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O nevoeiro baixou sobre os navios calmamente ancorados. E, envolta nele, chegou uma sampana ensombrecida. Tocou a amarra dianteira da âncora do White Witch por um momento. Mãos seguraram rapidamente a amarra, um machado se ergueu e caiu e a sampana desapareceu tão depressa como surgira.

Os que se encontravam no convés, os marinheiros armados e Nagrek, oficial do turno, nada notaram de estranho. No meio do nevoeiro, sem costa à vista ou outros navios para servirem de ponto de referência, o vento fraco e o mar calmo não davam nenhuma idéia de movimento. O White Witch derivou em direção à praia.

O mestre fez o sino soar oito vezes e Nagrek ficou cheio de pânico, com o risco que ia correr. Maldito idiota, pensou ele. Você se põe em perigo mortal, marcando encontro com Tess. Não vá — fique no convés — ou siga para seu beliche e durma. Mas não vá onde ela está. Esqueça-a, e esqueça do dia de hoje, e esqueça a noite passada. Durante meses, Nagrek estivera consciente da presença dela, mas a noite passada, durante seu turno, ele espiara através da portinhola da cabina que ela partilhava com a irmã. Viraa de camisola de dormir, de joelhos diante do beliche como um anjo, fazendo suas orações. Os botões da camisola estavam abertos, os bicos dos seios dela duros ao encontro da seda branca. Depois de terminar suas orações, ela abriu os olhos e, por um instante, ele pensou que o vira. Mas ela afastara a vista da portinhola e arrepanhara a camisola num pufe, moldando-a contra o corpo. Depois, movimentara as mãos sobre si mesma. Numa carícia. Langorosamente. Seios, coxas, cintura. Em seguida, tirara a camisola e ficara diante do espelho. Seu corpo foi percorrido por um tremor e então ela tornou devagarinho a se vestir, suspirou e apagou a lanterna, metendo-se na cama.

E então hoje, observando-a correr pela praia, com a saia voando, a observar-lhe as pernas e desejar estar entre elas, decidira possuí-la. Esta tarde, a bordo, cheio de terror e desejo, ele lhe sussurrara o pedido e vira-a corar, e ouviu-a responder:

— Sim, Nagrek, esta noite, aos oito toques do sino. Seu substituto chegou ao convés.

— Pode descer, Nagrek — disse Gorth, caminhando até à popa.

Ele se aliviou nos embornais e, depois, bocejou e tomou seu lugar no tombadilho, ao lado da bitácula, sacudindo-se quase como um cão.

— O vento mudou para leste.

— Eu senti. — Gorth, irritado, serviu-se de uma dose dupla de rum. — Maldito nevoeiro!

Nagrek foi para sua cabina. Tirou os sapatos e se sentou no beliche, molhado de suor. Sufocado por sua estupidez, mas incapaz de controlá-la, deslizou para fora da cabina e, sem fazer ruído, caminhou nas pontas dos pés pelo corredor. Parou diante da cabina. Sua mão estava úmida, enquanto experimentava a maçaneta. Respirando com dificuldade, entrou na cabina e fechou a porta.

— Tess? — Sussurrou, quase rezando para que ela não o escutasse.

— Psiu — ela respondeu — senão você vai acordar Lillibet. O terror dele aumentou — sua mente gritava: “Vá embora!”

— Mas seus anseios o forçavam a ficar.

— Isto é terrivelmente perigoso — disse ele. Sentiu a mão dela sair da escuridão, pegar a dele e guiá-lo para o beliche.

— Você queria falar comigo? O que você queria? — disse ela, inflamada pela escuridão e pelo mistério, e pela presença de Nagrek, aterrorizada com aquilo, mas adorando.

— Agora não é a hora, amor.

— Mas você queria falar em segredo. Como poderia ser em segredo, senão assim?

— Ela se sentou no beliche, puxou a roupa com mais força em redor do corpo e colocou a mão na dele, com as pernas moles.

Ele se sentou no beliche, sufocado de desejo. Sua mão avançou e ele tocou no cabelo dela, e depois em seu pescoço.

— Não faça isso — ela murmurou, e estremeceu quando ele lhe acariciou os seios.

— Quero casar com você, amor.

— Ah, sim, ah, sim.

