— Sim, mas acabou. Pertence ao passado.
— Sim, mas posso ver a dor em seu rosto. Outros não verão, mas eu posso ver.
— Como vão as coisas com você? — ele perguntou, desconcertado, como sempre, porque Mary parecia tão comum, doce, gentil, tudo que deveria ser, mas não era. Eu não devia gostar dela, pensou, mas gosto.
— A vida me diverte. Por algum tempo. — Mary olhou para trás, em direção à praia. Brock, Gorth e Nagrek Thumb, Eliza Brock e suas filhas saíam de uma chalupa. — Estou satisfeita por você ter derrotado Brock outra vez. Muito satisfeita.
— Será que derrotei?
Os olhos de Mary se enrugaram.
— Quarenta laques em barras de prata? Quatro moedas?
— Como sabe disso?
— Já se esqueceu, Tai-Pan? Tenho amigos bem situados. — Ela disse, em tom trivial. Mas, quando estava com o Tai-Pan, desprezava esses “amigos”.
— Quem tem... quem tem as outras quatro metades de moedas?
— Quer que eu descubra?
— Talvez eu ache que você já sabe.
— Ah, Tai-Pan, você é um homem muito especial. — Seu tom se tornou mais caloroso. — Sei onde estão duas. Quando souber a respeito das outras duas, eu lhe direi.
— Quem tem as duas?
— Se você arranjou um empréstimo tão grande, quantos favores cumprirá?
— Todos. Sim, por Deus, todos. Jin-qua tem duas?
— Uma. — Ela brincou com o xale, e o ajeitou melhor. — Há quatro mil bandeireiros em Cantão, agora. E uma grande armada com navios de tiro. Deverá atacar nossa frota, se esta tentar forçar os fortes Bogue. Outra frota está à espera, cinqüenta milhas ao norte. O nome Wu Kwok significa alguma coisa?
Struan fingiu pensar mas, por dentro, estava fervendo. Antes do encontro com Scragger, ele jamais ouvira falar de Wu Kwok — de Wu Fang Choi, o pai, é claro, mas não do filho. Mauss não fora informado do que transpirara no junco ou do que Scragger dissera. Só Robb e Culum sabiam. Era impossível para Mary ter ouvido falar de Wu Kwok por eles. Então deveria ter vindo de Wu Kwok — ou de Jin-qua. Mas como?
— Ê um nome bastante comum — disse ele. — Por quê?
— Ele é o filho mais velho de Wu Fang Choi.
— O rei dos piratas? O Lótus Branco? — Struan fingiu espanto.
— Adoro chocar você — disse ela, alegremente. — Bom, o imperador ofereceu secretamente mandarinatos a Wu Kwok e a Wu Fang Choi, através do Hoppo em Cantão. E os governos-generalatos da província de Fukien, e Formosa, em troca de um ataque aos navios que estão no porto de Hong Kong. Toda a frota.
— Quando será o ataque? — seu choque era autêntico.
— Eles não aceitaram ainda. Como dizem os chineses “negociações estão em marcha”.
Seriam os favores de Wu Kwok um subterfúgio? Struan perguntou a si mesmo. Uma brincadeira diabólica para colocá-lo à vontade e prendê-lo numa armadilha? Por que, então, a moeda? Será que eles arriscariam toda sua frota? Quatro mil juncos tripulados por aqueles malditos piratas poderiam acabar conosco — talvez!
— Você saberá se eles aceitarem... se deverá ser feito o ataque?
— Não tenho certeza... mas acho que sim. Mas isso não é tudo, Tai-Pan. Você deve saber que a recompensa por sua cabeça dobrou. Há uma recompensa por Culum agora, também. Dez mil dólares. Para todos os ingleses. George Glessing, Longstaff, Brock. — A voz dela se tornou impessoal. — E para May-may, Duncan e Kate. Se forem seqüestrados vivos.
— O quê?
— Ouvi falar nisso há três dias. Você não estava aqui, assim eu tomei o primeiro barco para Macau, mas você já partira. Então, fui ver May-may. Eu lhe disse que fora enviada por você, pois você ouvira dizer que ela e as crianças estavam em perigo. Depois, fui ao seu compradore, e lhe disse, em seu nome, que levasse May-may e as crianças para a casa dele; se algo acontecesse com eles, antes de você voltar, você o enforcaria, e a seus filhos, e aos filhos destes.
