— Eu quis te ligar ontem... Martin morreu. Matou-se num acidente de carro anteontem.
Silêncio. Depois, algo semelhante a uma ligeira tosse, mas que podia ser interpretado como "melhor assim".
— Só há um problema. Um jornalista detestável que Henrik contratou acabou de sair aqui de casa. Fez perguntas sobre o que aconteceu em 1966. Ele sabe de alguma coisa.
Silêncio outra vez. Depois, uma voz de comando.
— Anita, desligue agora. Devemos evitar qualquer contato por algum tempo.
— Mas...
— Escreva cartas. Mantenha-me informado do que se passa. — E a conversa foi interrompida.
— Cara esperto! — disse Lisbeth Salander com admiração na voz. Voltaram ao hotel um pouco antes das onze. A recepção encarregou-se de reservar lugares no primeiro voo disponível para a Austrália. Em quinze minutos, conseguiram lugar num avião que sairia às 19h05 no dia seguinte, com destino a Canberra, Nova Gales do Sul.
Resolvidos todos os detalhes, deitaram-se na cama, exaustos.
Era a primeira visita de Lisbeth Salander a Londres e eles saíram para passear de manhã, da Tottenham Court Road ao Soho. Pararam para beber um caffe latte na Old Compton Street. Por volta das três, voltaram ao hotel para pegar as malas. Enquanto Mikael fechava a conta, Lisbeth viu que havia uma mensagem de texto urgente no seu celular.
— Dragan Armanskij precisa falar com você.
Ela usou um telefone da recepção para falar com seu chefe. Mikael estava a seu lado e de repente viu Lisbeth virar-se para ele com o rosto paralisado.
— O que aconteceu?
— Minha mãe morreu. Preciso voltar.
Lisbeth parecia tão desesperada que Mikael abraçou-a. Ela o afastou. Beberam um café no bar. Quando Mikael disse que mudaria as reservas para a Austrália e a acompanharia a Estocolmo, ela balançou a cabeça.
— Não — disse secamente. — Não podemos abandonar o trabalho agora. Você irá sozinho à Austrália.
Separaram-se em frente ao hotel e cada um tomou o seu ônibus, com destino a aeroportos diferentes.
26. TERÇA-FEIRA 15 DE JULHO — QUINTA-FEIRA 17 DE JULHO
Mikael pegou um voo doméstico de Canberra a Alice Springs, única possibilidade de que dispunha no meio da tarde. Depois, pôde escolher entre um voo particular e um carro alugado. Escolheu o carro para enfrentar os quatrocentos quilômetros restantes.
Um desconhecido com o nome bíblico de Joshua, e que fazia parte da rede web internacional de Praga, ou talvez de Trinity, deixara um envelope destinado a Mikael na recepção do aeroporto de Canberra.
O número de telefone para o qual Anita ligara era de uma fazenda, Cochran Farm. Uma breve nota acompanhava a informação: criação de ovelhas.
Um artigo extraído na internet fornecia detalhes sobre a criação de ovelhas na Austrália.
O país tem 18 milhões de habitantes, entre os quais 53 mil criadores de ovelhas cuidando de cerca de 120 milhões de animais. Somente a exportação de lã rende mais de 3,5 bilhões de dólares por ano, sem contar a exportação de 700 milhões de toneladas de carne de ovelha e mais as peles para a indústria do vestuário. A produção de carne e de lã é um dos setores econômicos mais importantes do país.
A Cochran Farm, fundada em 1891 por um certo Jeremy Cochran, era a quinta maior empresa agropecuária da Austrália, com cerca de sessenta mil merino sheep, cuja lã era considerada de excelente qualidade. Além de ovelhas, a fazenda criava também vacas, porcos e galinhas.
Mikael constatou que a Cochran Farm era uma empresa com um volume anual de negócios impressionante, que exportava para os Estados Unidos, China, Japão e Europa, entre outros.
As biografias eram ainda mais interessantes.
