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O almirante escondeu seu divertimento sombrio. Horatio olhou de um rosto para o outro, com descrença. Brock estava consciente de que Longstaff tinha o poder de feri-lo e ele não queria nenhum duelo com o general. E, além disso, estava furioso por ter-se deixado arrastar para uma aberta hostilidade.

— Peço desculpas, senhor. Por chamá-lo de saco de peido.

— E eu peço desculpas porque recebi ordens.

— Acho que vamos encerrar a reunião, neste momento — disse Longstaff, bastante aliviado. — Sim. Obrigado por seus conselhos, cavalheiros. Vamos adiar a decisão. Daremos a todos nós tempo para pensar, hein?

O general colocou seu capacete de pele de urso, fez um cumprimento e se encaminhou para a porta, com as esporas e a espada tilintando.

— Ah, General, a propósito — disse Struan, em tom casual — ouvi dizer que a Marinha desafiou o Exército para uma luta.

O general parou no meio do caminho, com a mão na maçaneta da porta, e se eriçou ao se lembrar das observações que o almirante deliberadamente fizera a respeito de seus soldados.

— Sim. Mas temo que a luta não vá ser grande coisa.

— Por que, General? — perguntou o almirante, irado, lembrando-se das observações que o general deliberadamente fizera a respeito de seus esplêndidos marujos.

— Porque eu acho que nosso homem vai ganhar, senhor. Sem fazer muito esforço.

— Por que não realizam a luta no dia do baile? — sugeriu Struan. — Consideraríamos isto uma honra e ficaríamos satisfeitos em oferecer um prêmio. Digamos, cinqüenta guinéus.

— É muito generoso, Struan, mas não creio que o Exército esteja preparado na ocasião.

— No dia do baile, por Deus — disse o general, escarlate. — Cem guinéus para nosso homem!

— Feito — disseram o almirante e Brock, simultaneamente.

— Cem para ambos! — O general deu meia-volta e saiu, pavoneando-se.

Longstaff serviu-se de um pouco de xerez.

— Almirante?

— Não, obrigado, senhor. Acho que vou voltar para meu navio. — O almirante pegou sua espada, fez um cumprimento de cabeça para Struan e Brock, uma continência, e partiu.

— Xerez, senhores? Horatio, talvez você faça as honras?

— Certamente, Excelência — disse Horatio, satisfeito por ter alguma coisa para fazer.

— Obrigado — Brock esvaziou o copo e estendeu-o para ser novamente cheio. — O gosto está bom. Tem um paladar excelente, Excelência. Não é, Dirk, meu rapaz?

— Na verdade, preciso censurá-lo, Sr. Brock. Imperdoável, dizer coisas assim. Senhor...

— Sim, senhor — disse Brock, como quem se penitencia. — Tem razão. Eu estava errado. Temos sorte de tê-lo neste posto. Quando fará a proclamação sobre o porto livre?

— Bom, ah, não há pressa. É preciso cuidar daqueles malditos anarquistas.

— Por que não cuidar das duas coisas, ao mesmo tempo? — perguntou Struan. — Logo que voltar para Hong Kong. Por que não dar aos nossos súditos sino-britânicos o benefício da dúvida? Deporte-os, mas não os açoite e nem marque com ferro em brasa, para começo de conversa. É justo, hein, Tyler?

— Se você assim o diz e Sua Excelência concorda — Brock respondeu, expansivamente.

Os negócios tinham sido bons. E o Gray Witch estava já bem longe, e ia à frente. Prédios estavam sendo construídos no Vale Feliz. Havia uma hostilidade aberta entre Struan e Culum. E, agora, Hong Kong ia ser porto livre. Sim, Dirk, rapaz, ele disse a si próprio, estaticamente, você ainda serve para alguma coisa. É esperto como uma raposa. O porto livre compensa todas as suas maldades. E, em dois anos, nossos navios a vapor vão levar você à bancarrota.

— Sim — ele acrescentou — se ambos concordarem. Mas logo será preciso usar o açoite e o ferro em brasa.

