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— Não estou afirmando que as pessoas são influenciadas apenas pela educação que recebem, mas acho que ela desempenha um papel importante. O pai de Gottfried o espancou, e seriamente, por anos e anos. Isso deixa marcas.

— Você está dizendo bobagem — repetiu Lisbeth. — Gottfried não foi o único coitado no mundo a ter sido surrado. O que também não lhe dava carta branca para assassinar mulheres. Foi uma escolha que ele mesmo fez. E isso também vale para Martin.

Mikael ergueu uma mão.

— Não vamos discutir.

— Não estou discutindo. Simplesmente acho patético que sempre concedam circunstâncias atenuantes aos canalhas.

— Concordo. Eles têm mesmo uma responsabilidade pessoal. Passaremos isso a limpo depois. O fato é que Gottfried morreu quando Martin tinha dezessete anos e ele ficou sem ninguém para guiá-lo. Tentou prosseguir nas pegadas do pai. Fevereiro de 1966, Uppsala.

Mikael inclinou-se para pegar um dos cigarros de Lisbeth.

— Não vou nem começar a especular sobre que pulsões Gottfried estava tentando satisfazer, nem de que maneira interpretava seus atos. Ele se apoiou numa algaravia bíblica que um psiquiatra, talvez, pudesse esclarecer que fala de castigos e de purificação num sentido ou noutro. Não importa. Ele era um assassino serial.

Refletiu um segundo antes de continuar.

— Gottfried queria matar mulheres e revestia os crimes numa espécie de raciocínio pseudo-religioso. Mas Martin nem sequer fingia ter uma desculpa. Era organizado e matava de maneira sistemática. Além disso, tinha dinheiro para se dedicar a seu hobby. E era mais astuto que o pai. Toda vez que Gottfried deixava para trás um cadáver, isso significava um inquérito policial e o risco de alguém chegar até ele, ou pelo menos de fazer a ligação entre os diferentes assassinatos.

— Martin Vanger mandou construir sua casa nos anos 1970 — disse Lisbeth pensativamente.

— Acho que Henrik disse 1978. Ele provavelmente encomendou um porão de segurança para arquivos importantes ou algo do gênero. Obteve uma peça à prova de som, sem janelas e com uma porta blindada.

— Usou esse lugar por vinte e cinco anos.

Calaram-se por alguns momentos e Mikael pensou que atrocidades não teriam se passado naquela idílica ilha de Hedeby durante um quarto de século. Lisbeth não precisou imaginar; tinha visto a coleção de vídeos. Ela percebeu que Mikael tocava involuntariamente o próprio pescoço.

— Gottfried odiava as mulheres e ensinou o filho a também odiar as mulheres, enquanto o violentava. Mas havia algo mais... acho que Gottfried imaginava que os filhos deviam compartilhar sua visão pervertida do mundo, para dizer o mínimo. Quando perguntei a Martin sobre Harriet, sua própria irmã, ele disse: Tentamos convencê-la. Mas ela não passava de uma putinha ordinária. Estava planejando avisar Henrik.

Lisbeth assentiu com a cabeça.

— Eu ouvi. Foi mais ou menos nesse momento que eu cheguei ao porão. Isso significa que agora conhecemos o motivo da misteriosa conversa que ela queria ter com Henrik.

Mikael franziu a testa.

— Não exatamente. Pense na cronologia dos fatos. Não sabemos quando Gottfried violentou o filho pela primeira vez, mas ele levou Martin a Uddevalla para matar Lea Persson em 1962. Gottfried afogou-se em 1965. Antes disso, ele e Martin haviam tentado convencer Harriet. O que se pode deduzir daí?

— Que Gottfried não violentou apenas Martin. Ele atacou também Harriet.

Mikael assentiu com a cabeça.

— Gottfried era o professor, Martin o aluno. E Harriet era o joguete dos dois, digamos assim.

— Gottfried ensinou Martin a ter intimidades com a irmã. — Lisbeth mostrou as fotos polaróide. — É difícil determinar a atitude dela por essas duas fotos, pois só vemos seu rosto tentando se esconder da objetiva.

