Ele estava talvez uns noventa segundos à sua frente quando ela chegou ao viaduto de acesso à rodovia E4. Não o viu. Freou e desligou o motor para escutar.
O céu estava carregado de nuvens. No horizonte despontava um começo de aurora. Então avistou os faróis do carro de Martin Vanger na E4, na direção sul. Lisbeth acionou a moto e passou sob o viaduto. Estava a oitenta quilômetros por hora quando saiu da curva de acesso e entrou na pista, sem tráfego naquele momento. Acelerou tudo. Depois de uma curva, num longo declive da estrada, atingiu cento e setenta quilômetros por hora, o máximo que sua máquina de baixa cilindrada podia alcançar. Dois minutos depois, avistou o carro de Martin Vanger a cerca de quatrocentos metros.
Análise dos parâmetros. Que devo fazer agora?
Reduziu para cento e vinte quilômetros por hora, mantendo a mesma velocidade que a dele. Em algumas curvas perdeu-o de vista por alguns segundos. Depois pegaram um longo trecho reto. Ela estava a uns duzentos metros atrás de Martin Vanger.
Certamente ele viu o farol da moto, pois acelerou a marcha. Ela voltou a exigir o máximo da moto, mas nas curvas perdia terreno.
De longe ela viu os faróis de um caminhão. Martin Vanger também viu. Inesperadamente, ele acelerou ainda mais e passou para a pista da esquerda cento e cinquenta metros antes do choque. Lisbeth viu o caminhão frear e dar repetidos sinais de farol, mas a colisão foi inevitável. O carro de Martin Vanger chocou-se contra o caminhão com um estrondo terrível.
Lisbeth freou instintivamente ao ver o caminhão virar na pista. Na velocidade em que estava, levou dois segundos para chegar ao local do acidente e por pouco não foi atingida pela traseira do caminhão. Quando passou, viu com o canto do olho labaredas surgindo na parte dianteira.
Continuou por mais uns cento e cinquenta metros antes de parar e se virar. Viu o motorista do caminhão saltar da cabine. Então seguiu até Akerby, dois quilômetros ao sul, onde entrou à esquerda para pegar a estrada velha rumo ao norte, paralela à E4. Passou pelo local do acidente e viu que dois carros haviam parado. O de Martin estava totalmente esmagado debaixo do caminhão, envolto em labaredas enormes. Um homem tentava apagar o fogo com um pequeno extintor.
Ela acelerou e logo estava de volta a Hedeby. Cruzou a ponte, estacionou em frente à casa dos convidados e retornou a pé para a casa de Martin Vanger.
* * *
Mikael continuava tentando se livrar das algemas. Suas mãos estavam tão dormentes que ele não conseguia pegar a chave. Lisbeth abriu as algemas e o manteve apertado contra o peito até o sangue voltar a circular por suas mãos.
— E Martin? — perguntou Mikael com uma voz rouca.
— Morto. Chocou-se de frente, a cento e cinquenta por hora, contra um caminhão a poucos quilômetros daqui, na E4.
Mikael fitou-a espantado. Não fazia muito tempo que ela havia saído.
— Precisamos... chamar a polícia — arquejou Mikael antes de ser tomado por um violento acesso de tosse.
— Para quê? — perguntou Lisbeth Salander.
Mikael não conseguia se levantar. Permaneceu sentado no chão ainda por dez minutos, nu e encostado à parede. Massageou-se no pescoço e ergueu a garrafa de água com dedos insensíveis. Lisbeth esperou pacientemente ele se recuperar. Aproveitou para refletir.
— Vista-se.
Ela utilizou a camiseta cortada de Mikael para limpar as impressões digitais nas algemas, na faca e no taco de golfe. Pegou a garrafa de água.
— O que está fazendo?
— Vista-se. Está amanhecendo. Vamos, depressa.
Mikael ergueu-se sobre as pernas cambaleantes e conseguiu vestir a cueca e a calça. Enfiou os pés nos tênis. Lisbeth pôs as meias dele no bolso da jaqueta e perguntou:
— Tocou em alguma coisa aqui no porão?
