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Mas afastou a inveja. A Inglaterra viria depois, prometeu a si mesmo, todo feliz. Dentro de poucos anos.

Virou-se para observar outra vez a chalupa. Adorava o Tai-Pan. Nunca chamara Struan de “pai” e jamais fora chamado de “meu filho” por ele. Na verdade, só falara com ele vinte ou trinta vezes na vida. Mas tentava tornar o pai muito orgulhoso dele, e sempre pensava em Struan, secretamente, como “pai”. Abençoou-o outra vez por vender sua mãe a Chen Sheng, como terceira esposa. Meu pagode foi grande, pensou.

Chen Sheng era compradore da Casa Nobre e quase um pai para Gordon Chen. O compradore era o agente chinês que comprava e vendia em nome de um estabelecimento estrangeiro. Cada mercadoria, grande ou pequena, passava pelas mãos do compradore. Segundo o costume, em cada mercadoria ele acrescentava uma percentagem. Esta se tornava seu lucro pessoal. Mas seus ganhos dependiam do sucesso da casa à qual pertencia e ele tinha de cobrir dívidas pesadas. Então, precisava ser muito cauteloso e nunca ficar rico.

Ah, pensou Gordon Chen, ser rico como Chen Sheng! Ou, melhor ainda, rico como Jin-qua, o tio de Chen Sheng. Ele sorriu para si próprio, achando divertido que os ingleses tivessem tanta dificuldade com os nomes chineses. O verdadeiro nome de Jin-qua era Chen-tsé Jin Arn, mas até o Tai-Pan, que conhecia Chen-tsé Jin Arn há quase trinta anos, ainda não conseguia pronunciar o nome. Então, há anos, o Tai-Pan o apelidara “Jin”. O “qua” era uma má pronúncia da palavra chinesa que significava “Sr.”.

Gordon Chen sabia que os chineses não se importavam com seus apelidos. Só se divertiam, por ser outro exemplo, para eles, de uma falta de cultura própria de bárbaros. Ele lembrou-se quando, anos atrás, ainda menino, observava Chen-tsé Jin Arn e Chen Sheng secretamente, através de um buraco no muro do jardim, enquanto os dois fumavam ópio. Ouvira-os rir juntos de Sua Excelência — os mandarins em Cantão haviam apelidado Longstaff “Odioso Pênis”, um trocadilho referente ao seu nome, e diziam como os caracteres chineses para a tradução cantonesa haviam sido usados em cartas oficiais endereçadas a Longstaff por mais de um ano — até Mauss explicar a Longstaff o que estava acontecendo e estragar uma brincadeira ótima.

Ele olhou disfarçadamente para Mauss. Respeitava-o por ser um professor implacável e lhe estava grato por forçá-lo a ser o melhor aluno da escola. Mas o desprezava por sua sujeira, por seu fedor e por sua crueldade.

Gordon Chen gostara da escola da missão e de aprender e de ser uma das crianças de lá. Mas, certo dia, descobrira que era diferente das outras crianças. Diante deles, Mauss lhe dissera o que significavam as palavras “bastardo”, “ilegítimo” e “mestiço”. Gordon Chen fugiu para casa, aterrorizado. E viu sua mãe com clareza pela primeira vez, e a desprezou por ser chinesa.

Depois, aprendeu com ela, através das suas lágrimas, que era bom ser meio-chinês, pois os chineses constituíam a raça mais pura da terra. E soube que o Tai-Pan era seu pai.

— Mas por que vivemos aqui, então? Por que é Chen Sheng o “pai”?

— Os bárbaros só têm uma esposa e não se casam com chinesas, meu filho — explicou Kai-sung.

— Por quê?

— É o costume deles. Um costume estúpido. Mas eles são assim.

— Odeio o Tai-Pan! Eu o odeio! Eu o odeio! — ele explodiu. Sua mãe lhe bateu no rosto, selvagemente. Jamais lhe batera antes.

— Ajoelhe-se e peça perdão! — disse, com raiva. — O Tai-Pan é seu pai. Ele lhe deu a vida. Ele é meu Deus. Ele me comprou para si mesmo e depois me abençoou, ao me vender para Chen Sheng como esposa. Por que Chen Sheng tomaria uma mulher com um filho impuro de dois anos como esposa, quando poderia comprar mil virgens, se não fosse porque o Tai-Pan assim o quis? Por que o Tai-Pan me daria propriedades, se não nos amasse? Por que o aluguel viria para mim, e não para Chen Sheng, se o Tai-Pan não determinasse que fosse assim? Por que Chen Sheng me trataria tão bem, mesmo já velha, se não fosse em troca do favor perpétuo do Tai-Pan? Por que Chen Sheng trata você como filho, seu estúpido ingrato, se não por causa do Tai-Pan? Vá para o templo e se ajoelhe com a testa no chão, implorando perdão. O Tai-Pan lhe deu vida. Então ame-o, honre-o e o abençoe, como eu faço. E, se você tornar a dizer isso, jamais voltarei a lhe dirigir a palavra.

