito para seu marido, hein? Ela seria uma amante interessante. Quer casar com Shevaun? Ou apenas ir para a cama com ela?
Se você fosse chinês, poderia ter muitas esposas, abertamente, E todas viveriam em paz, debaixo do mesmo teto. Struan deu uma risadinha. Eu gostaria de ver Shevaun e May-may juntas, sob o mesmo teto. Quem ganharia esse combate? Pois combate iria ser, em se tratando de duas pequenas feras.
— Olá, papai. — Culum estava à porta.
— Dormiu bem, rapazinho?
— Muito bem, obrigado. — Culum tivera pesadelos: Orlov misturado com o outeiro, profetizando pobreza outra vez. Ah, Deus, não permiti que nós percamos outra vez. Ajudai-me a fazer o que devo. — Por falar nisso, se tivermos de ser anfitriões no baile, vamos convidar uma parceira?
— Mary Sinclair? Culum tentou, sem sucesso, parecer espontâneo.
— Sim.
Struan disse a si mesmo que melhor faria se encontrasse uma garota para seu filho, e depressa.
— Talvez, como somos anfitriões, seja melhor, simplesmente, recebermos todas, sem favor. Haverá mais de vinte jovens para você namorar.
— Orlov disse que havia uma mensagem da nau capitânia. Para eu ir a bordo. Posso partir agora? Quero ver Longstaff, a fim de discutir os detalhes finais da venda de terras. Gostaria que esse serviço fosse bem-feito.
— Sim — disse Struan, após uma pausa. — Eu não despediria Orlov, se fosse você. Culum corou.
— Ah, ele lhe disse, não é? Não gosto dele. Me dá arrepios.
— Aceite-o como o melhor capitão em atuação. Seja paciente com ele. Pode ser um valioso aliado.
— Ele diz que tem o dom da profecia.
— E tem. Algumas vezes. Muita gente tem. “Sangue em suas mãos” pode significar tudo ou nada. Não se preocupe, rapazinho.
— Não vou me preocupar, papai. Posso ir para a nau capitânia, agora?
— Sim. Logo que Brock sair.
— Você não acredita que eu consiga guardar um segredo?
— Alguns homens têm o dom de extrair informações simplesmente olhando para um rosto. Orlov, por exemplo. Brock também. Você mudou, desde que viu as barras de prata.
— Não é verdade.
Struan pegou seu pincel de barbear.
— O desjejum vai ser servido dentro de mais ou menos vinte minutos.
— Como foi que eu mudei?
— Existe uma grande diferença entre um rapaz que sabe que está na bancarrota e um rapaz que sabe que não está. Dá logo para farejar alguma coisa em você, basta chegar perto, — Struan começou a passar espuma de sabão no rosto. — Você tem uma amante, Culum?
— Não. — Culum respondeu, sem jeito. — Estive num bordel, se é isso que você quer dizer. Por quê?
— A maioria dos homens aqui tem amantes.
— Chinas?
— Chinesas. Ou eurasianas.
— Você tem?
— Claro. — Struan pegou sua navalha. — Há bordéis em Macau. Orientais e europeus. Mas pouquíssimos são seguros, na maioria deles pode-se pegar doenças. Esse é o costume... você sabe a respeito da “doença de mulher”, a sífilis francesa, a sífilis espanhola, seja lá como a chamar?
— Sim. Claro. Sim.
Struan começou a se barbear.— Dizem que foi inicialmente introduzida na Europa por Colombo e seus marujos, que a pegaram nas índias Ocidentais americanas. É irônico que nós a chamemos sífilis francesa ou espanhola, os franceses a chamem de sífilis espanhola ou inglesa, e os espanhóis de sífilis francesa. Quando todos somos culpados. Soube que sempre houve a doença na índia e na Ásia. Você sabe que não tem cura?
— Sim.
— Então sabe que a única maneira de pegar é com uma mulher?
— Sim.
— Sabe alguma coisa a respeito de “proteções”?
— Sim... sim, claro.
— Não precisa sentir nenhuma timidez por causa disso. Lamento ter ficado distante por tanto tempo. Teria gostado de lhe falar eu próprio a respeito dos fatos da vida. Talvez você saiba, talvez seja simplesmente tímido. Então eu vou lhe dizer, de qualquer maneira. É absolutamente necessário usar um preservativo. Os melhores são feitos de seda... vêm da França. Há um novo tipo, feito de uma espécie de pele de peixe. Vou providenciar um estoque para você.
— Não creio que eu vá precisar...
— Concordo — interrompeu Struan. — Mas não há mal nenhum em tê-los. Para uma necessidade. Não estou tentando interferir em sua vida e nem sugerindo que você se torne um devasso. Simplesmente, quero ter certeza de que você sabe de algumas coisas comuns... e de que você está protegido. Um preservativo o protegerá contra a sífilis. E impedirá que a moça engravide, assim evitando problemas para ela e embaraços para você.
— É contra as leis de Deus, não é? Quero dizer, usar... “bom, é pecado, não é? Não destrói todo o sentido do ato de amor? O objetivo é ter filhos.
— Os católicos pensam assim, é verdade, e também os protestantes muito devotos, sim.
— Você questiona o Livro Sagrado? — Culum estava horrorizado.
— Não, rapaz. Só algumas das... qual é mesmo a palavra?... interpretações.