Quando estacionou na frente do hospital, Mikael ouviu novas trovoadas num céu carregado de nuvens que anunciavam chuva. Apressou o passo no estacionamento ao sentir as primeiras gotas.
Henrik Vanger estava sentado em frente à janela do quarto, vestindo um robe. A doença certamente o marcara, mas ele readquiria alguma cor nas faces e parecia a caminho da recuperação. Apertaram-se as mãos. Mikael pediu que a enfermeira particular os deixasse a sós por alguns minutos.
— Você não veio me ver — disse Henrik Vanger.
— Não pude. Sua família não quer me ver aqui no hospital, mas hoje estão todos com Isabella.
— Pobre Martin — disse Henrik.
— Henrik, você me pediu para descobrir a verdade sobre o que aconteceu a Harriet. Esperava que a verdade não doesse?
O velho olhou para ele. Depois abriu bem os olhos.
— Martin?
— Ele faz parte da história. Henrik fechou os olhos.
— Agora preciso lhe fazer uma pergunta.
— Qual?
— Você ainda quer saber o que aconteceu? Mesmo que doa e mesmo que a verdade seja pior do que você sempre imaginou?
Henrik Vanger olhou Mikael demoradamente. Depois balançou a cabeça.
— Quero saber. É o objetivo do seu trabalho.
— Certo. Acho que sei o que aconteceu a Harriet. Mas ainda falta uma última peça do quebra-cabeça.
— Me conte tudo.
— Não, hoje não. Agora quero que continue repousando. O médico disse que o alerta já deixou de soar e que logo você estará curado.
— Não me trate como uma criança.
— Ainda não terminei minha investigação. Só tenho suposições por enquanto, mas vou tentar achar essa última peça do quebra-cabeça. Da próxima vez contarei a história toda. Pode demorar um pouco, mas quero que saiba que eu voltarei e que você saberá a verdade.
Lisbeth cobriu a moto com uma lona, deixou-a do lado da casa oposto ao sol e instalou-se com Mikael no carro emprestado. A chuva aumentou e, ao sul de Gävle, enfrentaram um aguaceiro tão forte que Mikael mal via a estrada à frente. Por cautela, resolveu parar num posto de gasolina. Tomaram um café enquanto esperavam a chuva acalmar e só chegaram a Estocolmo por volta das sete da noite. Mikael deu a Lisbeth o código do seu prédio e a deixou numa estação de metrô. O apartamento pareceu-lhe estranho quando entrou.
Passou o aspirador e um pano de pó, enquanto Lisbeth ia ver Praga em Sundbyberg. Ela chegou à casa de Mikael cerca de meia-noite e passou dez minutos examinando cada detalhe do apartamento. Depois ficou um longo tempo diante da janela, olhando a vista do Slussen.
Armários e estantes comprados na Ikea serviam de divisória entre a sala e o quarto do loft. Eles se despiram e dormiram algumas horas.
Quando no dia seguinte aterrissaram em Gatwick por volta do meio-dia, foram recebidos pela chuva. Mikael havia reservado um quarto no hotel James perto do Hyde Park, um excelente hotel comparado às espeluncas de Bayswater onde sempre se hospedava em suas visitas a Londres. As despesas corriam por conta de Dirch Frode.
Às cinco da tarde, um homem de uns trinta anos encontrou-se com eles no bar do hotel. Era quase calvo, tinha uma barba loura, vestia um casaco muito largo, jeans e dockside.
— Wasp? — ele perguntou.
— Trinity? — ela rebateu. Cumprimentaram-se com um aceno de cabeça. Ele não perguntou o nome de Mikael.
O parceiro de Trinity foi apresentado como Bob the Dog. Ele esperava numa velha kombi estacionada na esquina. Entraram pela porta lateral e sentaram-se em bancos dobráveis. Enquanto Bob ziguezagueava pelo trânsito londrino, Wasp e Trinity conversavam.
— Praga me disse que se trata de um crash-bang job.
— Escuta telefônica e controle de e-mails num computador. Pode ser coisa rápida ou levar alguns dias, depende da pressão dele. — Lisbeth apontou para Mikael com o polegar. — Vocês conseguem?
