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— Cento e cinqüenta mangos é mais do que ganhariam em dez anos — disse Scragger.

— Quer um emprego?

— Estou satisfeito com meu atual emprego, muito obrigado. — Ele contorceu o rosto, quando teve um pensamento repentino.

— Wu Fang Choi não pagaria essa grana toda — disse.

— Ninguém vai lhe pedir. Esses homens vão fazer por merecer cada centavo, pode ter certeza. Ou então serão despedidos.

— O dinheiro não é meu, então pode pagar a eles quanto quiser e desperdiçar sua nota.

Quando Fong terminou de ler o documento, Struan fez cada homem escrever seu nome em caracteres, numa cópia. Todos os homens sabiam escrever. Ele fez cada um lambuzar a palma esquerda com tinta de carimbo e imprimir a palma no verso do papel.

— Para que é isso?

— Cada palma de mão é diferente da outra. Agora, eu conheço cada homem... seja qual for o seu nome. Onde estão os meninos?

— Quer que os homens vão para os botes?

— Sim. — Struan deu a Fong uma lanterna e fez sinal para que fosse até à praia. Os outros homens seguiram-no, em silêncio.

— A escolha e o negócio dos papéis foram muito inteligentes, Tai-Pan. Você é esperto mesmo. — Scragger chupava a ponta de sua faca, pensativamente. — Ouvi dizer que você deu uma boa lição em Brock. E também soube das barras de prata.

Struan deu uma olhada em Scragger, repentinamente suspeitoso.

— Havia europeus naquele ataque, segundo disse Brock. Você era um deles?

— Se eu tivesse recebido ordens de Wu Fang, Tai-Pan, não teria havido falha. Wu Fang Choi não gosta de falhas. Deve ter sido coisa de gente do local mesmo, os malditos. Terrível. — Scragger deu uma olhada na escuridão em torno. Quando se certificou de que estavam completamente sozinhos falou em tom de conspiração. — Wu Kwok é fuquienês. Ele vem de Quemoy, lá pelo alto da costa, sabe? Conhece a ilha?

— Sim.

— Na noite do solstício de verão, haverá um festival, Wu Kwok, com certeza, comparecerá. Tem alguma coisa a ver com seus ancestrais. — Os olhos de Scragger brilharam, malevolamente. — Se uma fragata ou duas estivessem passando por lá, ora, ele seria pegado como um maldito rato de esgoto numa barrica.

Struan sorriu, com desdém.

— Ah, seria sim!

— É verdade, eu lhe digo, por Deus. Você tem meu juramento, por Deus. Aquele patife me enganou e me fez jurar a você, quando era mentira, e não vou perdoar isso. O juramento de Scragger é tão bom quanto o seu!

— Sim. Claro. Acha que eu confiaria num homem que vende seu patrão como se fosse um rato?

— Ele não é meu patrão. Wu Fang Choi é meu chefe, e ninguém mais. Jurei lealdade a ele, a nenhum outro. Você tem meu juramento. Struan observou Scragger.

— Vou pensar a respeito da noite do festival.

— Você tem meu juramento. Quero que ele morra, por Deus. O juramento de um homem é tudo que tem, entre ele mesmo e a danação. Aquele porco desmentiu o meu, que Deus o amaldiçoe, e então quero que ele morra para pagar.

— Onde estão os meninos?

— Eles vão ser grã-finos, como você disse?

— Depressa, quero ir embora.

Scragger virou-se e assobiou para dentro da escuridão. Três pequenas sombras saíram das sampanas. Os meninos desceram cautelosamente a vacilante prancha de desembarque e pisaram em terra, subindo a estrada às pressas, em seguida. Os olhos de Struan se arregalaram, quando os meninos apareceram à luz. Um deles era chinês. Um eurasiano. E o último era um imundo pirralho inglês. O menino chinês estava ricamente vestido, tinha o rabicho grosso e bem entrançado. Carregava uma mala. Os outros dois estavam pateticamente vestidos, com sujas roupas de menino imitando as inglesas — casacos feitos em casa, velhas cartolas e calças e sapatos costurados em casa, toscamente. Sobre os ombros, cada um carregava um bastão com uma trouxa pendurada na ponta.

Todos os meninos tentavam desesperadamente — e sem conseguir — esconder sua ansiedade.