Gordon Chen sorriu para si mesmo. Como a mãe estava certa, e como ele estava errado e era estúpido. Mas não tão estúpido quanto os mandarins e o maldito imperador, ao tentarem impedir a venda de ópio. Qualquer louco sabe que, sem ele, não haverá barras de prata para os chás e as sedas.

Uma vez, ele perguntara à sua mãe como o produto era feito, mas ela não sabia, e nem ninguém na casa. No dia seguinte, interrogou Mauss, que lhe informou ser o ópio a seiva — as lágrimas — da vagem madura contendo as sementes de papoula.

— O plantador de ópio faz um corte delicado na vagem e deste corte pinga uma lágrima de líquido branco, hein? A lágrima endurece dentro de poucas horas a sua cor muda, do branco para marrom-escuro. Então, a pessoa raspa a lágrima, guarda-a e faz um novo corte delicado. Depois, raspa a nova lágrima e faz um outro corte. As lágrimas são reunidas e modeladas em forma de bola — dez libras é o peso costumeiro. O melhor ópio vem de Bengala, na Índia Britânica, hein? Ou de Malwa. Onde fica Malwa, menino?

— Na Índia Portuguesa, senhor!

Era portuguesa, mas agora pertence à Companhia das Índias Orientais. Que a tomou para completar seu monopólio mundial de todo ópio e assim arruinar os negociantes portugueses de ópio aqui em Macau. Você comete erros demais, menino, então pegue o chicote, hein?

Gordon Chen lembrava-se de como odiara o ópio, aquele dia. Mas agora o abençoava. E agradecia seu pagode por causa do pai e por causa de Hong Kong. Hong Kong ia enriquecê-lo. Muito.

— Vão ser ganhas fortunas aqui — disse ele a Horatio.

— Alguns dos negociantes vão prosperar — disse Horatio, distraído, olhando para a chalupa que se aproximava. — Uns poucos. O comércio é um negócio diabolicamente complicado.

— Sempre pensando em dinheiro, Gordon, hein? — A voz de Mauss era rouca. — Melhor pensar em sua alma imortal e em sua salvação, menino. O dinheiro não é importante.

— Claro, senhor. — Gordon Chen escondeu seu divertimento diante da estupidez do homem.

— O Tai-Pan parece um príncipe poderoso que vem reivindicar seu reinado — disse Horatio, quase para si mesmo. Mauss tornou a olhar para Struan.

— É verdade, hein?

***

A chalupa estava nas ondas da praia.

— Remos ao alto! — gritou o mestre, e a tripulação guardou os remos na embarcação, escorregou por sobre o costado e arrastou a chalupa, habilmente, por sobre a rebentação.

Struan hesitou. Depois saltou da proa. No momento em que suas botas de marinheiro tocaram a praia, ele soube que a ilha ia ser a morte para ele.

— Santo Cristo!

Robb estava a seu lado e viu sua repentina palidez.

— O que está errado, Dirk?

— Nada. — Struan forçou um sorriso. — Nada, garoto.

Limpou da testa os respingos do mar e caminhou pela praia em direção ao mastro. Pelo sangue de Cristo, pensou, suei e planejei durante anos, para ter você, Ilha, e você não vai me derrotar agora. Não, por Deus.

Robb o observava, e a seu leve capengar. O pé dele deve estar doendo, pensou. Ficou imaginando como seria uma dor na metade do pé. A causa disto era um fato ocorrido na única viagem de contrabando feita por Robb. Ao salvar a vida de Robb, quando ele estava inerme e paralisado pelo medo, Struan ficou à mercê dos piratas. Uma bala de mosquete arrancou-lhe a parte externa do astrágalo e dois dos dedos menores do pé. Quando o ataque acabou de ser repelido, o médico de bordo cauterizou as feridas e derramou sobre elas breu derretido. Robb ainda podia sentir o fedor da carne queimada. Se não fosse por minha causa, pensou, isto jamais teria acontecido.