— Você mata mulheres.
— Nós, que matamos por prazer, pois não sou o único a me dedicar a esse passatempo, levamos uma vida de intensidade máxima.
— Mas por que Harriet, sua própria irmã?
O rosto de Martin alterou-se de repente. Num salto, aproximou-se de Mikael e o pegou pelos cabelos.
— O que aconteceu a ela?
— Que está querendo dizer? — arquejou Mikael.
Tentou virar a cabeça para diminuir a dor no couro cabeludo. A corrente logo se esticou em volta de seu pescoço.
— Você e Salander. O que vocês descobriram?
— Solte-me, não consigo falar.
Martin Vanger soltou os cabelos de Mikael e sentou-se diante dele com as pernas cruzadas. Então pegou uma faca e pôs a ponta dela na pele bem debaixo do olho de Mikael, que fez um esforço para olhar Martin.
— O que aconteceu a ela, seu filho-da-puta?
— Não entendo. Achei que você a tivesse matado.
Martin Vanger fixou Mikael por um longo momento, depois relaxou. Levantou-se e pôs-se a caminhar pelo porão enquanto refletia. Então jogou a faca no chão, riu e voltou-se para Mikael.
— Harriet, Harriet, sempre essa maldita Harriet. Tentamos... convencê-la. Gottfried tentou ensiná-la. Achamos que era uma das nossas e que aceitaria seu dever, mas ela não passava de uma... putinha ordinária. Achei que a tinha sob controle, mas ela estava planejando avisar Henrik e percebi que não podia confiar nela. Cedo ou tarde ela falaria de mim.
— E então a matou.
— Eu quis matá-la. Tinha a intenção de fazer isso, mas cheguei tarde demais. Não consegui vir para a ilha.
O cérebro de Mikael tentava assimilar a informação, mas era como se uma janela se abrisse e anunciasse: memória insuficiente. Martin Vanger não sabia o que acontecera à irmã!
De repente, Martin tirou o celular do casaco, examinou a tela e o colocou sobre a cadeira ao lado da pistola.
— Chegou a hora de liquidar esse assunto. Preciso de um tempo para me encarregar também da sua companheira anoréxica ainda esta noite.
Abriu um armário, tirou uma correia de couro e passou-a com um nó corrediço em volta do pescoço de Mikael, desatando a corrente que o prendia ao chão. Fez Mikael levantar-se e o empurrou contra a parede. Passou a correia por uma argola acima da cabeça de Mikael e a esticou, obrigando-o a ficar na ponta dos pés.
— Está muito apertado? Não consegue respirar? — Afrouxou um centímetro ou dois e prendeu a ponta da correia mais abaixo na parede. — Não quero que morra asfixiado daqui a pouco.
O laço apertava o pescoço de Mikael com tanta força que ele não conseguia falar. Martin Vanger o observou atentamente.
Com um gesto brusco, desatou o cinto da calça de Mikael e a abaixou juntamente com a cueca. Mikael perdeu o equilíbrio e pendeu por um segundo no nó corrediço, antes que os dedos do pé voltassem a tocar o chão. Martin Vanger foi buscar uma tesoura num móvel. Cortou a camiseta de Mikael e jogou os retalhos no chão. Depois postou-se a alguma distância e contemplou sua vítima.
— Nunca tive um homem aqui — disse Martin com uma voz grave. — Nunca toquei outro homem... a não ser meu pai. Era meu dever.
As têmporas de Mikael latejavam. Ele não podia apoiar o peso do corpo nos pés sem se estrangular. Tentou achar um ponto onde se segurar na parede de concreto às suas costas, mas não encontrou nada.
— Chegou a hora — disse Martin Vanger.
Pôs a mão sobre a correia e a pressionou. Mikael sentiu o laço apertar ainda mais seu pescoço.
— Sempre quis saber qual é o gosto de um homem.
Pressionou ainda mais a correia, inclinou-se para a frente e beijou Mikael na boca, bem no momento em que uma voz cortante soou no porão.
— Seu canalha... Você deveria saber que só eu tenho o direito de fazer isso.
Mikael ouviu a voz de Lisbeth através de uma neblina vermelha. Conseguiu focalizar os olhos e a viu de pé à porta. Ela fitava Martin Vanger com um olhar inexpressivo.
— Não... corra! — grasnou Mikael.
