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Struan fez um gesto, apontando para baixo.

— A vista daqui é bonita, hein?Culum não disse nada. Seus joelhos tremiam, sob a chama do olhar do pai.

— Não concorda?

— A igreja... todos poderão...

— Já sei tudo a respeito da igreja — interrompeu Struan. — Você ouviu falar de Brock? — A voz era demasiado mansa, calma demais.

— O que aconteceu com ele?

— Foi atacado por piratas, durante a noite. Os piratas cortaram o cabo de seu navio, que ficou à deriva e foi arrastado para a praia. Depois entraram a bordo. Não ouviu os tiros?

— Sim. — Culum estava oprimido e cansado. Noites sem dormir, depois a descoberta de que só ele poderia salvá-los, e a decisão, em seguida, de enganar Longstaff.

— Mas não sabia que era isso.

— Sim. Atacados por piratas, no porto de Hong Kong. Logo que o nevoeiro se desfez, eu me aproximei. Brock disse que perdeu sete homens e o capitão.

— Gorth?

— Não. Nagrek. Nagrek Thumb. O pobre homem morreu em conseqüência de seus ferimentos. Gorth ficou ferido, mas sem gravidade. — O rosto de Struan se endureceu. — O capitão morreu defendendo seu navio. Uma bela forma de morrer.

Culum mordeu os lábios e ficou examinando o outeiro, em torno, com o coração batendo.

— Quer dizer que este é meu Calvário?

— Não entendo o que quer dizer.

— Os capitães morrem defendendo seus navios? Este é meu navio... este outeiro... é isto que quer dizer? Está me perguntando se quero morrer defendendo isto?

— Quer?

— Não tenho medo de você. — As palavras saíram roucas da garganta ressecada de Culum. — Há leis contra o assassinato. Posso lutar contra você, e você pode me matar, mas será enforcado por isso. Estou desarmado.

— Acha que eu mataria você?

— Se eu me atravessar em seu caminho, sim, e me atravessei em seu caminho, não foi?

— Ah, se atravessou?

— Você era um Deus para mim. Mas, nos trinta dias que passei aqui, conheço você como é. Matador. Assassino. Pirata. Contrabandista de ópio. Adúltero. Você compra e vende pessoas. Você é o pai de bastardos e se orgulha deles, e seu nome fede nas narinas das pessoas decentes.

— Que pessoas decentes?

— Você queria me ver. Estou aqui. Diga-me o que quer e vamos acabar com isso. Estou cansado de brincar de rato para seu gato. Struan pegou seu bornal e o colocou num ombro.

— Vamos.

— Por quê?

— Quero falar com você em particular.

— Estamos sozinhos, agora. Struan fez sinal com a cabeça em direção aos navios ancorados.

— Ali existem olhos. Posso sentir que nos observam. — Apontou para a praia, pontilhada de chineses e europeus. Os comerciantes caminhavam pelos seus lotes. Crianças já brincavam. — Estamos sendo observados de toda parte. — Indicou um cume de morro, a oeste, — É para lá que vamos.

O morro era quase uma montanha, tinha treze mil pés de altura, rochoso, árido e sombrio.

— Não.

— Será que é longe demais para você? — Struan viu o ódio no rosto de Culum e ficou esperando uma resposta. Mas só houve um silêncio. — Pensei que não estivesse com medo.

Ele deu a volta e desceu o outeiro, começando em seguida a subir a encosta da montanha. Culum hesitou, devorado pelo medo. Depois, começou a ir atrás dele, dominado pela vontade de Struan.

Enquanto Struan subia, sabia que estava fazendo outro jogo perigoso. Não parou para olhar para trás, senão quando já alcançara a crista da montanha. O local era varrido pelo vento e desolado. Olhou para trás e viu Culum se esforçando para subir, ainda bem afastado.

Virou as costas para o filho.

