Выбрать главу

— Pensei que eu tivesse idéias avançadas, mas você, bem... o que você diz é heresia.

— Para alguns homens. Mas a Casa de Deus é muito importante para mim, tem precedência face a mim, a você, a todos, até mesmo a Casa Nobre. — Struan continuou a se barbear. — É costume aqui se ter uma garota própria. Só para a pessoa. Você a mantém, paga suas contas, dá-lhe comida e roupa, uma criada, etc. Quando não a deseja mais, entrega-lhe algum dinheiro e a manda embora.

— Não é uma coisa bastante desumana?

— Sim... quando feita de maneira indigna. Em geral, o pouco dinheiro, segundo nossos padrões, que a pessoa lhe dá, é mais do que suficiente para servir à moça como dote e lhe garantir um bom marido. A escolha da garota é feita de maneira muito diplomática. O trato se realiza através de um “corretor”, um casamenteiro, e tudo se passa de acordo com o antigo costume chinês.

— Não é escravidão? Do pior tipo?

— Se sua idéia é comprar uma escrava, sim, e você a tratará como uma escrava. O que faz uma pessoa quando contrata um escravo? Paga algum dinheiro, e ele é comprado por alguns anos. É a mesma coisa. — Struan apalpou o queixo e depois começou a

ensaboar outra vez as partes em que ainda estava áspero. — Iremos para Macau. Eu vou acertar tudo para você, se você quiser.

— Obrigado, pai, mas... — ele ia dizer, mas comprar uma mulher, prostituta, escrava ou amante, é uma coisa desagradável e um pecado... Eu, bom, obrigado, mas não é necessário.

— Se mudar de idéia me diga, rapaz. Não sinta timidez com isso. Acho que é muito normal ter “apetites”, e não um pecado, apenas tenha cuidado com bordéis. Jamais vá a um deles bêbado, nunca vá para a cama com uma moça sem se proteger. Jamais! E meta com a mulher ou a filha de um europeu... particularmente os portugueses, porque senão você acaba morto e bem morto, muito depressa, e com razão. Nunca chame um homem de filho da puta, a não ser que estiver preparado para sustentar essas palavras com arma branca ou bala. E jamais, jamais vá a um bordel que não seja recomendado por um homem em quem você possa confiar. Se não quiser perguntar a mim ou a Robb, pergunte a Aristotle. Você pode confiar nele.

Muito perturbado, Culum observava o pai, enquanto ele terminava de se barbear, com movimentos firmes e definidos. Parece tão seguro em tudo, pensou Culum. Mas está errado — a respeito de muitas coisas. Errado. As Escrituras são muito claras — a luxúria da carne é inspirada pelo demônio. O amor é inspirado por Deus, e fazer amor sem querer ter filhos é luxúria. E é pecado. Eu queria ter uma esposa. E poder esquecer a luxúria. Ou uma amante. Mas isto é ilegal e contra a Palavra Santa.

— Você comprou sua amante? — ele perguntou.

— Sim.

— Quanto pagou por ela?

— Bom, isso não é de sua conta, rapaz — respondeu Struan, gentilmente.

— Desculpe. Eu não queria ser rude... nem inquisitivo nem... — Culum corou.

— Eu sei. Mas isto não é pergunta para se fazer a outro homem.

— Sim. Quero dizer, o que custa uma mulher? Para comprar?

— Depende do seu gosto. A partir de um tael até tudo. — Struan não estava arrependido de ter iniciado uma conversa desse tipo. É melhor fazer você mesmo, do que deixar os outros fazerem em seu lugar. — A propósito; Culum, nós nunca fixamos seu salário. Você começa com cinqüenta guinéus por mês. Serão quase apenas para gastos miúdos, porque você terá tudo pago.

— É muito, muito generoso — exclamou Culum. — Obrigado.

— Dentro de cinco meses, aumentaremos muito essa soma. Logo que tivermos a terra, vamos começar a construir. Armazéns, a Grande Casa... e uma casa para você.

— Será maravilhoso. Eu nunca tive uma casa... quero dizer, nem mesmo quartos meus. Nem mesmo na universidade.— Um homem deve ter um lugar seu, por menor que seja. Privacidade é importante para manter a cabeça no lugar...

— Cinqüenta guinéus por mês é uma porção de dinheiro — disse Culum.

 — Vai ser ganho por você.

