— Deve ter a bordo ópio no valor de cem mil guinéus — disse Struan. — Agora, o que deverá fazer? Temos três navios aqui e mais dezesseis deverão chegar até o fim do mês.
— Mandá-los para o norte? A fim de vender suas cargas?
— Sim. — Uma sombra passou pelo rosto de Struan. — Isto me fez lembrar uma coisa. Você se recorda de Isaac Perry?
— Sim. Parece que há um século.
— Eu o despedi, lembra-se? Porque ele não deu apoio a McKay e tinha medo de mim, e eu não sabia o motivo. Dei a McKay quinze dias para descobrir a resposta desse enigma, mas ele nunca voltou para Cantão. A noite passada, eu vi McKay. Ele tem um emprego em terra, agora, juiz auxiliar e policial. — Acendeu um charuto, pondo a mão em concha para se proteger do vento, passou-o para Culum e acendeu outro. — Bom, parece que Perry tem agora uma colocação com Cooper-Tillman. Na linha entre a Virgínia e a África. Transportando escravos.
— Eu não acredito nisso.
— Wilf Tillman me disse. A noite passada. Ele deu de ombros e disse que Perry não queria mais fazer a linha para a China. Então, ofereceu-lhe um navio negreiro, e ele aceitou. Partiu há uma semana. Pouco antes de Perry partir, McKay o enganou. Eles beberam juntos. McKay disse que fora demitido por mim, como o outro, e me amaldiçoou, pedindo-lhe, em seguida, um emprego no novo navio de Perry e jurando vingar-se de mim. A bebida deixa qualquer língua solta e a de Perry se soltou. Contou a McKay que vendera uma cópia dos nossos locais secretos de comércio na costa, com as latitudes e longitudes, e os nomes de nossos negociantes de ópio, a Morgan Brock. Da última vez em que esteve em Londres.
— Então Brock sabe de todos os nossos locais secretos?
— Aqueles que Perry usava. Dez anos de comércio. Isto representa quase todos.
— O que podemos fazer?
— Encontrar novos locais e novos homens em que se possa confiar. Então, como vê, rapaz, não se pode confiar muito em ninguém.
— Isso é terrível.
— É a lei de sobrevivência. Descanse por uma hora, e depois vamos partir.
— Para onde?
— Para Aberdeen. Vamos dar uma olhada tranqüila. Antes da escolha dos homens de Wu Kwok. — Ele abriu o bornal e entregou uma pistola. — Sabe usar armas desse tipo?
— Não muito bem.
— Talvez seja bom você praticar.
— Está bem. — Culum examinou a arma. Usara pistolas de duelo uma vez, numa tola briga na universidade, e tanto ele como o adversário ficaram tão aterrorizados que as balas erraram o alvo a uma grande distância.
— Podemos ir agora — disse Culum. — Não estou mais cansado. Struan abanou a cabeça.
— Quero esperar até o China Cloud aparecer no horizonte.
— Onde esteve o navio?
— Em Macau.
— Por quê?
— Mandei-o para lá. — Struan limpou as migalhas do casaco. — Uma recompensa acaba de ser colocada pela cabeça de minha amante. E do filho e da filha que tive com ela, se forem capturados vivos. Mandei Mauss no China Cloud trazê-los ambos para cá. Estarão a salvo a bordo.
— Mas Gordon Chen já está aqui. Eu o vi ontem.
— Essa moça não é a mãe dele.
Culum achou curioso que agora não ficasse magoado por saber que seu pai tinha duas — não, três — famílias. Três, contando a ele próprio e Winifred.
— Seqüestro é uma coisa terrível. Terrível — disse.
— Há uma recompensa por sua cabeça, agora. Dez mil dólares.
— Será que eu valho tanto? Não sei, não.
— Se um chinês oferece dez, você pode apostar que vale cem. — Struan outra vez focalizou o binóculo no Blue Cloud. — Acho que cem mil seria uma soma mais exata. Para você.
Culum cobriu os olhos do sol e compreendeu o cumprimento de seu pai. Mas não deu nenhuma mostra disso. Estava pensando a respeito da outra amante e ficou imaginando como ela era, e se a mãe de Gordon Chen era parecida. Sua mente trabalhava friamente, sem emoção, sem rancor, mas com desprezo pela fraqueza e pela promiscuidade do seu pai. Culum achava estranho que sua mente estivesse tão calma.
