Выбрать главу

— Preciso ir ver...

— Na minha opinião, você deveria se manter longe daquele porão hoje — disse Lisbeth com autoridade.

— Há muitas providências a tomar. Você precisa avisar Henrik, precisa convocar a diretoria para uma reunião extraordinária e fazer o que fariam se o diretor administrativo tivesse falecido em circunstâncias normais.

Dirch Frode ponderou sobre as palavras dela. Seu coração deixou-se levar. Ele, o velho advogado que resolvia problemas e de quem se esperava um plano pronto diante de qualquer obstáculo, sentia-se totalmente paralisado. De repente se deu conta de que estava aceitando orientações de uma jovem. De um modo ou de outro, ela assumira o comando da situação e traçava as linhas de ação que ele não conseguia formular.

— E Harriet...?

— Mikael e eu ainda não terminamos. Mas pode dizer a Henrik Vanger que acho que vamos resolver isso também.

O desaparecimento inesperado de Martin Vanger era o destaque do noticiário das nove da manhã, quando Mikael despertou. Nada foi mencionado sobre os acontecimentos da noite, a não ser que o industrial deixara a pista da direita de forma inexplicável, em alta velocidade.

Ele estava sozinho no carro. A emissora de rádio local demorava-se mais sobre as inquietações quanto ao futuro do grupo Vanger e quanto às consequências financeiras que essa morte traria ao grupo.

Ao meio-dia, um despacho da TT, redigido às pressas, anunciava na tevê "Uma região em estado de choque" e resumia as repercussões imediatas para o grupo Vanger. Não escapava a ninguém que, só em Hedestad, três mil vinte e quatro mil habitantes eram empregados do grupo Vanger ou dependiam indiretamente da saúde financeira do grupo. O atual diretor morrera e o ex-diretor era um velho tentando se recuperar de um infarto recente. Faltava um herdeiro natural. Tudo isso num período considerado como o mais crítico da história da empresa.

Mikael Blomkvist tinha a possibilidade de ir à delegacia de polícia para explicar o que acontecera durante a noite, mas Lisbeth Salander já havia traçado o caminho. Uma vez que ele não chamara a polícia imediatamente, tornava-se cada vez mais difícil fazer isso a cada hora que passava. Durante a manhã, ele ficou afundado no banco da cozinha, num silêncio mal-humorado, enquanto contemplava a chuva e as grossas nuvens que cobriam o céu. Por volta das dez, desabou uma nova tempestade, mas ao meio-dia a chuva parou e o vento acalmou um pouco. Ele saiu, enxugou as cadeiras do jardim e sentou-se com uma xícara de café. Teve o cuidado de levantar a gola da camisa.

Como era de se esperar, a morte de Martin estendeu uma sombra sobre o cotidiano do povoado. Carros começaram a estacionar diante da casa de Isabella Vanger, indicando que o clã se reunia. Pessoas apresentavam suas condolências. Lisbeth contemplava o desfile com indiferença. Mikael permanecia mudo.

— Como está se sentindo? — ela perguntou enfim.

Mikael refletiu um momento antes de responder.

— Acho que ainda estou em estado de choque — disse. — Fiquei totalmente indefeso por várias horas. Achei que ia morrer. A angústia de morrer me revolvia as tripas e eu me sentia totalmente impotente.

Estendeu a mão e a pousou sobre o joelho de Lisbeth.

— Obrigado — disse. — Se você não tivesse chegado, ele teria me matado.

Lisbeth retribuiu com um sorriso enviesado. Mikael prosseguiu:

— Só que... eu não consigo entender como pôde ser tão louca de enfrentá-lo sozinha. Eu estava ali, no chão, rezando para que você visse a foto, fizesse a ligação e chamasse a polícia.

— Se eu esperasse a polícia chegar, você não teria sobrevivido. Eu não

podia deixar aquele canalha te trucidar.

— Por que você não quer ver a polícia?

— Não falo com as autoridades.

— Por que não?

— Problema meu. Mas, no que diz respeito a você, não acho que seria muito interessante para a sua carreira te apresentarem como o jornalista violentado por Martin Vanger, o conhecido assassino serial. Se já não gosta do Super-Blomkvist, imagine os novos apelidos que viriam.

