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E a Colônia, e as vias marítimas em Whampoa, explodiram, com a frenética competição, noite e dia. Os navios mercantes tiveram de ser preparados para os delicados chás: tiveram os porões pintados de novo e o fundo do casco limpo e higienizado. Era preciso encontrar provisões para a viagem de volta. Tornava-se necessário fazer a separação do espaço para a carga.

Os negociantes que não possuíam navios próprios — e havia muitos deles — caíram sobre os proprietários de embarcações e lutaram por bons espaços para carga nas melhores delas. Preços exorbitantes pelos fretes foram cobrados, e alegremente pagos.

A Casa Nobre e Brock e Filhos haviam sempre comprado chá, seda e especiarias por conta própria. Mas, sendo sagazes, os Struans e Brocks também transportavam carga para outros, e agiam não só como expedidores, mas também como corretores, banqueiros e agentes comerciais, em viagens de volta à Inglaterra, ou de lá procedentes. Nestas, transportavam carga para outrem — produtos do algodão, fio e fibra de algodão principalmente, mas também tudo o que produzia o poder industrial da Inglaterra, e qualquer coisa julgada vendável por um negociante. Algumas vezes, navios de outras companhias inglesas lhes eram consignados, e eles aceitavam a responsabilidade de vender sua carga, fosse qual fosse, em comissão, na Ásia, e de encontrar uma carga para a viagem de volta, ainda em comissão. Em viagens de vinda, a única carga que os Struans e Brocks compravam era ópio, canhões, pólvora e metralha.

As barras de prata começaram a mudar de mãos, e Struan e Brock ganharam pequenas fortunas, fornecendo dinheiro à vista a outros negociantes e recebendo títulos bancários em Londres. Mas o dinheiro à vista só era entregue quando um navio e sua carga passavam a salvo pelo Bogue, permanecendo um dia em mar aberto.

Aquele ano, Struan passara por cima de Robb e mantivera todo o espaço de carga do Blue Cloud só para a Casa Nobre e todo o chá e a seda só para a casa. Quatrocentos e cinqüenta e nove mil libras de chá, cuidadosamente acondicionadas em caixas de cinqüenta libras, revestidas com cedro, e cinco mil e quinhentos fardos de seda começaram a encher os porões do Blue Cloud, interminavelmente: seiscentas mil libras esterlinas, caso fossem entregues em segurança na cidade de Londres, chegando primeiro; cento e sessenta mil libras de lucro, se o navio tivesse a dianteira.

E, aquele ano, Brock conservara toda a carga do Gray Witch. Deveria transportar meio milhão de libras de chá e quatro mil fardos de seda. Como Struan, Brock sabia que não dormiria bem até o paquete com a correspondência, dali a seis meses, trazer a notícia de que o navio chegara a salvo — e a venda fora tranqüila.

***

Longstaff estava coroado de orgulho por ter, sozinho, reaberto o comércio tão facilmente, e levado o Vice-rei Ching-so em pessoa à mesa de negociações.

— Mas, meu querido almirante, para que eu mandei embora três delegações, ora? Uma questão de prestígio. É preciso entender a mentalidade dos pagãos, com relação ao prestígio. Negociações e comércio, quase sem disparar um tiro! E o comércio, meu caro senhor, o comércio é o sangue necessário à vida da Inglaterra.

Ele cancelou o sítio a Cantão, o que eufureceu ainda mais o Exército e a Marinha. E repetiu o que Struan lhe advertira, e que ele, Longstaff, já dissera:

— Devemos ser magnânimos, senhores, para com os derrotados. E proteger os fracos. O comércio da Inglaterra não pode nadar no sangue dos indefesos, não é? As negociações serão encerradas em poucos dias e a Ásia estará estabilizada, de uma vez por todas.Mas as negociações não foram concluídas. Struan sabia que não poderia haver conclusão alguma em Cantão. Só em Pequim, ou no portão de Pequim. E ele ainda não queria conclusão alguma. Só comércio. A única coisa vital era conseguir o chá e a seda da temporada e vender o ópio. Com os lucros do ano de comércio, todas as casas de negócio se compensariam das perdas. O lucro os encorajaria a se sustentarem por mais um ano e se expandirem. O único lugar para esta expansão era Hong Kong. Lucros e comércio comprariam um tempo vital. Tempo para construir armazéns e docas e lares, na ilha que lhes servia como refúgio. Tempo até os ventos de verão tornarem outra vez possível o ataque ao norte. Tempo para suportar qualquer tempestade, até a próxima estação de comércio, no ano seguinte. Tempo e dinheiro para tornar Hong Kong segura — e transformá-la no degrau de acesso à Ásia.