— O que Brock vai fazer a respeito das barras de prata? Será alvo de ataques sem conta de piratas, enquanto estiver com elas.
— Terá de nos pedir para receber uma parte de volta. Em troca de papel. Faremos isto imediatamente. E com juros inferiores ao usual. Diga a Robb para acertar isto.
— Então seremos alvo de ataques de piratas.
— Talvez. — Struan espiava o Blue Cloud seguindo lentamente, contra o vento, na passagem entre Lan Tao e Hong Kong. — Logo que o China Cloud voltar, eu vou partir. Irei com a força expedicionária e não voltarei a Hong Kong senão na véspera do baile.
— Por quê?
— Para lhe dar tempo para se acostumar com nossa “inimizade”. Você precisará de prática. Você e Robb vão começar a construir. Os planos já estão prontos. Exceto com relação à Grande Casa. Vou decidir a respeito disso mais tarde. Comece a construir uma igreja no outeiro. Peça a Aristotle para fazer o projeto. Pague-lhe um décimo do que ele lhe pedir de início. Você e Robb deverão fazer tudo.
— Sim, Tai-Pan — disse Culum. Tai-Pan. Não papai. Ambos os homens sentiram o caráter decisivo da denominação. E aceitaram isto.
— Construa minha casa no lote suburbano dezessete. Robb tem o plano. Deverá estar pronto dentro de três semanas, com o jardim plantado e em torno dela um muro de dez pés.
— Isso é impossível.
— Custe o que custar. Coloque cem, duzentos homens no trabalho, se for necessário. Mobiliada, ajardinada, como manda o plano. E quero todos os prédios terminados dentro de três meses.
— Vai demorar pelo menos dez meses para construir. Um ano ou mais.
— Sim. Então usaremos mais homens. Mais dinheiro. E terminaremos antes.
— Por que a pressa?
— Por que não?
Culum olhou para o mar.
— E o baile?
— Acerte tudo. Com Robb e Chen Sheng, nosso compradore.
— E Robb? Ele não saberá que nossa inimizade é uma farsa?
— Eu vou deixar você decidir quanto a isso. Você pode dizer a ele na noite do baile. Se quiser. O China Cloud apareceu no horizonte.
— Podemos ir agora — disse Struan.
— Ótimo. Struan colocou o binóculo e o restante da comida dentro do bornal outra vez.
— Mande alguns homens aqui para cima, secretamente, a fim de manterem uma vigília permanente, durante o dia.
— Para quê?
— Os navios. Daqui teremos uma informação antecipada quatro ou cinco horas, quanto à sua chegada. Especialmente os que trazem a correspondência. Então, mandaremos um cúter veloz interceptá-los e conseguiremos nossa correspondência antes dos outros.
— Então?
— Passaremos na frente de todo mundo. Em quatro horas é possível fazer uma porção de compras e vendas. Saber com quatro horas de antecedência pode ser a diferença entre vida e morte.
O respeito de Culum aumentou. Muito inteligente, pensou. Estava olhando, ociosamente, em direção ao oeste, para a grande ilha de Lan Tai.
— Veja! — exclamou de repente, apontando para o sul da ilha. — Fumaça. Um navio está em chamas!
— Você tem olhos apurados, rapaz — disse Struan, virando o binóculo. — Pelo sangue de Cristo, é um vapor!
O navio era negro, esguio e feio, com uma proa pontiaguda. Fumaça jorrava de seu atarracado cano de chaminé. Tinha dois mastros e cordame para velas, mas não usava velas agora, e fumegava malevolamente ao vento, com a bandeira vermelha drapejando na popa.
— Olhe para aquela merda de navio da Marinha Real! Culum ficou abalado com a veemência do pai.
— O que há?
— Aquela porcaria... é isso! Veja o vapor!
Culum olhou pelo binóculo. O navio lhe parecia inofensivo. Tinha visto antes alguns navios movidos a rodas, como aquele. Há dez anos, os navios irlandeses para o transporte de correspondência eram vapores. Via as duas gigantescas rodas propulsoras, no meio da embarcação, entre bombordo e estibordo, a fumaça que se elevava e a esteira espumejante. Havia canhões a bordo. Muitos.