— Digamos que tudo começou quando ela tinha catorze anos, em 1964. Ela se defendeu — não conseguia aceitar —, segundo Martin. Era isso que ela ameaçava contar. Martin certamente não tinha grande experiência na época, ele consultava o pai, mas Gottfried e ele firmaram uma espécie de pacto através do qual tentavam iniciar Harriet.

Lisbeth assentiu com a cabeça.

— Você escreveu, nas suas anotações, que Henrik Vanger insistiu para que Harriet fosse morar na casa dele no inverno de 1964.

— Henrik percebeu que algo não ia bem naquela família. Para ele, a causa eram discussões e desavenças entre Gottfried e Isabella, por isso acolheu Harriet em sua casa para que ela pudesse ficar tranquila e se dedicar aos estudos.

— Um contratempo para Gottfried e Martin. Eles não podiam mais dispor dela facilmente, nem controlar sua vida. Mas de tempo em tempo... Onde aconteciam esses abusos?

— Provavelmente na cabana de Gottfried. Tenho quase certeza que as fotos foram tiradas lá. Vai ser fácil verificar. A casa tem uma localização perfeita, é isolada e longe do povoado. Até que um dia Gottfried bebeu demais e acabou se afogando como um imbecil.

Lisbeth balançou pensativamente a cabeça.

— O pai de Harriet tinha ou tentava ter relações sexuais com ela, mas aposto que não a iniciou nos assassinatos.

Mikael entendeu que esse era um ponto a ser esclarecido. Harriet anotara os nomes das vítimas de Gottfried e os associara a citações bíblicas, mas seu interesse pela Bíblia só havia se manifestado no último ano, quando Gottfried já havia morrido. Refletiu um momento, tentando encontrar uma explicação lógica.

— E então, um dia, Harriet descobre que Gottfried não é apenas um pai incestuoso como também um assassino serial furioso — disse.

— Não sabemos quando ela descobriu os assassinatos. Talvez um pouco antes de Gottfried se afogar, talvez depois, se ele tinha um diário ou se guardou recortes de jornal sobre os assassinatos. Alguma coisa a colocou na pista.

— Mas não era isso que ela ameaçava contar a Henrik — insistiu Mikael.

— Era sobre Martin — disse Lisbeth. — O pai havia morrido, mas Martin continuava a assediá-la.

— Exatamente — disse Mikael balançando a cabeça.

— Mas ela levou um ano para se decidir.

— O que você faria se descobrisse que seu pai é um assassino serial que estupra o seu irmão?

— Eu massacraria um lixo desses — disse Lisbeth com uma voz tão fria que Mikael percebeu que ela não estava brincando. De repente se lembrou do rosto de Lisbeth quando ela saltou sobre Martin Vanger. Esboçou um sorriso não muito alegre.

— Certo. Mas Harriet não é você. Gottfried morreu em 1965, antes que ela tivesse tempo de fazer o que quer que fosse. Faz sentido. Com a morte de Gottfried, Isabella enviou Martin a Uppsala. Ele talvez voltasse para casa no Natal e nas férias, mas no ano seguinte não encontrou muito Harriet. Ela pôde se distanciar um pouco dele.

— E passou a estudar a Bíblia.

— E, pelo que sabemos hoje, não necessariamente por razões religiosas. Talvez quisesse apenas tentar entender o que o pai fizera. Ela ficou remoen-do isso até a Festa das Crianças em 1966. E aí, de repente, vê o irmão surgir na rua da Estação e se dá conta de que a coisa vai recomeçar. Não sabemos se eles se falaram e se ele disse algo a ela. Seja como for, Harriet voltou depressa para casa querendo falar com urgência com Henrik.

— E em seguida desapareceu.

Reconstituída assim a sequência dos acontecimentos, a solução do quebra-cabeça parecia próxima. Mikael e Lisbeth fizeram as malas. Antes de partir, Mikael ligou para Dirch Frode e explicou que Lisbeth e ele precisavam deixar Hedeby por algum tempo, mas que fazia questão de se despedir de Henrik Vanger antes de ir embora.

Mikael quis saber o que Frode contara a Henrik. Pela voz, o advogado parecia tão estressado que Mikael se preocupou com ele. Frode demorou um momento para dizer que somente contara que Martin havia morrido num acidente de carro.