Выбрать главу

E, embora nenhum europeu tivesse visto May-may, a maioria deles tinha certeza de que o Tai-Pan trouxera sua amante para a primeira morada permanente em Hong Kong. Davam risadinhas entre si, ou o denunciavam, com sua inveja. Mas nada diziam às suas mulheres. No devido tempo, iam querer trazer suas próprias amantes e, quanto menos falassem, melhor. As mulheres que suspeitavam mantiveram-se caladas. Nada havia que pudessem fazer.

Struan ficara muito satisfeito com sua casa e com o progresso nos armazéns e na feitoria. E também com os resultados de sua frieza pública diante de Culum. Culum dissera-lhe às escondidas que já fora sondado inicialmente por Brock, e Wilf Tillman convidara-o para ir à bordo do caro navio de ópio da firma e o recebera principescamente.

Culum contara que o comércio fora discutido — e como o futuro da Ásia dependia vitalmente da cooperação, particularmente entre as raças anglo-saxônicas. E dissera que Shevaun estava na sala de jantar, muito bela e vivaz.

Um peixe saltou da água, permaneceu por um momento no ar, tornou a cair, e Struan ficou olhando por um momento, à escuta. Depois, relaxou outra vez e deixou a mente vaguear.

Shevaun seria um bom casamento para Culum, pensou Struan, sem emoção. Ou para ele próprio. Sim. Daria uma bela anfitriã e um acréscimo interessante aos banquetes que você oferecerá em Londres. Para lordes, ladies e membros do Parlamento. E ministros do Gabinete. Vai comprar para si próprio um título de baronete? Você poderia pagar dez vezes mais. Se o Blue Cloud chegar na Inglaterra primeiro. Ou em segundo e até em terceiro, bastando chegar a salvo. Se o comércio da temporada for concluído com segurança, então você pode comprar para si mesmo um título de conde.Shevaun é suficientemente jovem. Ela traria um dote útil e ligações políticas interessantes. E Jeff Cooper? Ele está loucamente apaixonado por ela. Se ela lhe disser não, é problema dele.

E May-rnay? Será que uma esposa chinesa barraria a você o acesso à nata? Certamente. Ela pesaria muito contra você. Está fora de cogitação.

Sem o tipo certo de esposa inglesa, a vida social será impossível. Os acertos diplomáticos são feitos sobretudo em salas de visita particulares, em meio ao luxo. Talvez a filha de um lorde, conde ou ministro de Gabinete? Espere até chegar à Inglaterra, hein? Há tempo suficiente.

Há mesmo?

Um cão latiu agudamente entre as sampanas e depois ganiu, enquanto outros se atiravam sobre ele. Os ruídos da briga mortal elevavam-se e decresciam até, finalmente, cessarem. Silêncio, outra vez, a não ser pelos furtivos rosnados, roçares de corpos e dilaceramentos na escuridão, enquanto os vencedores começavam a se alimentar.

Struan estava olhando as sampanas, de costas para as lanternas. Viu uma sombra se mover, outra, e logo um grupo de chineses foi saindo da vila flutuante e se reunindo na praia. Identificou Scragger. Struan segurou frouxamente sua pistola e esperou com calma, procurando Wu Kwok em meio à escuridão. Os homens vieram pela estrada, sem fazer ruído, com Scragger, cautelosamente, no meio. Pararam perto do poço e olharam fixamente para Struan. Todos eram jovens, no começo da casa dos vinte, e estavam vestidos com túnicas e calças negras, tinham nos pés sandálias com tiras de couro, e grandes chapéus de cule disfarçavam-lhes os rostos.

— Grande noite, Tai-Pan — disse Scragger, com voz baixa, em guarda, e preparado para uma retirada imediata.

— Onde está Wu Kwok?

— Mandou pedir desculpas, mas está muito ocupado. Aqui estão os cem. Faça a escolha e vamos embora, está bem?

— Diga-lhes para se dividirem em grupos de dez e tirarem a roupa.

— Tirar a roupa?

— Sim, tirar a roupa, pelo amor de Deus!

Scragger piscou para Struan. Depois, deu de ombros e voltou para perto dos homens, falando-lhes numa cantilena baixa. Os chineses conversaram baixinho e, depois, separaram-se às dezenas e tiraram as roupas.