— Os cachorros têm pulgas? — respondeu Trinity.
Anita Vanger morava numa das pequenas casas alinhadas em fila e de aspecto asseado do subúrbio de St. Albans, ao norte de Londres, um trajeto de pouco mais de uma hora de carro. Da kombi, viram-na chegar e abrir a porta às sete da noite. Esperaram uni pouco para que ela tomasse banho, comesse alguma coisa e se instalasse na frente da tevê, antes de Mikael tocar a campainha.
Uma cópia quase idêntica de Cecília Vanger abriu a porta, o rosto formando um cortês ponto de interrogação.
— Boa noite, Anita. Meu nome é Mikael Blomkvist. Henrik Vanger pediu-me que viesse vê-la. Suponho que soube de Martin.
O rosto dela passou da surpresa à vigilância. Assim que ouviu o nome Mikael Blomkvist, ela soube exatamente quem ele era. Estava em contato com Cecília Vanger, que talvez tivesse manifestado uma certa irritação com Mikael. Mas mencionar Henrik Vanger a obrigou a abrir a porta. Convidou Mikael a se instalar na sala. Ele olhou ao redor. A decoração da casa, embora bastante discreta, indicava uma pessoa com dinheiro e unia vida profissional. Observou uma litografia assinada por Auders Zorn acima de uma lareira transformada em aquecedor a gás.
— Desculpe eu ter vindo sem avisar, eu estava em Londres c tentei telefonar durante o dia.
— Entendo. Do que se trata? — A voz estava na defensiva.
— Está pretendendo ir ao funeral?
— Não. Martin e eu não éramos muito próximos e não posso me afastar do trabalho.
Mikael assentiu com a cabeça. Anita Vanger fizera o possível para se manter distante de Hedestad durante trinta anos. Desde que o pai voltara à ilha de Hedeby, ela praticamente não pusera mais os pés lá.
— Quero saber o que aconteceu a Harriet Vanger. A hora da verdade chegou.
— Harriet? O que está querendo dizer?
Mikael fez um trejeito, dando a entender que não estava disposto a se deixar enganar.
— Você era a amiga mais próxima de Harriet na família e foi a pessoa que ela procurou para contar sua terrível história.
— Você está completamente doido — disse Anita Vanger.
— Talvez você esteja certa — disse Mikael com a voz tranquila. — Anita, você esteve no quarto de Harriet naquele dia. Tenho fotos provando isso. Daqui a alguns dias farei um relatório a Henrik e depois ele assumirá o meu lugar. Por que não me conta o que aconteceu?
Anita Vanger levantou-se.
— Saia imediatamente da minha casa.
Mikael levantou-se.
— Tudo bem, mas cedo ou tarde será obrigada a me contar.
— Não tenho nada a lhe dizer.
— Martin está morto — disse Mikael com firmeza. —— Você nunca gostou dele. Acredito que veio morar em Londres não apenas para ficar longe de seu pai mas também para não ser obrigada a encontrar Martin. Isso significa que você também estava sabendo, e a única que pode ter lhe contado Harriet. A questão é saber o que você fez depois de ficar sabendo.
Anita Vanger bateu a porta na cara de Mikael.
Lisbeth Salander dirigiu um sorriso de satisfação a Mikael enquanto retirava o microfone que ele trazia sob a camisa.
— Ela deu um telefonema trinta segundos depois de ter batido a porta na sua cara — disse Lisbeth.
— A indicação do país é Austrália — acrescentou Trinity, repondo o aparelho de escuta em cima da mesinha dentro da kombi. Preciso verificar qual é o código da área.
Digitou alguma coisa no teclado de seu laptop.
— Aqui está, ela chamou este número: é um telefone numa localidade chamada Tennant Creek, ao norte de Alice Springs, no Território do Norte. Quer escutar a conversa?
Mikael fez que sim com a cabeça.
— Que horas são na Austrália agora?
— Mais ou menos cinco da manhã. — Trinity acionou a gravação digital e um alto-falante. Mikael contou oito chamadas antes de uma voz atender. Conversavam em inglês.
— Oi, sou eu.
— Humm, está certo que eu sou madrugador, mas...