— Não posso lhe agradecer o suficiente, senhor. Este acordo poderá começar imediatamente?
— Sim. Suponho que você vai querer comprar alguma terra. . — Eu tinha pensado... — Gordon Chen parou. Culum se aproximava deles, com o rosto sério.
— Olá, Culum — disse Struan.
— Olá, papai.
— Este é Gordon Chen. Meu filho, Culum — disse Struan, consciente dos olhares e do silêncio da multidão na praia. Gordon Chen fez uma curvatura.
— É muita honra conhecê-lo, senhor.
— Gordon é seu meio-irmão, Culum — disse Struan.
— Eu sei. — Culum estendeu a mão. — Tenho muito prazer em conhecê-lo.
Ainda assombrado por ouvir Struan reconhecê-lo como filho, Gordon apertou frouxamente sua mão.
— Obrigado. Muito obrigado.
— Quantos anos você tem, Gordon? — perguntou Culum.
— Vinte, senhor.
— Meio-irmãos devem chamar um ao outro pelos seus nomes de batismo, não é?
— Se lhe agradar.
— Precisamos conhecer melhor um ao outro. — Culum virou-se para Struan, que estava abalado pelo reconhecimento de seu filho a Gordon. — Desculpe perturbá-lo, papai. Só queria conhecer Gordon — disse ele, e partiu.
Struan sentiu o silêncio se romper e a praia imóvel ganhar vida outra vez. E ficou espantado de ver lágrimas escorrendo pelo rosto de Gordon.
— Desculpe... eu... eu esperei minha vida inteira, Sr. Struan. Obrigado. Obrigado
— disse Gordon, com voz trêmula.
— A maioria das pessoas me chama “Tai-Pan”, rapaz. Vamos esquecer o “Sr. Struan”.
— Sim, Tai-Pan. — Gordon Chen fez uma curvatura e se afastou.
Quando Struan começou a procurar Culum, viu o cúter de Longstaff chegar à praia. O almirante e um grupo de oficiais de marinha estavam com ele. Horatio também. Bom, pensou Struan. Agora, Brock. Acenou para Robb e fez sinal a Brock. Robb fez um aceno afirmativo de cabeça e alcançou Culum. Juntos, eles se uniram a Struan.
— Tem os papéis, Robb?
— Sim.
— Vamos, então. Vamos pegar de volta as nossas promissórias. — Struan deu uma olhada em Culum.— Não há motivo algum para ficar nervoso, rapaz.
— Sim.Caminharam um pouco e Struan disse:
— Estou satisfeito por você ter conhecido Gordon, Culum. Obrigado.
— Eu... eu queria encontrá-lo hoje. Com você. Bom... publicamente.
— Por quê?
— Isso não lhe dará o prestígio que você diz ser tão importante?
— Quem lhe falou a respeito de Gordon?
— Ouvi rumores, quando voltei de Cantão. As pessoas estão sempre prontas a espalhar más notícias.
Ele se lembrou do divertimento sardônico da maior parte dos negociantes e suas esposas a quem encontrara. “Pena, rapaz, que você tenha vindo numa ocasião tão ruim. É uma pena que a casa esteja morta. Nada será a mesma coisa, sem a Casa Nobre”, diziam. Mas Culum sabia que estavam todos exultantes, satisfeitos de ver a casa humilhada. Tia Sarah fora quem realmente lhe abrira os olhos para sua ingenuidade. Caminhavam pela Estrada da Rainha e passaram por alguns eurasianos, os primeiros que ele vira, um menino e uma menina, e ele lhe perguntara de que nacionalidade eram, e de onde tinham vindo.
— Daqui — disse ela. — São mestiços, metade ingleses, metade pagãos. Muitos negociantes têm filhos bastardos, de amantes pagas. É tudo muito secreto, claro, mas todo mundo sabe. Seu tio Robb tem uma.
— O quê?
— Eu a mandei embora, com sua cria, há anos. Não seria tão ruim, suponho, se a mulher fosse cristã, e bonita. Eu teria entendido isso. Mas ela... não.
— Meu pai... tem... outros filhos pequenos?