— Ah, realmente espero que não — disse Longstaff. — É uma coisa muito desagradável. Mas, de qualquer maneira, a lei precisa ser cumprida e os delinqüentes punidos. Uma excelente solução, senhores, para os... como os chama, Sr. Brock? Ah, sim, Tríades. Nós os chamaremos Tríades, no futuro. Horatio, faça uma lista, em caracteres, corri os nomes da Tong que nos deu Sua Excelência, Ching-so, e nós a afixaremos junto com a proclamação. Vá tomando nota, enquanto eu penso: “Todas as tongs acima citadas estão fora da lei e serão conhecidas, no futuro, com o nome geral de ‘Tríades’. A punição por pertencer a uma Tríade é a imediata deportação e a entrega às autoridades chinesas. A punição por instigar rebelião aberta contra o governo de Sua Majestade Britânica, ou contra Sua Alteza, o Imperador dos Chineses, é enforcamento.”

CAPÍTULO DEZESSEIS

A vila de Aberdeen estava escura, úmida e silenciosa sob a lua cheia. As ruas se achavam desertas e as portas das cabanas bem trancadas. Centenas de sampanas encontravam-se ancoradas nas águas paradas e lamacentas. E, embora estivessem tão amontoadas como as cabanas, não havia nenhum som ou movimento a bordo.

Struan permanecia em pé, no lugar previamente combinado, na encruzilhada da estrada nas imediações da vila, ao lado do poço. O poço tinha as bordas de pedra e Struan pendurara nelas três lanternas. Estava sozinho, e seu relógio de bolso de ouro lhe dizia que quase chegara a hora. Ficou imaginando se Wu Kwok e seus homens viriam da vila ou das sampanas, ou ainda dos morros desolados. Ou do mar.

Observou o mar. Nada se movia, a não ser as ondas. Em alguma parte, na escuridão, navegando à trinca, estava o China Cloud, com os tripulantes de prontidão. Era longe demais para aqueles que se encontravam a bordo observá-lo com nitidez, mas suficientemente perto para verem a luz das lanternas. As ordens de Struan eram no sentido de que, se as lanternas se apagassem bruscamente, os homens baixassem escaleres e viessem para terra com mosquetes e espadas.

As vozes abafadas do punhado de homens que trouxera consigo elevaram-se da praia, num fraco sopro. Eles estavam à espera, ao lado dos dois escaleres, armados e prontos, também observando a luz das lanternas. Ele ficou ouvindo com atenção, mas não conseguiu distinguir o que estava dizendo. Eu estaria mais seguro completamente sozinho, disse a si próprio. Não quero olhos indiscretos em cima disso. Mas desembarcar sozinho, sem guardas, seria loucura. Pior, eu estaria pondo à prova o meu pagode. Sim.

Ele se enrijeceu, quando um cão rosnou, no silêncio da vila. recuou atentamente à escuta, à procura de sombras em movimento. Mas não viu nenhuma e sabia que o cão estava apenas se exercitando. Recostou-se no poço e começou a relaxar, contente de estar de volta à ilha. Contente porque May-may e as crianças estavam seguras, na casa construída para eles no Vale Feliz.

Robb e Culum cuidaram habilmente de tudo, enquanto ele estava fora. A pequena casa, com altos muros em torno e fortes portões, ficara pronta. Duzentos e cinqüenta homens haviam trabalhado nela dia e noite.

Ainda faltavam muitos detalhes para serem cuidados, e o jardim inteiro para ser plantado, mas a casa em si estava habitável e quase toda mobiliada. Era construída de tijolos, tinha lareira e um telhado de madeira. Os quartos eram travejados. Muitas das paredes eram cobertas com papel, mas umas poucas haviam sido pintadas, e todas tinham janelas envidraçadas.

A casa ficava diante do mar e tinha uma suíte principal, sala de jantar e uma grande sala de visitas. E, a oeste, um abrigo em treliça, em torno de um jardim, separado do resto da casa. Ali ficavam os alojamentos de May-may e os aposentos das crianças, e, por trás, os quartos dos empregados.

Struan levara May-may, as crianças, e Ah Sam, a ama, para a casa com ele, na antevéspera, e os instalara lá. Um rapaz de confiança, cozinheiro, chamado Lim Din, e uma lavadeira, e makee-learnee, como eram chamados as ajudantes de cozinha, tinham vindo com ele de Cantão.