É o bastante para casar, Culum estava pensando. Facilmente. Nada de bordéis e nem nativas fedorentas para ele. Lembrou-se com repugnância das três ocasiões em que fora para o bordel de que gostavam os estudantes da universidade e onde tinham dinheiro suficiente para pagar. Ele tivera de ficar meio bêbado para agir como um homem e entrar no quarto malcheiroso. Um xelim para se espojar numa cama com ranço de suor, com uma megera parecendo uma vaca, com o dobro de sua idade. Para se livrar dos incômodos enviados pelo demônio que atacam um homem. E sempre as semanas de terror, em seguida, esperando ser acometido pela sífilis. Deus me proteja de tornar a pecar, pensou ele.

— Você está se sentindo bem, Culum?

— Sim, obrigado. Bom, acho que vou me barbear antes do desjejum. Desculpe. Eu não queria, bem... eu não queria ser rude.

— Eu sei.

***

— Brock está aí ao lado, senhorrr — disse o marinheiro.

— Conduza-o para baixo — disse Struan. Ele não ergueu os olhos do catálogo de lotes de terreno que Robb lhe dera. Culum e Robb sentiram a tensão crescer na cabina, enquanto esperavam. Brock entrou, pisando forte. Sorria largamente.

— Ah, você está aí mesmo, Dirk. Bem pensei que se encontrava a bordo!

— Quer uma bebida?

— Obrigado. Bom-dia, Robb. Bom-dia, Culum.

— Bom-dia — disse Culum, detestando o medo que tomava conta dele.

— Essas roupas estão muito bem em você. Vai se tornar homem do mar, agora? Como seu papai?

— Não.

Brock sentou-se numa poltrona.

— A última vez que vi seu papai, Culum, ele estava adernando terrivelmente. Estava mesmo naufragando. Terrível mesmo. Foi um acontecimento horroroso... o acidente. — Ele aceitou um caneco de rum das mãos de Struan. — Obrigado. Quando eu consegui apagar aquele maldito incêndio que veio da noite, como um raio das profundezas, e estava pronto para ajudá-lo, ora, ele já tinha sumido. Passei a noite toda, e a maior parte do dia seguinte, procurando-o.

— Foi muita gentileza sua, Tyler — disse Struan.

— Mandei Gorth a noite passada procurar por você. Muito estranho, hein, Culum?

— O que é estranho, Sr. Brock?

— Ora, aquele demônio de anão não saber que seu papai estava a bordo. E ninguém ter permissão de vir a bordo até o meio-dia, pelo que eu soube. E ancorar sob as armas da nau capitânia... muito estranho mesmo.

— Gorth tocou o pau da bandeira? — perguntou Struan.

— Sim. Ele ficou triste de verdade. Disse que era como colocar outro prego no seu caixão. Ficou sem saber o que fazer. Struan entregou-lhe uma ordem bancária — vinte mil guinéus.

— Obrigado, Dirk — disse Brock, sem tocar no papel e nem olhá-lo. — Mas não é meu. Talvez seja melhor dar a Gorth. Ou mandar para bordo. Não é pagamento para mim.

— Como quiser, Tyler. Ele irá à venda de terras?

— Ah, sim.Struan pegou o catálogo.

— Os lotes marinhos escolhidos são 7 e 8 a oeste do vale, 16 e 17 no centro, 22 e 23 a leste. O que você quer?

— Vai nos dar livre escolha, Dirk?

— Há suficiente para nós dois. Você escolhe o que quiser. Não faremos lances contra você. Nem você contra nós.

— Pensei a mesma coisa. É justo. E sábio. 16 e 17 dos lotes marinhos e 6 e 7 dos suburbanos.

— Pegaremos os lotes marinhos 7 e 8. Lotes suburbanos 3 e 4.

— Feito. E deixe o outeiro. Está planejando fazer lances, hein?

— Sim.

Brock engoliu um pouco de rum. Ele podia sentir o constrangimento de Culum.

— A frota está partindo amanhã, Dirk. Ouviu falar nisso?

— Não. Partindo para onde?

— Para o norte. A fim de combater — disse Brock, sardonicamente.

— Tinha esquecido a guerra — disse Struan, com uma risada curta. — Atacar Pequim outra vez? No inverno?

— Sim. Nossos líderes mandaram-nos para o norte. Seu lacaio tem balas de canhão na cabeça. Ouvi dizer que o almirante berrou, mas Longstaff só fez dizer, alto e bom som: “Norte, por Deus, terão ordem de ir para o norte! Vamos ensinar a esses patifes pagãos, que não respeitam tratados! Vamos ensinar a eles a lição que merecem!”