— Filhos pequenos eu não sei, Culum. Ele tem um filho homem que trabalha para o compradore dele, e se chama Gordon Chen. Curioso senso de humor, o do seu pai, ao dar a ele um nome cristão do clã. Ouvi dizer que foi batizado como cristão. Suponho que isto vale alguma coisa. Talvez eu não devesse ser dito a você, Culum. Mas alguém tinha de dizer, e quem sabe não é melhor para você conhecer a verdade através de seus parentes, e não escutar cochichos por trás das costas. Ah, sim, você tem pelo menos um meio-irmão na Ásia.
Aquela noite, ele não conseguira dormir. No dia seguinte, foi para terra, em desespero. Alguns oficiais de marinha, entre os quais Glessing, estavam jogando críquete, e ele fora convidado para integrar a equipe. Quando foi sua vez de rebater, ele despejou toda sua raiva na bola, atingindo-a com toda força, desejoso de destruí-la e, com ela, à sua vergonha. Jogara com brilhantismo, mas sem tirar nenhum prazer do jogo. Mais tarde, Glessing puxara-o de parte e lhe perguntara o que havia. Ele vomitou tudo.
— Não aprovo o que seu pai fez... como sabe, sem dúvida — dissera Glessing. — Mas isso nada tem a ver com sua vida particular. Eu próprio tenho o mesmo problema que você. Sei que meu pai tem uma amante em Maida Vale. Dois filhos e uma filha. Ele jamais mencionou o fato a mim, embora eu espere que saiba que eu sei. É muito difícil, mas o que um homem pode fazer? Provavelmente, quando eu tiver a idade dele, farei a mesma coisa. Tenho de esperar para ver. Claro, concordo que é muito desagradável saber que se tem um irmão mestiço.
— Você o conhece?
— Já o vi. Nunca falei Com ele, embora tenha ouvido dizer que é um bom sujeito. Eu lhe daria um conselho... não se preocupe com o que o seu pai fizer em sua vida particular. Ele é o único pai que você terá.
— Você não o aprova, mas fala em seu favor. Por quê? Glessing encolheu os ombros.
— Talvez porque eu tenha aprendido que os “pecados” do pai são problema do pai e não do filho. Talvez porque o Tai-Pan seja melhor marinheiro do que eu jamais serei, e pilote a melhor frota dos mais belos navios da terra... e trate seus marujos como devem ser tratados, com boa comida, pagamento e alojamentos bons, quando nós temos de trabalhar com o que o maldito Parlamento nos dá, nenhum maldito dinheiro, homens sob pressão e malfeitores como tripulantes. Talvez por causa do Cabo Glessing... ou porque ele é o Tai-Pan. Talvez porque os Sinclairs o admirem. Não sei. Não me incomodo de lhe dizer que, se algum dia tiver ordem para caçá-lo, eu me limitarei aos estritos termos da lei. Mesmo assim, espero em Deus que ele consiga lograr aquele miserável patife Brock, outra vez. Eu não conseguiria suportar aquele tipo sujo como o Tai-Pan.
Daquele dia em diante, Culum vira Glessing constantemente. Entre eles, amadurecera uma amizade.
— Hoje — Culum continuou a dizer a Struan, muito desajeitadamente — bom, quando vi você e Gordon Chen juntos, perguntei a George Glessing. Ele foi suficientemente honesto para me dizer.
Struan parou.
— Quer dizer que foi desonestidade de minha parte não ter contado a você?
— Não. Você não precisa justificar nada do que fez. A mim. Um pai não precisa justificar nada a um filho, não é?
— Gordon é um bom rapaz — disse Robb, desconcertado.
— Por que você queria saber qual é a idade dele? — perguntou Struan.
— Ele tem a mesma idade que eu, não é?
— E daí?
— Não tem importância, papai.
— Tem. Para você. Por quê?
— Eu preferia não...
— Por quê?
— Uma questão de ética, eu acho. Se somos da mesma idade, a mãe dele foi “concorrente”... será essa a palavra... da minha?
— Sim, concorrente é a palavra certa.
— “Adultério” seria outra palavra certa, não?
— Uma das verdades do homem é que o adultério é tão inevitável quanto a morte ou o pôr-do-sol.
— Isto não está de acordo com os Dez Mandamentos. — Culum evitou o olhar do pai. — A venda deve começar... agora que Longstaff está aqui — disse ele.
— É por isso que está tão nervoso? Encontrar Gordon e aplicar a mim os Mandamentos?
— Você não precisa de mim, não é, papai, para falar com Brock? Acho que eu... se você não se importa... vou ver se tudo está pronto.