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— Você... você me atirou... me atirou durante dois dias e duas noites num inferno... sabendo que meu gesto era uma simples solução?

— Será que foi tão simples assim?

— Para você, foi! — gritou Culum. — Ele ficou em pé, de um salto.

— Sim — disse Struan, com a voz repentinamente áspera. — Para mim. Mas não para você. Mas você tomou a decisão e, com isso, cresceu. Agora, você é um homem. Se eu tivesse sugerido a você a “Casa de Deus”, você não teria sido capaz de executar o plano. Nunca. Teria desistido. Você precisava acreditar no que estava fazendo. Se Brock tivesse pensado, por um só instante, que eu planejara tudo com você, ele faria de nós alvo de riso de toda a Ásia. Estaríamos desmoralizados para sempre.

— Você me sacrifica por uma questão de prestígio? — gritou Culum. — Seu maldito prestígio?

— O nosso, Culum — disse Struan. — E é bom ouvir você praguejar, afinal. Isto melhora você, rapaz!

— Então toda sua raiva, sua raiva... era fingida?

— Claro, rapaz — disse Struan. — Era para enganar Brock. E os outros.

— Até Robb?

— Robb mais do que qualquer outra pessoa. Coma um pouco.

— A comida que vá para o inferno! Você é o Demônio! Você nos carrega a todos para o inferno, com você. Mas, por Deus, juro que... Struan levantou-se, com um pulo, e agarrou Culum pelos ombros.

— Antes de você dizer alguma coisa de que possa se arrepender, é bom escutar. Eu apostei que você teria a coragem de decidir, e você assim fez. Sozinho. Sem minha ajuda. E eu abençoei você. Agora, você é Culum Struan, o homem que teve a coragem de contrariar o Tai-Pan. O homem que lhe tomou seu querido outeiro. Você é único. Você ganhou mais prestígio num só dia do que poderia adquirir em vinte anos. Como, pelo amor de Deus, você acha que é possível controlar homens e conduzi-los para onde se quer? Com a força bruta, apenas! Não. Com o cérebro. E com magia. — Soltou Culum.

— Magia? — Culum estava sufocado. — Mas isto é magia negra!

Rindo baixinho, Struan se sentou e se serviu de um copo de vinho.

— Os inteligentes terão visto como você é esperto. “Aquele Culum é astuto. Ele dá o outeiro à Igreja. E assim impede aquele demônio do Struan de destruir a Casa Nobre, empregando sua fortuna num outeiro sem valor. Culum salvou o prestígio do Tai-Pan e, ao mesmo tempo, aquele demônio não pode matar Culum Struan por dar terras à Igreja.”

— Struan bebeu o vinho. — Até Brock deve estar impressionado, pense ou não que se trata de um pacto secreto, porque você foi capaz de fazer aquilo tudo. Os religiosos o abençoarão por dar “o melhor” à Igreja. Os idiotas como Longstaff terão medo de você e irão pedir seus conselhos. Os cínicos terão o maior respeito por sua esperta solução e vão detestá-lo, e dirão: “Culum tem nele o demônio do pai. É melhor ter cuidado.” Eu acho que você ganhou estatura, rapaz.

— Mas... mas se eu... e então você, você perdeu prestígio?

— Sim. Mas eu tenho prestígio mais do que suficiente, de sobra. Para dar também a você e a Robb. E não tenho muito tempo para firmar você em seu lugar. Cuidado, rapazinho. Todos estarão pensando: “Culum resolveu tudo uma vez, mas será capaz de fazer aquilo de novo?” E vão esperar que nós nos odiemos tanto, a ponto de nos destruirmos. E é exatamente o que vamos fingir que estamos fazendo. Abertamente. Em público.

— O quê?

— Claro. Fria hostilidade, sempre que nos encontrarmos. E, não vai demorar muito tempo, Brock tentará atraí-lo para seu lado. Cooper também... e Tillman. Eles encherão você de mentiras... ou verdades distorcidas, na esperança de você ficar tão cheio de ódio que arruíne a mim e a você próprio, na barganha. E à Casa Nobre. Pois todos os negociantes querem aquele prêmio. Mas, agora, jamais conseguirão. Você provou seu valor, por Deus.

— Você não tem nada a ver com isso — disse Culum, tranqüilamente.