O panorama era vasto. Maravilhosamente belo. O sol alto, no céu azul, e o Oceano Pacífico como um tapete azul-esverdeado. As montanhas das ilhas, de um marromoliváceo, salientavam-se no tapete marinho, Pokliu Chau a sudoeste; Lan Tao, a grande ilha, maior do que Hong Kong, a quinze milhas de distância, em direção oeste; e as centenas de pequenas ilhas áridas e rochedos descampados que cercavam o arquipélago de Hong Kong. Os navios, no porto, apareciam nitidamente em seu binóculo e, ao norte estava a China continental. Via frotas de juncos e sampanas que percorriam o canal Lan Tai, aproximando-se de Hong Kong pelo oeste. Outros viajavam de volta, entrando no estuário do Rio Pérola. A norte, sul e leste havia tráfego marinho: fragatas em patrulha, juncos de pesca, sampanas, mas nenhum navio mercante. Bom, ele pensou, mais algumas semanas, a segunda guerra terminará e então os navios mercantes vão dominar o mar.

Culum lutava para subir pela trilha aberta por Struan. Estava quase exausto e só sua vontade obstinada mantinha-lhe os pés em movimento. Suas roupas estavam rasgadas e tinha o rosto arranhado pelas ervas espinhentas. Mas ainda subia.

Afinal, chegou à crista, com o peito arquejante, o vento a empurrá-lo.

Struan estava sentado no chão, alguns pés abaixo, ao abrigo do vento. Uma toalha estava estirada no chão e havia comida e uma garrafa de vinho.— Aqui, rapaz — disse Struan, e ofereceu meio copo de vinho.

Ainda ofegando, Culum pegou o vinho e tentou beber, mas a maior parte lhe escorreu pelo queixo. Ele o enxugou e arquejou, procurando mais ar.

— Sente-se — disse Struan. Para pasmo de Culum, Struan sorria benevolentemente.

— Vamos, rapaz, sente-se. Por favor, sente-se.

— Eu... eu... não entendo.

— A vista é mais bonita daqui, não?

— Num momento, você parece o próprio Demônio — disse Culum, com os pulmões ardendo do exercício — e agora... agora... agora... não entendo...

— Trouxe frango e pão — disse Struan. — E outra garrafa de vinho. Não gosta? Culum se deixou cair, exausto.

— Frango?

— Bom, você não almoçou, não é? Deve estar morto de fome.

— A respeito do outeiro, eu...

— Recupere o fôlego, descanse, depois coma. Por favor. Com certeza está sem dormir há duas noites. Não é bom conversar com o estômago vazio. Coma devagar, senão vai ficar enjoado. Foi uma subida cansativa, até aqui. Eu próprio estou cansado.

Culum se recostou numa pedra e fechou os olhos, recuperando as forças, enquanto o corpo bradava por descanso. Forçou os olhos a se manterem abertos, pensando que aquilo fosse um sonho. Mas ali estava seu pai, examinando o mar, ao sul, através do binóculo.

— Com relação ao outeiro, eu estava...

— Coma — interrompeu Struan, e lhe ofereceu um pouco de frango.

Culum pegou uma perna da galinha.

— Não posso comer. Só quando tiver dito o que tenho para dizer. Eu tinha de fazer aquilo. Era preciso. Você jamais teria concordado, e era a única maneira. Brock teria destruído você. Ele ia parar de fazer os lances. Eu sei que sim. Se ele não o odiasse tanto, e você a ele, então você teria o outeiro. Você forçou a questão. Foi você. A culpa é sua. O outeiro é da Igreja e isto está certo. Você forçou esta situação.

— Sim — disse Struan. — Claro. Estou muito orgulhoso de você. Foi preciso muita coragem. Robb jamais teria feito isso, ou, mesmo que tivesse pensado em fazer, jamais seria capaz de levar a idéia avante.

Culum ficou perplexo.— Você... você queria que eu fizesse aquilo?

— Claro, rapazinho. Era a única solução para uma situação impossível.

— Você planejou que eu fizesse aquilo?

— Apostei que você faria, sim. Insinuei que você deveria fazer. Quando você ficou tão nervoso, à procura de Longstaff... e quando me evitou, no Vale Feliz... pensei que tinha combinado tudo. Então, fiquei desconcertado com sua reação a Gordon. Mas Longstaff, mais tarde, disse: “Seu outro gesto, maravilhoso!”, e então eu soube que você encontrara a única solução possível. Estou muito orgulhoso de você, rapaz. Brock certamente nos teria liquidado. Eu não podia fazer nada para impedir. O outeiro era uma questão de prestígio.