— O que disse Chen Sheng?
— Ele disse para lhe comunicar que você não precisava ter medo. Acompanhei May-may e as crianças até à casa dele, e depois voltei para Hong Kong. Acho que estão salvos, por enquanto.
— Ele sabe, a respeito das barras de prata?
— Claro. Uma parte, uma pequena parte do dinheiro é dele. Que melhor investimento poderia ele fazer?
— Quem mais juntou a prata?
— Sei a respeito de Chen Sheng, Jin-qua, os mercadores da Co-hong... todos têm uma parcela. Isto corresponde a uma soma de quinze laques. Quanto ao resto, não tenho certeza. Provavelmente, os mandarins manchus.
— Ti-sen?
— Não. Ele está em completa desgraça. Toda sua riqueza foi confiscada. A Co-hong estima que sejam cerca de dois mil laques. Em ouro.
— Chen Sheng disse que cuidaria deles?
— Sim. Agora, com você rico outra vez, ele os protegerá com o mesmo empenho com que defenderia a vida de sua mãe. Por enquanto, pelo menos.
— Espere aqui, Mary. — Struan virou-se para a praia. Descobriu Wolfgang e gritou para ele, fazendo acenos. Correu, em seguida, em sua direção. — Wolfgang, chame Orlov e leve o China Cloud para Macau. Pegue May-may e as crianças e traga-os de volta, com a ama. A todo pano. Deixe Cudahy encarregado da tenda.
— Trazê-los para cá?
— Sim. Volte amanhã. Estão em casa de Chen Sheng.
— Trazê-los para cá? Abertamente?
— Sim, por Deus. Parta imediatamente.
— Não vou fazer isso, Tai-Pan. Não assim, abertamente. Você vai destruir a si mesmo. Sabe que será posto no ostracismo.
— Os mandarins colocaram a cabeça deles a prêmio. Vá depressa!
— Gott im Himmel — Mauss puxava sua barba, nervosamente. — Vou trazê-los a bordo secretamente e fazer Orlov jurar segredo. Gott im Himmel, perdoai este pobre pecador.
Struan caminhou de volta, em direção a Mary.
— Quem lhe contou a respeito do seqüestro, Mary?
— Você não conhece.
— Você se coloca em grande perigo, garota. Conseguindo informações e depois agindo por conta própria.
— Sou muito cuidadosa.
— Vá embora de Macau para sempre. Saia dessa vida, enquanto tem vida. Seu pagode não durará para sempre.
— Vamos falar a seu respeito, Tai-Pan. Você não pode exibir por aqui sua amante chinesa.
— Ela e as crianças estarão salvas a bordo, e isto é o que importa.
— Não em nossa sociedade, por Deus, e você sabe disso. Eles vão destruir você, Tai-Pan, até você, caso viole seu maldito código. Eles precisam. Ela é chinesa.
— Malditos sejam!
— Sim. Mas será um caminho solitário, e você tem sua casa para pensar. Enquanto May-may for mantida em segredo, não os ameaça... o que não é visto, não existe. Não me cabe aconselhar você... você sabe de tudo isso melhor do que ninguém, mas eu lhe peço, mantenha-a em segredo.
— Eu faço isso, e continuarei a fazer... a menos que estejam em perigo. Devo um favor a você, Mary.
— Sim. — Uma chama curiosa brilhou nos olhos dela. — Eu quero um favor.
— Diga qual é.
— Tudo que eu pedir?
— É só dizer.
— Agora não. Quando eu quiser meu favor, eu pedirei. Sim. Um dia eu vou querer um favor. — Depois ela acrescentou, em tom de brincadeira — você devia ser mais cuidadoso, Tai-Pan. Sou uma mulher, e a mente de uma mulher funciona de maneira bem diferente da mente masculina.
— Sim — ele disse, e sorriu.
— Você tem um sorriso tão simpático, Tai-Pan.
— Obrigado, gentil senhora — disse ele. Fez uma elegante curvatura. — É um elogio muito grande! — Deu-lhe o braço e começaram a caminhar de volta para a praia.
— Quem lhe contou a respeito de May-may e das crianças?
— Nós combinamos, há dois anos, que as fontes de minhas informações seriam sacrossantas.