— Este é Wu Pak Chuk — disse Scragger. O menino chinês se curvou, nervosamente. — Ele é neto de Wu Fang Choi. Um dos netos, mas não filho de Wu Kwok. E esses são meus próprios filhos. — Ele apontou orgulhosamente para o pirralhinho, que piscou sem querer. — Este é Fred. Ele tem seis anos. E este é Bert, que tem sete.

Fez um leve sinal e ambos os meninos tiraram o chapéu, fizeram curvaturas e murmuraram alguma coisa, no meio de todo o pânico, olhando em seguida para o pai, a fim de ver se tinham feito tudo direito. Bert, o menino eurasiano, antes tinha o rabicho metido embaixo do chapéu, mas agora, com todo o nervosismo, o rabicho estava pendente às suas costas. O cabelo do pirralho estava sujo e, como o do seu pai, achava-se amarrado com um pedaço de cânhamo alcatroado, à nuca.

— Venham cá, rapazes — disse Struan, com pena.

O pirralho pegou a mão de seu meio-irmão e os dois adiantaram-se devagar. Pararam, quase sem conseguir respirar. O menino inglês limpou um fio de catarro do nariz, com as costas da mão.

— Você é Fred?

— Sim, Excelência — sussurrou, em voz quase inaudível.

— Fale alto, rapaz — disse Scragger, e o menino exclamou:

— Sim, Excelência, eu sou Fred.

— Eu sou Bert, Excelência. — O eurasiano recuou, quando Struan olhou para ele. Era um menino alto, bonito, com belos dentes e pele dourada. Tinha a estatura mais elevada dos três.

Struan olhou para Wu Pak. O menino baixou os olhos e riscou a terra com os pés.

— Ele não fala inglês?

— Não. Mas o Bert fala a língua dele. E Fred algumas palavras. A mãe de Bert é juquienesa. — O desajeitamento de Scragger piorou.

— Onde está sua mãe, Fred?

— Está morta, Excelência — disse o pirralho, num engasgo. — Ela está morta, senhorrr.

— Morreu há dois anos. O escorbuto a levou — disse Scragger.

— Há mulheres inglesas na frota de vocês?

— Algumas embarcações têm. Vão para lá, rapazes — disse, e seus filhos fugiram para onde ele estava apontando e ficaram duros feito pedras, num ponto onde não podiam ouvir o que se falava. Wu Pak hesitou e, depois, correu para perto deles, ficando bem juntinho.

Scragger baixou a voz.

— A mãe de Fred era prisioneira. Pegou dez anos de deportação por roubar carvão no mais frio do inverno. Fomos casados por um padre, na Austrália, mas ele era um renegado, e então talvez não valesse. Éramos casados, de qualquer maneira. Eu jurei a ela, antes que morresse, cuidar bem do menino.

Struan pegou outros papéis.

— Estes me dão a guarda dos meninos. Até terem vinte e um anos. Você pode assinar por seus filhos, mas como será com Wu Pak? Deveria ser assinado por um parente.

— Vou colocar minha marca em todos. Pode me dar uma cópia para eu mostrar a Wu Fang? O que eu assinei?

— Sim. Você pode levar um.

Struan começou a colocar os nomes, mas Scragger o deteve.

— Tai-Pan, não ponha Scragger nos meninos. Ponha outro nome. Qualquer um que você quiser. Não, não me diga qual — acrescentou, depressa. — Qualquer nome. Pense num bom nome.-O suor porejava em sua testa. Seus dedos tremiam, quando ele pegou o lápis e fez sua marca. — Fred deve me esquecer. E à sua mãe. Faça o melhor que puder por Bert, hein? A mãe dele é ainda minha mulher e ela não é ruim, para uma pagã. Faça o melhor que puder por eles, e terá um amigo pelo resto da vida. Faço o meu juramento. Ambos precisam ser ensinados a rezar direito suas orações. — Assoou o nariz nos dedos e os enxugou nas calças. — Wu Pak precisa escrever uma vez por mês a Jin-qua. Ah, sim, e você manda as contas para Jin-qua, pela escola e o resto. Uma vez por ano. Todos devem ir para a mesma escola e comer juntos.

Ele fez sinal para o menino chinês. Wu Pak adiantou-se, hesitante. Scragger fez um sinal com o polegar em direção aos botes e o menino foi embora, obedientemente. Depois, fez sinal para seus filhos.