— Não irão para o norte.
— Com a sua volta, talvez não. É uma tristeza quando a vontade de Longstaff prevalece, Tai-Pan. Ridículo. E quando suas vontades chegam ao maldito ouvido dele. Quando temos de confiar em você, para salvar nossa frota. — Pigarreou ruidosamente, e depois farejou o ar. — Há um cheiro bem estranho a bordo.
— Hein?
— Cheiro de barras de prata. Sim, claro, barras de prata. — Brock deu uma olhada em Culum. — Então você não está em bancarrota, não é mesmo, rapaz? Culum nada disse, mas o sangue lhe subiu ao rosto. Brock grunhiu.
— Senti o cheiro quando você ancorou, Dirk. Ora, até mesmo quando você chegou ao porto. Então, você não afundou e tem dinheiro para pagar, e eu estou derrotado outra vez.
— Quando vencem as promissórias?
— Hoje, como você bem sabe.
— Quer prorrogar o prazo?
— Se não fosse pelo prestígio do rapaz e de todos a bordo, eu ia perguntar a mim mesmo se você estava blefando. E pensar que talvez as barras de prata não estivessem em seu porão. Mas eu sei muito bem. Está escrito em todos os rostos a bordo, menos no seu. E no de Robb. Vou aceitar o cheque de seu banqueiro hoje. Nenhum crédito.
— Depois da venda de terras, acertaremos tudo.
— Antes. Sim, antes. É melhor se livrar das dívidas antes de fazer os lances — disse ele, com os olhos brilhando, seu ódio bem à flor da pele. — Você me derrotou outra vez, maldito seja! Mas o outeiro será meu. É meu.
— Pertence à Casa Nobre. Não ao segundo lugar. Brock levantou-se, com os punhos fechados.
— Ainda vou cuspir em seu túmulo, por Deus.
— Vou cuspir em sua casa, lá do meu outeiro, por Deus, antes do anoitecer.
— Talvez não haja tesouro suficiente na Ásia para pagar o preço, por Deus! Bom dia para vocês.
Brock saiu apressadamente, com as botas batendo forte no passadiço.
Culum enxugou o suor das mãos.— Esse outeiro pegou você numa armadilha, Dirk. Ele vai parar de fazer ofertas e nos arruinará — disse Robb.
— Sim, papai. Eu sei que ele vai fazer isso. Struan abriu a porta da cabina.
— Camaroteiro!
— Sim, senhorrr.
— Chame o Sr. Cudahy!
— Sim, senhorrr.
— Escute, Dirk — disse Robb. — Aqui está sua oportunidade. Faça com ele que diabo ele fizer com você. Pare seus lances, de repente. Deixe a confusão para ele. Então, ele ficará arruinado. Ele! Não nós!
Struan não disse nada. Houve uma batida na porta e Cudahy entrou, apressadamente.
— Sim, senhorrr.
— Ponha o cúter ao lado. Diga ao mestre para levar o Sr. Robb e o Sr. Culum ao Thunder Cloud. Espere pelo Sr. Culum e o leve à nau capitânia. Depois, torne a se apresentar aqui. Todos os homens no convés e na popa!
Cudahy fechou a porta outra vez.
— Papai, o tio tem razão. Pelo amor de Deus, não vê que aquele maldito pirata colocou você numa armadilha?
— Então, vamos ter de ver se o amor de Deus nos tira da armadilha. É uma questão de prestígio!
— Dirk — Robb implorou. — Não quer ser razoável?
— Sarah quer que você vá para bordo. Não fale ainda sobre as barras de prata. E, Culum, meu rapaz, se Longstaff perguntar a você a meu respeito, diga apenas que estou a bordo. Nada mais.
— Dirk, esta é sua única chance...
— É melhor se apressar, Robb. Apresente meus cumprimentos a Sarah e às crianças. — Ele voltou para a pilha de papéis que estava sobre sua escrivaninha.
Robb sabia que era inútil discutir mais e partiu sem dar mais nenhuma palavra. Culum seguiu-o, com o coração doendo. Sabia que nada iria mudar seu pai — e nem Brock; que a Casa Nobre estava comprometida com um morrinho sem valor, um rochedo sem valor. É estúpido, ele gritou para si próprio. Por que papai é tão estúpido assim?