Em 1972, a Cochran Farm passou das mãos de Raymond Cochran para seu herdeiro Spencer Cochran, formado em Oxford, na Inglaterra. Spencer falecera em 1994 e desde então a fazenda era dirigida por sua viúva. Ela aparecia numa foto de baixa resolução extraída do site da Cochran Farm, que mostrava uma mulher loura de cabelos curtos. Parte de seu rosto estava virado um cordeiro, que ela acariciava. Segundo Joshua, Spencer e ela haviam se casado na Itália em 1971.
Ela se chamava Anita Cochran.
Mikael passou a noite num lugarejo perdido e desértico com um nome que exalava esperança: Wannado. Num bar de esquina, comeu carne de carneiro assada e bebeu três pints, na companhia de alguns tipos locais que o chamavam de mate, e que falavam com um sotaque engraçado. Ele tinha a impressão de estar em plena filmagem de Crocodilo Dundee.
Na noite anterior, antes de ir dormir, ele havia telefonado para Erika em Nova York.
— Desculpe, Ricky, mas andei tão ocupado que nem tive tempo de ligar.
— Mas o que está havendo em Hedestad, criatura?! — ela explodiu. — Christer me telefonou para dizer que Martin morreu num acidente de carro.
— E uma longa história.
— E por que você não atende o telefone? Estou chamando sem parar há dois dias.
— Aqui não pega.
— Aqui onde?
— Neste momento, a uns duzentos quilômetros ao norte de Alice Springs. Na Austrália, portanto.
Mikael quase nunca conseguia surpreender Erika, mas desta vez ela emudeceu por uns dez segundos.
— E o que você está fazendo na Austrália, ainda que mal pergunte?
— Estou terminando o trabalho. Voltarei à Suécia daqui a alguns dias. Liguei apenas para contar que a missão para Henrik Vanger está quase no fim.
— Quer dizer que descobriu o que aconteceu a Harriet?
— Acho que sim.
Ele chegou à Cochran Farm no dia seguinte, ao meio-dia, e ficou sabendo que Anita Cochran se encontrava num distrito de produção, numa localidade chamada Makawaka, cento e vinte quilômetros a oeste.
Eram quatro da tarde quando Mikael encontrou o lugar, após percorrer um grande número de estradas vicinais. Parou diante de uma cerca onde um grupo de peões estava reunido em volta do capo de um jipe, comendo alguma coisa. Mikael desceu, apresentou-se e disse que procurava Anita Cochran. Os rapazes olharam para um homem musculoso, de uns trinta anos, que parecia ser quem tomava as decisões. Tinha o torso nu e bronzeado, exceto nas partes normalmente cobertas pela camiseta. Usava um chapéu de caubói.
— Well, mate, a patroa está uns dez quilômetros para lá — disse, apontando com o dedo.
Ele olhou para o carro de Mikael com ceticismo e acrescentou que não era uma boa ideia prosseguir na estrada com aquele brinquedinho japonês. Mas disse que de todo modo ele precisava ir até lá e que podia levar Mikael no jipe, único veículo adaptado ao tipo de terreno que os esperava. Mikael agradeceu e teve o cuidado de pegar a sacola com seu notebook.
O homem disse que se chamava Jeff e contou que era o studs manager al the station. Mikael perguntou o que aquilo significava. Jeff olhou-o curioso, percebendo que Mikael não devia ser do país. Explicou que studs manager equivalia a um gerente de banco, só que lidava com ovelhas, e que station era a palavra australiana para "rancho".
Continuaram conversando enquanto Jeff manobrava o jipe com tranquilidade a vinte quilômetros por hora, num declive impressionante até o fundo de um desfiladeiro. Mikael agradeceu sua boa estrela por não ter tentado prosseguir no carro alugado. Ficou sabendo que na base do desfiladeiro havia pastagens para cerca de setecentas ovelhas.
— Se entendi bem, Cochran Farm é uma grande empresa agropecuária.
— Uma das maiores da Austrália — respondeu Jeff com algum orgulho na voz. — Temos cerca de nove mil ovelhas aqui no distrito de Makawaka, mas possuímos também stations na Nova Gales do Sul e na Austrália Ocidental. Ao todo, são mais de sessenta e três mil ovelhas.