Então Struan acalmou a impaciência de Longstaff, manteve as negociações em fogo brando e entrou em forte competição com Brock pelos melhores chás e sedas e os negócios mais convenientes de transporte de carga. Dezoito clíperes tinham de ser carregados e despachados. Era preciso lidar com dezoito tripulações e capitães.

Brock deu partida primeiro ao Gray Witch, e o navio rompeu as águas com os porões lotados. A última portinhola do Blue Cloud foi fechada um dia e meio mais tarde, e a embarcação saiu em perseguição à outra. Começava a corrida.

Gorth arengou e esbravejou, porque seu navio fora com um novo capitão, mas Brock mostrou-se inflexível. “Não será bom, com seu ferimento, e precisamos de você aqui.” Então Gorth, outra vez, faz planos para quando fosse o Tai-Pan. O Tai-Pan, por Deus. Ele voltou para bordo do Nemesis. Desde que o navio chegara ao porto passava todos os momentos livres dentro dele, aprendendo como pilotá-lo, como combatê-lo, o que faria a embarcação, e o que não faria. Pois sabia, como seu pai, que o Nemesis representava a morte da vela — e, com pagode, a morte da Casa Nobre. Ambos sabiam do horror de Struan aos vapores e, embora percebessem que a transição da vela para o vapor seria arriscada, decidiram apostar no futuro. O mesmo vento e a mesma maré que o Nemesis vencera, ao vir até o porto de Hong Kong, mais tarde levara o paquete de correspondência de volta para Inglaterra. Nele havia uma carta de Brock para seu filho Morgan. A carta cancelava a encomenda de dois clíperes, substituídos pelas duas primeiras quilhas da nova linha a vapor de Brock e Filhos. A Orient Queen Line.

***

— Tai-Pan — disse May-may, na escuridão de seu quarto de dormir, e no conforto de sua cama. — posso voltar a Macau? Por alguns dias? Levarei as crianças comigo.

— Você está cansada da Colônia?

— Não. Mas é difícil aqui, sem todas as roupas e brinquedos das crianças. Só por alguns poucos dias, está bem?

— Eu já lhe falei das recompensas e eu...

Ela calou suas palavras com um beijo e se aproximou mais do seu calor.

— Você tem um cheiro tão bom.

— E você também.

— Aquela Marry Sin-clair. Gostei dela.

— Ela... ela tem muita coragem.

— Foi estranho você mandar uma mulher. Não parece coisa sua.

— Não havia tempo para mandar outra pessoa.

— O cantonês e o mandarim que ela fala são fantasticamente bons.

— Isso é um segredo. Você não deve contar a ninguém.

— Claro, Tai-Pan.

A escuridão se tornou mais densa em torno de ambos e eles permaneceram perdidos em seus pensamentos.

— Você sempre dormiu sem roupa? — ela perguntou.

— Sim.

— Como não sente frio?

— Não sei. A Alta Escócia é mais fria do que aqui. Em menino, eu era muito pobre. Ela sorriu.

— Gosto de pensar em você menino. Mas você não é pobre, agora. E duas das três coisas estão realizadas. Não estão?

— Que coisas? — ele perguntou, consciente do perfume dela e do contato da seda que a envolvia.

— A primeira era pegar as barras de prata, lembra-se? A segunda, chegar a salvo em Hong Kong. Qual era a terceira?

Ela se virou de lado, movimentou uma das pernas por sobre as dele e ficou imóvel. Ele sentiu o contato da perna dela através da seda e esperou, com a garganta seca.