Os lábios dos dois se tocaram. A mão de Nagrek percorreu o corpo dela, todos os seus contornos. E, com o seu toque, veio um frenesi de terror. Aproximando-se cada vez mais do centro.

***

Gorth parou de olhar em direção ao nevoeiro, enquanto o mestre fazia soar o sino uma vez, e caminhou pela bitácula. Olhou para ela, com a lanterna tremeluzindo, e não conseguiu acreditar no que viu. Sacudiu a cabeça, para pensar melhor, e olhou outra vez.

— É impossível!

— O que está errado, senhorrr? — perguntou o mestre, espantado.

— O vento, por Deus. Está a oeste! Oeste!

O mestre correu para a bitácula, mas Gorth já corria pelo convés, fazendo os marinheiros se dispersarem. Ele se inclinou sobre a proa e viu a amarra cortada.

— Cuidado! Estamos à deriva! — gritou, num pânico repentino, e houve um pandemônio no convés.

— Soltem a âncora da popa! Depressa, malditos! Enquanto os marinheiros corriam para a amarra da popa, a quilha raspou nas pedras do fundo e o navio estremeceu e gritou.

O grito atravessou o madeirame e entrou na fornalha da cabina, e Nagrek e a menina ficaram paralisados por um instante. Depois, ele deixou o calor aderente que emanava dela e saiu para o corredor, correndo em seguida para o convés. Brock abriu violentamente a porta de sua cabina, chegou a ver Nagrek a correr pelo passadiço, e mais ou menos notou que a porta da cabina das meninas estava aberta, mas esqueceu tudo, em sua cega corrida para cima. Liza saiu correndo da cabina principal, atravessou o corredor e passou pela porta aberta.

Quando Brock chegou ao tombadilho, a âncora já fora solta, porém tarde demais. O White Witch deu um grito final, adernou ligeiramente a bombordo e encalhou, pesadamente. Naquele momento, sampanas saíram em bandos do nevoeiro e caíram sobre

o navio com ganchos, enquanto piratas começaram a subir pela embarcação.

Os piratas estavam armados com mosquetes, facas e espadas, e o primeiro a chegar ao convés foi Scragger. Logo, os homens do White Witch lutavam para defender suas vidas.

Gorth esquivou-se a um chinês que arremeteu contra ele e, agarrando o homem pela garganta, partiu-lhe o pescoço. Nagrek pegou um chicote de ferro e brandiu-o contra a horda invasora, notando a presença de Scragger e outros europeus entre os chineses. Ele aleijou um homem e correu em direção a Brock, que cobria o passadiço, para ninguém chegar aos alojamentos lá embaixo. E nem às barras de prata no porão.

Scragger abateu um homem a faca e recuou, observando seus comandados atacarem.

— Para baixo, por Deus! — gritou, e liderou a corrida contra Brock. Outros investiram e mataram o primeiro dos vigias que vinha da parte inferior do convés.

Brock fez explodir a cara de um europeu, jogou a pistola inútil na virilha de outro e deu um violento golpe com sua espada. Investiu contra Scragger, que se esquivou e puxou

o gatilho de sua arma apontada, mas Nagrek bateu contra ele naquele exato segundo e a bala assobiou inofensiva no nevoeiro. Scragger virou-se, rosnando, e furou Nagrek com sua espada, ferindo-o ligeiramente e depois meteu-se na massa, atirando-se contra Brock outra vez. Sua espada atravessou um marinheiro; depois Brock agarrou-o pelo pescoço e os dois caíram, batendo-se com punhos e joelhos. Brock arquejou, quando a espada de Scragger alcançou-o, no rosto. Conseguiu levantar-se, atirou Scragger para um lado e investiu, de espada em riste, contra ele. Scragger rolou na hora certa e a espada se quebrou, ao bater no convés. Brock enterrou a espada partida num chinês que pulou em sua garganta, e Scragger fugiu correndo para trás de um grupo dos seus homens.

Gorth lutava no convés principal, dando golpes de espada, apontando a arma, quando uma faca entrou-lhe no flanco e ele arquejou e caiu. Brock viu o filho cair, mas permaneceu no passadiço, brigando e matando.

Embaixo, Liza Brock levou Tess e Lillibet para a cabina principal.