Struan fez sinal para a primeira dezena e eles caminharam para a luz. De alguns grupos, escolheu um, de outros, dois ou três, de uns poucos, nenhum. Escolhia com o maior cuidado. Sabia que estava reunindo uma força-tarefa, a ponta de lança do seu avanço para o coração da China. Se conseguisse dobrá-los à sua vontade. Os homens que não conseguiam olhá-lo nos olhos eram imediatamente excluídos. Passava ao largo daqueles cujos rabichos eram maltratados e desgrenhados. Não eram considerados os que não tinham bom físico. Mas, aqueles cujos rostos eram pontilhados com marcas de varíola, ganhavam um ponto a seu favor — pois Struan sabia que a varíola assolava os navios em todos os mares e um homem já acometido pela doença e recuperado era imune e forte e sabia o valor da vida. Os que tinham ferimentos a faca bem cicatrizados eram favorecidos. Aqueles capazes de ficar nus sem se importar, ele aprovava. Mas, os que mostravam sua nudez com hostilidade, examinava cuidadosamente, sabendo que a violência e o mar são companheiros. Alguns, escolheu por causa do ódio em seus olhos e, alguns, apenas por causa de uma intuição que teve, ao lhes ver os rostos.

Scragger observava a seleção com impaciência crescente. Puxava sua faca e, repetidamente, atirava-a no pó. Afinal, Struan terminou.

— Esses são os homens que quero. Todos podem vestir-se, agora.

Scragger deu uma ordem e os homens se vestiram. Struan pegou um maço de papéis e entregou um deles a Scragger.

— Pode ler alto para eles.

— O que é isso?

— Um contrato regulamentar. Taxas de pagamento e termos para um serviço de cinco anos. Todos deverão assinar um.

— Não sei ler. E para que esse documento, hein? Wu Fang Choi disse a eles que ficariam com você por cinco anos. Struan entregou-lhe outra folha coberta com caracteres chineses.

— Dê isso a alguém que saiba ler. Cada qual assinará uma, ou então não os aceitarei e o acordo está cancelado.

— Quer fazer tudo bem direitinho, hein?

Scragger pegou o papel e chamou um chinês de baixa estatura, com marcas de varíola, que fora escolhido. O homem se adiantou e, pegando o papel, estudou-o à luz da lanterna. Scragger fez um sinal com o polegar para aqueles que haviam sido rejeitados, e eles •desapareceram nas sampanas.

O homem começou a ler.

— Como é o nome dele?

— Fong.

— Fong o quê?— Fong o que você quiser. Quem sabe qual é o verdadeiro nome desses macacos?

Os chineses ouviram Fong atentamente. A certa altura, explodiram numa onda de riso abafada e nervosa.

— Qual é a graça? — Scragger perguntou, em cantonês. Fong demorou muito tempo para explicar. Scragger virou-se para Struan.

— Que negócio é esse, hein? Eles precisam prometer que não vão fornicar e nem casar durante os cinco anos? Isto não é direito. O que acha que eles são?

— É uma cláusula justa e normal, Scragger. Todos os contratos têm a mesma cláusula.

— Não em papéis de marinheiros, por Deus.

— Eles vão ser capitães e oficiais, então precisam ter contratos. Para tornar legal sua situação.

— É muito impróprio, se quer saber minha opinião. Isto significa que não podem levar uma puta para a cama durante cinco anos?

— É apenas uma formalidade. Mas não podem casar. Scragger virou-se e fez um curto discurso. Outra vez, houve risos.

— Eu disse que eles precisam obedecer-lhe como a Deus Todo-Poderoso. Menos no que diz respeito à fornicação. — Enxugou o suor do rosto. — Wu Fang Choi disse a eles que seriam seus, por cinco anos. Então, não precisa se preocupar.

— Por que você está tão nervoso, hein?

— Por nada, por nada, eu lhe garanto.

Fong continuou a ler. Houve um silêncio e alguém pediu que uma cláusula fosse repetida. O interesse de Scragger aumentou. Era a respeito do pagamento. Os capitães em potencial receberiam cinqüenta libras no primeiro ano, setenta no segundo e no terceiro, cem quando alcançassem escalão de primeiro-imediato, e cento e cinqüenta ao terminarem sua formação. E teriam um sexto dos lucros dos navios que capitaneassem. Um bônus de vinte libras, se aprendessem inglês dentro de três meses.