— Você terá tudo a ver com isso. Durante cinco meses e cinco anos. Você fez um juramento sagrado.

— Vai me obrigar a cumpri-lo? Agora?

— Você o cumprirá por vontade própria. Seu salário foi triplicado.

— Acha que o dinheiro é importante, numa situação dessas?

— É um pequeno pagamento por dois dias no inferno.

— Não quero dinheiro nenhum. E não vou fazer isso. Não posso.

Struan escolheu uma perna de galinha, pensativamente.

— Estudei você com muito cuidado. Fiquei tentado a não lhe dizer nada. Deixar você desempenhar um papel sem saber. Mas, depois, pesei você. Decidi que você podia fazer isso sabendo. Será mais agradável para nós ambos agora que você sabe.

— Deixaria eu viver minha vida e acabar minha vida odiando você? Só para levar adiante a Casa Nobre?

— Você sabe a resposta para essa pergunta.

— Você é perverso.

— Concordo. De algumas maneiras — disse ele, mastigando o frango, com gosto.

— Sou todas as coisas que você diz, e ainda mais. Deixo de obedecer a muitos dos Mandamentos, mas não a todos. Sei o que eu faço e estou pronto para responder pelas minhas ações. Mas sou o único homem no mundo em quem você pode confiar completamente... desde que não vá contra a casa, deliberadamente. Sou o Tai-Pan. Com sofrimento e maldade, você será a mesma coisa.

— Não compensa a hipocrisia. E o mal.

— Ah, rapaz, você faz bem ao meu coração — disse Struan, atirando fora o osso de frango. — Você é tão jovem. Invejo você, os anos que tem diante de si. Não vale a pena? Ser o melhor? Dominar Brock e os outros pela força de sua presença? Longstaff e, através dele, a Corôa? O Imperador da China? E, através dele, trezentos milhões de chineses? — Struan bebeu um pouco de vinho. — Vale a pena. Muito ódio e um pouco de teatro são um preço pequeno a pagar.

Culum se recostou em seu berço de pedra, com a mente enfurecida diante das palavras e perguntas implacáveis e das respostas inexoráveis. É esta a vontade de Deus?

— perguntou a si mesmo. Os mais fortes sobreviveram à custa dos mais fracos? Pois Deus fez todas as coisas e sua maneira de ser. Mas Jesus disse: “Os mansos herdarão a terra.” Será que Ele queria dizer a terra... ou o Reino de Deus?

Mansidão não teria obtido as barras de prata, nem as protegeria. Mansidão não teria salvo a Casa Nobre, quando surgiu a questão do outeiro. Mansidão jamais levaria ao progresso, jamais se imporia aos cruéis e aos cobiçosos. Se eu for Tai-Pan, a Carta será promovida. A riqueza com um objetivo — um objetivo imortal, ele disse. Muito bem. O ódio de Culum Struan por seu pai desapareceu. E, com o ódio, seu amor. Tudo que ficou foi respeito.

— Por que você subiu até aqui? — perguntou Culum. Struan sabia que perdera o filho. Ficou triste como pai, mas não como homem. Trouxera seu inimigo para o combate nos termos dele, e na ocasião que escolhera. Então, cumprira seu dever de pai.

— Para cansar você, de modo que eu pudesse falar e fazê-lo entender — disse. — E para mostrar a você que, embora a vista do outeiro seja boa, a daqui é ótima.

Culum viu a vista, pela primeira vez.

— Sim, é mesmo. — Depois, inclinou-se para a frente, escolheu um pedaço de frango e começou a comer. Struan não deixou que a dor aparecesse em seu rosto. O sorriso do rapaz voltará, disse a si próprio. Dê tempo ao rapaz. É duro crescer tão depressa. Dê tempo ao rapaz.

Ele se sentiu muito cansado. Recostou-se numa pedra e virou seu binóculo para o sul, procurando o China Cloud. Mas não estava à vista. Ociosamente, esquadrinhou o horizonte. Então seus olhos se fixaram.

— Veja, rapaz, ali está o Blue Cloud!

Culum pegou o binóculo e viu o clíper. Era idêntico ao Thunder Cloud, com 18 canhões e igualmente veloz e belo. Belo até mesmo para Culum, que odiava navios e o mar.