— Não muito — ele disse, e se virou.
— Esse baile que Struan vai dar — disse ela, escolhendo as palavras com muito cuidado. — É um tapa no seu rosto.
— Ridículo. Vá dormir. — Brock ficou instantaneamente na defensiva.
— Claro, se nós estivéssemos vestidos apropriadamente, seria outro tapa em resposta, hein, Tyler?
Brock gemeu, mas teve o cuidado de não deixar Liza ouvir. A notícia sobre o baile correra por toda a frota no momento mesmo em que Struan contara a Skinner. Todo marido na Ásia falara mal do Tai-Pan, pois sabiam que ele lhes roubara a paz. E o sangue de todo homem correu mais depressa. A aposta começara. Shevaun Tillman era a grande favorita.
— Quer dizer, tampar os canhões dele com enfeites? — disse. — Boa idéia, Liza. Você fica muito bem naquele seu vestido vermelho de seda que eu...
— Aquele velho trapo? — Liza disse, com uma fungadela de desprezo. — Você deve estar brincando!
— Velho, você disse? Ora, só foi usado três ou quatro vezes. Acho que você fica...
— Há três anos que estou usando aquilo. E você está precisando de um casaco novo, de calças, de um colete de festa, nem sei mais de quê.
— Gosto dos que eu tenho — disse ele. — Acho que...
— Está na hora de eu fazer umas compras. Antes que todas as peças decentes de seda da Ásia sejam compradas... e todas as costureiras contratadas. Amanhã, vou para Macau. No Gray Witch.
— Mas, Liza! Tudo isso para um baile idiota que Dirk...
— Partirei na maré do meio-dia.
— Sim, Liza — disse Brock, reconhecendo aquele tom especial na voz dela, sabendo que toda discussão do mundo não a faria desistir. Maldito Struan! Mas, apesar de sua fúria, ele pensou no prêmio e o concurso o excitou. Seria uma idéia maravilhosa! Maravilhosa! Ora, por que não pensei nisso? Maldito Struan!
Liza ajeitou seu travesseiro e continuou a cogitar a respeito do baile. Já decidira que Tess iria ganhar o prêmio. E a honraria. Custasse o que custasse. Sim, ela disse a si própria outra vez, a qualquer preço. Mas, como convencer Tyler a deixar Tess ir ao baile? Ele era muito cabeçudo, com relação a ela.
— Está na hora de pensar em nossa Tess — disse ela.
— O que há com ela?
— É bom você ir pensando num marido para ela.
— O quê? — Brock se sentou, ereto, no beliche. — Você está fora de si? Tess mal saiu do berço. Nem fez dezesseis anos ainda.
— Quantos anos eu tinha, quando você casou comigo?
— Isso é diferente, por Deus! Você era bem madura para sua idade, por Deus. E os tempos mudaram. Haverá tempo bastante para aquele diabrete tonto, por Deus! Um marido para Tess? Você está completamente louca, mulher! E que coisa para dizer, assim no meio da noite! Não fale nisso outra vez, senão lhe dou uma surra de cinto. — Ele virou-lhe as costas, furioso, bateu no travesseiro e fechou os olhos.
— Sim, Tyler — disse Liza, sorrindo.
Ela não o condenava pelas surras que lhe dera. Haviam sido poucas — e nunca com violência, ou com a raiva provocada pela embriaguez. E tinham ocorrido há muito tempo. Há vinte anos vivia com ele e estava contente com seu homem.
— Liza, menina — disse Brock, experimentalmente, com o rosto ainda virado para a parede. — Tess já sabe, bem... a respeito das “coisas”?
— Claro que não — disse ela, chocada. — Ela foi bem criada!
— Bom, por Deus, está na hora de você a chamar de parte e lhe dizer — falou ele, irritado, sentando-se novamente. — E é melhor ter cuidado com ela. Por Deus, se eu pegar alguém farejando Tess... O que faz você pensar que ela já está na idade? Será que a garota disse alguma coisa? Está agindo de maneira diferente?
— Claro que eu tomo conta dela. É ridículo pensar que não. Ridículo! — bufou Liza. — Vocês homens são todos iguais. Ora! Faça isso e faça aquilo, ameaças e não sei o que mais, quando a menina só está crescendo e chegando na hora de casar! E eu lhe agradeceria se não praguejasse tanto, Sr. Brock! Seja gentil e bem-educado!