Mikael olhou-a intensamente, depois abandonou o assunto.

— Temos um problema — disse Lisbeth.

Mikael assentiu com a cabeça, sabia a que ela estava se referindo.

— O que aconteceu a Harriet?

Lisbeth pôs as duas fotos polaróide em cima da mesa diante dele. Explicou onde as encontrara. Mikael examinou as fotos com atenção antes de levantar os olhos.

— Pode ser ela — disse por fim. — Não posso jurar, mas a corpulência e os cabelos lembram todas as fotos que vi dela.

Mikael e Lisbeth ficaram no jardim por uma hora, encaixando as peças do quebra-cabeça. Descobriram que ambos, cada um de seu lado, haviam identificado Martin Vanger como o elo perdido.

Lisbeth não chegara a ver a foto que Mikael havia deixado em cima da mesa da cozinha. Na noite anterior, depois de examinar as imagens das câmeras de segurança, ela concluíra que Mikael fizera algo estúpido e fora até a casa de Martin pelo caminho que margeava a água. Observou todas as janelas e não viu ninguém. Muito discretamente, verificou todas as portas e janelas do térreo e então foi escalando a parede até alcançar uma sacada aberta no andar de cima. Levou tempo, e ela agiu com a maior prudência, examinando cômodo por cômodo da casa. Por fim, descobriu a escada que levava ao porão. Martin fora negligente: deixara entreaberta a porta de sua câmara de torturas e ela logo entendeu tudo.

— Você ficou escutando por algum tempo o que ele dizia?

— Não muito. Cheguei quando ele estava te interrogando sobre o que havia acontecido a Harriet, pouco antes de te suspender como um porco. Me afastei só por um minuto e subi para buscar uma arma. Encontrei o taco golfe num armário.

— Martin Vanger não tinha a menor ideia do que aconteceu a Harriet.

— E você acredita?

— Sim — disse Mikael sem hesitar. — Martin estava mais enlouquecido do que uma doninha furiosa... não sei de onde me veio essa imagem... mas ele admitiu todos os crimes que cometeu. Falava à vontade. Tive até a impressão de que queria me impressionar. Mas, no que se refere a Harriet, estava tão desesperadamente em busca da verdade quanto Henrik Vanger.

— E então... isso nos leva aonde?

— Sabemos que Gottfried estava por trás da primeira série de assassinatos, entre 1949 e 1965.

— Certo. E que ele iniciou Martin.

— Estamos falando de uma família com problemas — disse Mikael. — Na verdade, Martin não tinha chance nenhuma.

Lisbeth Salander lançou um olhar estranho a Mikael.

— O que Martin me contou, embora aos pedaços, é que o pai começou a iniciá-lo na época da puberdade. Ele assistiu ao assassinato de Lea em Uddevalla, em 1962. Na época tinha catorze anos. Assistiu ao assassinato de Sara, em 1964. Dessa vez participou ativamente. Tinha dezesseis anos.

— E?

— Ele me disse que não era homossexual e que nunca havia tocado um homem, exceto o pai. Isso me faz pensar... bem, a única conclusão que se pode tirar é que o pai o violentava. Os abusos sexuais devem ter prosseguido por muito tempo. Ele foi iniciado, por assim dizer, pelo pai.

— Você está dizendo bobagem — falou Lisbeth Salander.

Sua voz de repente ficou dura como pedra. Mikael olhou para ela surpreso. Havia algo de inflexível no olhar dela, sem a menor compaixão.

— Martin poderia resistir como qualquer outra pessoa. Ele fez sua escolha. Matava e violentava porque gostava disso.

— Concordo. Mas Martin era um menino maltratado, influenciado pelo pai, assim como Gottfried foi maltratado pelo seu pai nazista.

— Ah, sei, você parte do princípio de que Martin não tinha vontade própria e que as pessoas se tornam aquilo para o qual foram educadas.

Mikael sorriu prudentemente.

— E um ponto sensível para você?

Os olhos de Lisbeth flamejaram numa súbita cólera contida. Mikael prosseguiu rápido.