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O último dos lotes marinhos foi oferecido e comprado. Depois, os lotes suburbanos e rurais foram oferecidos e também comprados por altos preços. Só restava o outeiro. Era o maior pedaço de terra, e o melhor.

— Bom, cavalheiros, acabamos — disse Hibbs, com a voz rouca de tanto leiloar.

Os que compraram têm de pagar metade, agora. Os recibos serão passados pelo vice secretário colonial. Façam o favor! Um silêncio pasmado se abateu sobre a multidão.

— A venda não terminou ainda. — A voz de Struan rompeu o ar.

— Sim, por Deus! — disse Brock.

— Como, cavalheiros? — perguntou Hibbs, cautelosamente, sentindo que havia algum problema.

— E o outeiro?

— Que outeiro, Excelência? Struan apontou, de dedo em riste.

— Aquele outeiro!

— Aquele, ah, não está na lista, meu senhor. Nada tem a ver comigo, senhor — disse Hibbs, apressadamente, e se preparou para correr. Ele olhou para Culum, que estava em pé, rígido como um pedaço de madeira. — Não é, Excelência?

— Não — Culum forçou a si próprio a olhar para seu pai, com o silêncio sufocando-o.

— Por que não está na lista, por Deus?

— Porque... porque, bom, já foi comprado.

Os pêlos da nuca de Culum se arrepiaram, quando ele viu — como se fosse um sonho — o pai aproximar-se dele. Todas as palavras tão bem pensadas sumiram de sua cabeça. Os motivos. Que ele dissera a Longstaff, aquela manhã, em desespero, que seu pai pensava em colocar ali uma igreja. Para o benefício de toda Hong Kong. Era a única maneira, Culum queria gritar. Não vê? Você teria destruído todos nós. Se eu lhe dissesse, você jamais teria escutado. Não vê?

— Comprado por quem?

— Por mim. Para a Igreja — gaguejou Culum. — Uma libra por ano. O outeiro pertence à Igreja.

Você tomou meu outeiro? — As palavras foram pronunciadas com suavidade, mas tinham farpas, e Culum sentiu sua crueldade.

— Para a igreja. Sim — ele resmungou. — O documento... o documento foi assinado esta manhã. Eu... Sua Excelência assinou o documento. Em perpetuidade.

Você sabia que eu queria aquela terra?

— Sim. — Tudo que Culum via era a luz ofuscante que parecia jorrar dos olhos de seu pai, consumindo-o, tirando-lhe a alma. — Sim. Sim. Mas decidi que seria para a Igreja. E agora o outeiro pertence à Casa de Deus.

Então, você ousou contrariar-me?

Houve um silêncio frenético. Até Brock estava apavorado com o poder que parecia fluir de Struan, e envolver a todos.

Culum esperou pelo golpe que, ele sabia, viria — todos sabiam que viria.

Mas os punhos de Struan se descerraram, ele deu uma volta e se afastou do vale.

O estouro de riso de Brock despedaçou o funesto silêncio e todos recuaram

involuntariamente.

— Cale a boca, Brock — disse Quance. — Cale a boca.

— Vou calar, Aristotle — disse Brock. — Vou calar.

Os negociantes se dividiram em grupos sussurrantes e Hibbs chamou, com voz trêmula:

— Quem comprou alguma coisa, faça o favor de vir por aqui. Por gentileza, cavalheiros. Brock estudava Culum, quase com piedade.

— Eu diria que seus dias estão contados, rapaz — disse ele. — Você não conhece aquele demônio como eu conheço. Cuidado com as costas. — Ele se aproximou de Hibbs, para pagar a terra que comprara.Culum tremia. Sentia que as pessoas o observavam. Sentia o pasmo de todos. Ou seria medo?

— Pelo amor de Deus, por que você não lhe pediu? — Robb disse, mal se recuperando de seu choque.

— Hein? Antes de fazer isso?

— Ele não teria concordado, teria?