— Cale sua boca, por Deus, e a conversa se encerra aqui, por Deus!
Liza sorriu, complacentemente, de si para consigo. Quem será? Não aquele Nagrek Thumb, por Deus. Quem? O jovem Sinclair? Não tem dinheiro, e é muito pretensioso e dado demais à igreja. Mas parece ter futuro, não há dúvida, e está no conselho do maldito Longstaff. Nada como um filho de reverendo numa família. É possível. E o americano, Jefferson Cooper? Melhor. Bastante rico. Bastante poderoso. Mas é um maldito estrangeiro que detesta a nós, ingleses. Mesmo assim, Brock e Cooper-Tillman reunidos seriam uma bela faca nas tripas da Casa Nobre. Gorth seria bom, mas é meio-irmão dela e assim está excluído. Que pena!
Liza examinou os muitos que dariam bons maridos. O homem tinha de ter dinheiro, poder e potencialidade. E uma vontade de ferro e um braço forte para controlála. Sim, pensou. Aquela menina vai precisar de umas boas surras de cinturão no traseiro, de vez em quando. É uma grande teimosa. Não é fácil de manejar. Longstaff seria perfeito. Mas já é casado, embora eu tenha ouvido dizer que a mulher dele anda doente e vive em Londres, de maneira que talvez fosse melhor esperarmos.
A lista se reduziu para dois nomes. Mas quem?
— Tyler?
— Pelo amor de Deus, você não deixa um homem dormir em paz? O que é, agora?
— Que será que aquele demônio vai fazer com Culum Struan?
— Não sei. Talvez o mate, quem sabe. Nao sei. Só sei que fará com certeza alguma coisa terrível.
— Culum é um garoto de fibra, resistindo daquele jeito. Brock riu.
— Eu só queria que você tivesse visto a cara de Dirk. Aquele filho da mãe balançou. Balançou de verdade.
— O garoto foi muito esperto, dando a terra para a igreja. Ele salvou seu pai do perigo. E a você também.
— Ridículo, mulher. Não a mim, por Deus. Dirk queria aquele outeiro, desesperadamente. Ele faria um lance atrás do outro, e eu só iria parar quando ele estivesse estrangulado pelo preço. Se não fosse aquele fedelho, Dirk estaria de joelhos agora. Arrebentado.
— Ou Struan poderia deixar você se estrangular. Da mesma maneira.
— Não. Ele queria aquele outeiro.
— Ele queria mais ver você destruído.
— Não. Você está enganada. Vá dormir.
— O que ele fará com Culum?
— Não sei. Ele é um homem vingativo. Os dois se odeiam, agora. Nunca vi Dirk tão furioso. Uma briga entre ele e o rapaz poderia funcionar otimamente para nós.
Por um momento, Liza se sentiu dominada pelo medo. Medo por seu homem. Medo pela violência entre ele e Struan. Uma inimizade que só terminaria com a morte de um deles. Ou de ambos. Meu Deus do céu, ela rezou, pela milionésima vez, fazei que haja paz entre eles. Depois, parou de sentir medo e disse a si própria o que sempre dissera: “Acontecerá o que tiver de acontecer.” E isto a fez lembrar o Hamlet, de Willian Shakespeare, que era sua paixão.
— Por que não construir um teatro, Tyler? Em Hong Kong. Agora vamos ficar aí, não é?
— Sim. — Brock se animou, seus pensamentos se afastaram de Struan. — É uma boa idéia, Liza, muito boa. Antes que aquele canalha pense nisso. Sim, vou falar com Skinner amanhã. Vou começar a levantar fundos. E mandarei buscar um grupo teatral. Vamos encenar uma peça no Natal. Pense qual será.
Liza ficou calada. Ela teria dito Romeu e Julieta, mas isto seria uma estupidez, pois sabia que seu marido adivinharia imediatamente por que dissera aquilo. Sim. Tess seria elo para unir os Brocks e Struans. Mas a união não acabaria em tragédia. Como acabou com os Montecchios e os Capuletos.
— Se Gorth tivesse feito aquilo com você, tomado o seu outeiro, o que você teria feito?
— Não sei, querida. Mas estou satisfeito de não ter sido Gorth. Vá dormir, agora.
Liza Brock deixou seus pensamentos vaguearem. Qual dos dois seria melhor? Melhor para nós, ou melhor para Tess? Culum Struan ou Dirk Struan?