Mikael olhou ao redor, tentando se lembrar. Por fim, disse que não havia tocado em nada a não ser na porta e nas chaves. Lisbeth encontrou as chaves no casaco que Martin Vanger deixara no encosto da cadeira. Limpou meticulosamente a maçaneta da porta e o interruptor, depois apagou a luz. Conduziu Mikael até o alto da escada e pediu-lhe que esperasse na passagem, enquanto ela recolocava o taco de golfe no lugar. Ao voltar, trazia uma camiseta escura que pertencera a Martin Vanger.
— Vista. Não quero que alguém te veja passeando sem camisa de madrugada.
Mikael percebeu que estava em estado de choque. Lisbeth assumira o comando e ele obedecia a suas ordens sem discutir. Deixaram a casa de Martin Vanger. Enquanto caminhavam, ela o amparava com seu corpo. Quando cruzaram a porta de Mikael, ela voltou-se para ele e disse:
— Se alguém nos viu e perguntar o que estávamos fazendo lá fora esta noite, diga que fomos dar um passeio até o promontório e depois transamos por lá.
— Lisbeth, não posso...
— Agora vá tomar um banho!
Ajudou-o a tirar as roupas e apontou-lhe o banheiro. Depois foi preparar um café e meia dúzia de torradas com queijo, patê de fígado e pepino em conserva. Estava sentada à mesa da cozinha, mergulhada numa intensa reflexão, quando Mikael retornou, mancando. Ela examinou os ferimentos e as escoriações visíveis em seu corpo. A correia deixara uma mancha vermelha-escura em volta da garganta e a faca produzira um corte no lado esquerdo do pescoço.
— Venha — ela disse. — Deite-se na cama.
Foi buscar curativos e cobriu a ferida com uma compressa. Depois serviu-lhe café e estendeu-lhe uma torrada.
— Não estou com fome — disse Mikael.
— Coma! — ordenou Lisbeth Salander, enquanto ela mesma dava uma grande bocada na torrada de queijo.
Mikael fechou os olhos por alguns segundos. Depois sentou-se e mordeu a torrada. Sua garganta doía tanto que mal conseguia engolir.
— Deixe o café esfriar um pouco. Deite-se de bruços.
Ela ficou cinco minutos massageando-lhe as costas com uma pomada. Depois virou-o de frente para ela e administrou o mesmo tratamento na parte frontal do corpo.
— Vai ficar com alguns sérios hematomas durante um bom tempo.
— Lisbeth, precisamos chamar a polícia.
— Não — ela disse, e com tal determinação na voz que Mikael arregalou os olhos. — Se você chamar a polícia, eu vou embora. Não quero nada com eles. Martin Vanger está morto. Morreu num acidente de carro. Há testemunhas. Deixe a polícia ou quem quer que seja descobrir aquela maldita câmara de tortura. Você e eu não sabemos de nada, assim como os outros habitantes do povoado.
— Por quê?
Ela ignorou a pergunta e continuou a massagear-lhe as coxas doloridas.
— Lisbeth, mas é simplesmente impossível...
— Se você continuar me aborrecendo, eu te levo de volta à masmorra de Martin e te acorrento de novo.
Nem havia terminado a frase quando Mikael adormeceu, tão subitamente como se tivesse desmaiado.
25. SÁBADO 12 DE JULHO — SEGUNDA-FEIRA 14 DE JULHO
Mikael despertou sobressaltado às cinco da manhã e levou desesperadamente as mãos ao pescoço para tirar a correia. Lisbeth foi vê-lo, segurou-lhe as mãos e o acalmou. Ele abriu os olhos e a fitou com um vago olhar. Não sabia que você jogava golfe — murmurou, voltando a fechar os olhos.
Ela permaneceu ao lado dele por alguns minutos, ate ter certeza de que ele adormecera de novo. Enquanto Mikael estivera dormindo, ela havia retornado ao porão de Martin Vanger para inspecionar o local do crime. Além dos instrumentos de tortura, havia encontrado uma coleção enorme de revistas de pornografia violenta e uma série de fotos polaróide coladas em álbuns.
Não havia um diário íntimo. No entanto ela achou duas pastas com fotos três por quatro e anotações sobre mulheres escritas à mão. Trouxe consigo essas pastas num cesto de náilon, junto com o laptop de Martin Vanger, que havia encontrado numa mesinha, no andar de cima. Depois que Mikael voltou a dormir, Lisbeth continuou a explorar o computador e as pastas de Martin. Eram mais de seis da manhã quando desligou o computador. Acendeu um cigarro e mordeu pensativamente o lábio inferior.