— Não sei. Não sei. Talvez concordasse. Ou poderia ter deixado Brock... — parou, fracamente. — E não preste nenhuma atenção ao que Brock disse. Ele está apenas tentando amedrontar você. Não há necessidade de se preocupar. Nenhuma.

— Acho que papai é o Demônio. Robb estremeceu, involuntariamente.

— Isso é uma tolice, rapaz. Uma tolice. Você está apenas superexcitado. Todos estamos. As barras de prata... e... bom, a excitação do momento. Não há nada com que se preocupar. Claro que ele entenderá quando... — As palavras de Robb se tornaram imprecisas. Depois, saiu correndo atrás do irmão.

Culum estava achando muito difícil focalizar alguma coisa. Os sons pareciam mais fortes do que antes, mas as vozes mais distantes, as cores e as pessoas bizarras. Seus olhos viram Mary Sinclair e seu irmão à distância. De repente, estavam falando com ele.

— Desculpem — disse ele. — Não os escutei.

— Eu apenas disse que será um belo lugar para a igreja. — Horatio forçou um sorriso. — Um lugar perfeito.

— Sim.

— Seu pai sempre quis aquele outeiro. Desde que viu Hong Kong pela primeira vez — disse Mary.

— Sim. Mas agora pertence à Casa de Deus.

— Sim — disse ela, tristemente. — Mas, a que preço? Depois, eles já não falavam mais com ele, e Culum olhava para Hibbs.

— Sim?

— Com licença, senhor, mas há os recibos. Para os que compraram a terra — disse Hibbs, desajeitadamente.

— Recibos?

— Sim, os recibos da terra. O senhor precisa assiná-los. Culum observava a si mesmo, ao seguir Hibbs ao estrado. Mecanicamente, assinou seu nome.

Robb corria pela Estrada da Rainha, sem ligar para os olhares horrorizados que o acompanhavam, com o peito doendo pelo exercício da caçada.

— Dirk, Dirk — gritou.

Struan parou por um momento.

— Diga a ele que quero vê-lo em seu outeiro, ao amanhecer.

— Mas, Dirk, Culum estava apenas...

— Diga a ele para ir sozinho.

— Mas, Dirk, ouça um momento. Não vá embora. Espere. O pobre rapaz estava apenas...

Diga a ele para ir sozinho.

CAPÍTULO TREZE

Aquela noite, durante o turno intermediário, o vento mudou de direção do lestenordeste para o leste e diminuiu a velocidade em um nó. A umidade aumentou, a temperatura subiu um grau e os capitães da frota estremeceram, durante o sono, e acordaram por um momento, sabendo que outra monção irrompia. Agora, o vento iria soprar quente e úmido do leste, durante três meses, até maio, e depois mudaria de direção, tão repentinamente como agora, para o sul, ganhando calor e umidade. Depois, no outono, viraria para leste-nordeste outra vez, seco e frio, até a primavera do ano seguinte, quando novamente se deslocaria para leste e cairia um nó.

Os capitães dormiram outra vez, mas custaram mais tempo. O vento leste anunciava o período dos tufões.

Brock mudou de posição, irritado, em seu beliche, e se coçou.

— O que há com você, Tyler? — Liza perguntou, instantaneamente acordada e lúcida, como acontece com a mulher, quando o companheiro está perturbado, ou o filho doente. Ela estava no beliche atravessado na fétida cabina.

— Nada, Liza. O vento mudou, só isso. Vai descansar. — Ele ajustou seu barrete de flanela e bocejou fortemente.

— O que está fazendo?

— Abrindo a portinhola. Vá dormir.

Brock virou-se e fechou os olhos, mas sabia que perdera o sono. Sentiu o cheiro do vento penetrar na cabina.

— Logo haverá nevoeiro — disse.

Liza voltou para seu beliche e o colchão de palha rangeu. Ela ficou confortavelmente deitada sob as cobertas.

— São as barras de prata que o preocupam, não é?

— Sim.

— Não se preocupe agora. Amanhã você se preocupa. — Ela bocejou e se coçou, com a mordida de um percevejo. — Será uma maravilha ficar em terra outra vez. Vai demorar muito tempo para construir uma casa?