Ele não viu a expressão de Martin Vanger, mas sentiu fisicamente o choque que percorreu o corpo dele quando se virou. Por um segundo, Martin ficou imóvel, depois estendeu a mão para alcançar a pistola que deixara em cima da cadeira.
Num relâmpago, Lisbeth deu três passadas e ergueu um taco de golfe que trazia escondido. O taco descreveu um amplo círculo no ar e atingiu Martin na clavícula. O golpe foi fortíssimo, Mikael ouviu quebrar-se alguma coisa. Martin Vanger urrou.
— Gosta de dor? — perguntou Lisbeth Salander.
Sua voz era áspera como uma lixa. Enquanto vivesse, Mikael jamais esqueceria o rosto dela no momento do ataque. Lisbeth mostrou os dentes como uma fera. Os olhos eram negros e brilhantes. Movia-se com a rapidez de uma aranha e parecia inteiramente concentrada em sua presa quando desferiu um novo golpe em Martin Vanger, nas costelas.
Ele tropeçou na cadeira e estatelou-se no chão. A pistola caiu diante de Lisbeth, que, com o pé, atirou-a para longe.
Ela o golpeou então uma terceira vez, no momento em que Martin tentava se levantar. Um estalo indicou que o atingira no quadril. Martin emitiu um som terrível. O quarto golpe se abateu sobre suas costas.
— Lis... errth... — arquejou Mikael.
Ele estava perdendo a consciência, e a dor nas têmporas era quase insuportável.
Lisbeth virou-se para ele e viu seu rosto vermelho, cor de tomate, os olhos esbugalhados de pavor e a língua começando a sair pela boca.
Lançou um olhar rápido em volta e viu a faca no chão. Olhou brevemente para Martin Vanger, que havia se ajoelhado e tentava escapar, com um braço pendendo frouxamente. Ele não seria um problema muito sério nos próximos segundos. Soltou o taco e pegou a faca. Embora tivesse a ponta afiada, ela estava quase sem fio. Lisbeth ficou na ponta dos pés e tentou febrilmente cortar a correia. Demorou alguns segundos até Mikael conseguir se apoiar no chão. Mas o nó corrediço continuava prendendo seu pescoço.
* * *
Lisbeth Salander voltou a olhar para Martin Vanger. Ele conseguira ficar de pé, porém estava curvado sobre si mesmo. Ela o ignorou e tentou enfiar os dedos entre a correia e o pescoço de Mikael. No início não ousou utilizar a faca, mas por fim decidiu introduzir a ponta dela ali, esfolando a pele ao tentar desfazer o nó. Este acabou cedendo e Mikael, num estertor, aspirou um pouco de ar.
Por um breve instante, Mikael teve a maravilhosa sensação de união entre corpo e espírito. Sua visão voltou a ficar perfeita, ele conseguia enxergar o menor grão de poeira no cômodo. Era como se cada respiração, cada roçar de roupa saíssem de alto-falantes direto para seus ouvidos; ele também sentia o cheiro da transpiração de Lisbeth e do couro de sua jaqueta. Depois, como um raio luminoso, o sangue afluiu novamente à cabeça e seu rosto recuperou a cor normal.
Lisbeth Salander virou a cabeça no momento em que Martin fugia pela porta. Ergueu-se num salto e pegou a pistola no chão, verificando se estava carregada. Destravou-a. Mikael notou que ela parecia familiarizada com as armas. Olhando em volta, os olhos dela se detiveram por meio segundo nas chaves das algemas em cima da mesa.
— Eu cuido dele — disse enquanto corria em direção à porta. No caminho apanhou as chaves e as fez deslizar pelo chão, até onde Mikael estava.
Ele tentou lhe pedir que esperasse, mas só conseguiu emitir um som rouco quando ela já havia desaparecido pela porta.
Lisbeth não esquecera que Martin Vanger possuía um rifle em algum lugar. Segurando a pistola engatilhada, ela se deteve ao chegar à passagem entre a garagem e a cozinha. Ficou prestando atenção, mas nenhum ruído revelou onde se achava a sua presa. Instintivamente dirigiu-se à cozinha. Quando já estava quase lá, ouviu um carro dar a partida.
Deu meia-volta e correu para o pátio, onde viu as luzes traseiras de um carro passando diante da casa de Henrik Vanger em direção à ponte. Correu o mais rápido que pôde até a casa dos convidados, pôs a pistola no bolso da jaqueta e não perdeu tempo com o capacete quando ligou a moto. Alguns segundos depois, atravessava a ponte.