CAPÍTULO DOZE
Aquela tarde, Struan permaneceu de pé diante da grande tenda que armara na praia, no Vale Feliz. Observava o Capitão Orlov supervisionar os marinheiros, enquanto eles transportavam barriletes da chalupa para dentro da tenda, onde os empilhavam bem certinhos. Estava tão absorto que não viu Mary Sinclair aproximar-se, por trás dele.
O rosto dela estava emoldurado por um boné amarrado sob o queixo. Seu vestido de lã marrom varria a areia e, bem ajustado à sua cintura, tornava-lhe a figura elegantemente parecida com uma ampulheta. Mas o tecido não era de boa qualidade e o corte era antiquado. Ela carregava um regalo felpudo e, em torno dos ombros, tinha um xale cinzento que combinava com seus olhos. Parecia limpa, simples e pobre, recatada, uma dama.
— Olá, Tai-Pan — disse ela. Struan saiu de seu devaneio.
— Ah, olá, Mary. Você está muito bonita.
— Obrigada, gentil senhor — disse Mary, com um sorriso fugidio. Ela fez uma graciosa mesura. — É um grande elogio.
A praia e o vale começavam a se encher com os negociantes, suas mulheres e crianças, todos com ares festivos, em suas melhores roupas, cumprimentando uns aos outros e conversando loquazmente. Havia, espalhados ali e acolá, grupos de soldados e marinheiros, com seus oficiais em trajes resplandecentes. Chalupas traziam para a praia outras famílias, e oficiais. Perto da praia, havia massas de sampanas pescando e, a oeste, uma multidão de barulhentos e curiosos chineses, isolados do vale pelos soldados.
O estrado do leiloeiro fora colocado numa pequena elevação, a cinqüenta jardas de distância, e Struan notou Gordon Chen, em pé nas proximidades. Seu filho fez, imediatamente, uma curvatura. Era óbvio para Struan que o jovem queria falar com ele e devia ter esperado, pacientemente, por uma oportunidade adequada.
— Boa-tarde, Gordon. Vou conversar com você dentro de um minuto — ele gritou.
— Obrigado, senhor — respondeu Gordon, e fez outra curvatura.
Struan viu Robb caminhando com Sarah, que estava com a barriga muito grande, o rosto tenso. Karen corria ao lado deles. Struan procurou Culum com o olhar, mas não conseguiu descobri-lo e supôs que ainda estivesse na nau capitânia; então o viu, conversando animadamente com Glessing. Achou estranho que Culum não tivesse procurado por ele, logo ao desembarcar.
— Com licença, Tai-Pan, Srta. Sinclair — disse Orlov. — Estão todos aí.
— Espero que sim, Capitão Orlov — disse Mary, em tom de brincadeira. — Ouvi dizer que está trazendo barris para a praia há duas horas. Quer embriagar toda a população européia, Sr. Struan?
Struan deu uma risada curta.
— Não. Obrigado, Capitão.
Orlov fez uma continência para Mary e entrou na tenda, com alguns dos marinheiros. Outros se reuniram em torno dele, enquanto uns poucos se sentaram na praia e começaram a jogar dados.
— Você chegou cedo, Mary. O leilão ainda vai demorar uma hora para começar.
— O Capitão Glessing teve a gentileza de me oferecer sua companhia. — Vamos dar uma caminhada?
— Claro — respondeu Struan, detectando uma insinuação na voz dela. Começaram a caminhar em direção ao interior da ilha.
O leito do vale estava úmido e a chuva da véspera formava poças paradas. A água caía placidamente da pequena cachoeira. Moscas e libélulas, abelhas e mosquitos formavam com seu canto uma espécie de corrente subterrânea ao ruído da água. O sol tinha uma promessa de primavera.
Quando estavam bem afastados da multidão, Mary parou.
— Em primeiro lugar, queria dizer-lhe como fiquei sentida pela perda que sofreu.
— Obrigado, Mary.
— Tentei vê-lo antes de você partir para Cantão.
— Eu me lembro. Foi muita gentileza sua.
— A noite passada, tentei ir a bordo. Queria ver como você estava. Um mau pagode.