— E o passaporte? Alguém poderia notar que havia duas Anita Vanger.
— Não. Por que notariam? Uma sueca chamada Anita Vanger casou-se com Spencer Cochran. O fato de morar em Londres ou na Austrália não tem importância nenhuma. Em Londres, ela é a mulher separada de Spencer Cochran. Na Austrália, é sua esposa. Os cartórios de Canberra e Londres não se comunicam. Além disso, obtive um passaporte australiano com o nome Cochran. E um arranjo que funciona perfeitamente bem. O plano só não daria certo se Anita quisesse se casar. Meu casamento precisou ser registrado num cartório sueco.
— E ela não se casou.
— Disse que nunca encontrou ninguém, mas sei que se absteve por minha causa. Foi uma verdadeira amiga.
— O que ela fazia no seu quarto?
— Eu não estava raciocinando muito bem naquele dia. Tinha medo de Martin. Enquanto ele esteve em Uppsala, deixei o problema de lado, mas quando o vi na rua em Hedestad percebi que nunca mais estaria segura. Hesitei entre contar a Henrik e fugir. Henrik não pôde falar comigo, então saí andando à toa pelo povoado. Claro que o acidente na ponte fez todo mundo esquecer tudo mais, é natural. Mas não foi esse o meu caso. Eu tinha meu próprios problemas e mal tomei consciência do acidente. Tudo parecia irreal. Então encontrei Anita, que estava hospedada num anexo da casa de Gerda e Alexander. Por fim tomei uma decisão e pedi que ela me ajudasse. Fiquei no quarto dela e não ousei mais sair dali. Mas havia uma coisa que eu precisava levar comigo: um diário íntimo onde eu tinha anotado tudo o que aconteceu. Também precisava de roupas. Anita foi buscar.
— E suponho que ela não resistiu à tentação de abrir a janela para dar uma olhada no acidente. — Mikael refletiu um momento. — O que eu não entendo é por que você não foi ver Henrik, como era a sua intenção.
— O que você acha?
— Não sei, não entendo. Estou certo de que Henrik a teria ajudado. Martin não tinha como prejudicá-la imediatamente, e Henrik não a trairia. Teria conduzido o caso com discrição, encaminhando-o para uma espécie de terapia ou tratamento.
— Você não entendeu o que se passou.
Até então, Mikael mencionara apenas o abuso sexual que Martin sofrera de Gottfried, sem mencionar o caso de Harriet.
— Gottfried abusou de Martin — disse Mikael discretamente. — Imagino que tenha abusado também de você.
Harriet Vanger não mexeu um só músculo. Depois respirou profundamente e escondeu o rosto nas mãos. Em menos de três segundos, Jeff apareceu ao lado dela, perguntando se tudo estava all right. Harriet Vanger olhou para ele e dirigiu-lhe um breve sorriso. Então surpreendeu Mikael ao se levantar e abraçar seu studs manager, dando-lhe um beijo no rosto. Virou-se para Mikael, com o braço no ombro de Jeff.
— Jeff, este é Mikael, um velho... amigo de muito, muito tempo atrás. Ele está me trazendo problemas e más notícias, mas nunca devemos matar o mensageiro. Mikael, este é Jeff Cochran, meu filho mais velho. Tenho também outro filho e uma filha.
Mikael balançou a cabeça. Jeff tinha uns trinta anos. Harriet Vanger deve ter engravidado logo após o casamento com Spencer Cochran. Ele se levantou, estendeu a mão para Jeff e disse que sentia muito perturbar a mãe dele, mas que infelizmente era necessário. Harriet trocou algumas palavras com Jeff e o mandou embora. Tornou a sentar-se com Mikael e pareceu tomar uma decisão.
— Chega de mentira. Acho que agora acabou. De certo modo, eu estava esperando por esse dia desde 1966. Durante muitos anos, minha angústia era que alguém se dirigisse a mim pelo meu verdadeiro nome. E não me importa mais que você saiba. Meu crime está prescrito. E estou pouco ligando para o que as pessoas vão pensar.
— Que crime? — perguntou Mikael.
Ela o fitou bem nos olhos, mas ele ainda não sabia do que ela estava falando.
— Eu tinha dezesseis anos. Estava com medo, envergonhada, desesperada. E sozinha. Somente Anita e Martin sabiam a verdade. Contei a Anita sobre os abusos sexuais, mas não consegui contar que meu pai também era um psicopata assassino de mulheres. Anita nunca soube. Em troca, confessei-lhe o crime que eu mesma havia cometido e que era suficientemente horrível para que afinal não ousasse contá-lo a Henrik. Pedi perdão a Deus e me escondi num convento por vários anos.
— Harriet, seu pai era um estuprador e um assassino. Você não é culpada de nada.
— Eu sei. Meu pai abusou de mim durante um ano. Fiz de tudo para evitar que ele... mas ele era meu pai e eu não podia me recusar a fazer alguma coisa com ele sem lhe dar uma explicação. Então menti e aceitei participar da comédia, como se aquilo fosse natural, cuidando sempre para que houvesse outras pessoas quando eu me encontrava com ele. Minha mãe sabia o que ele fazia, mas não se importava.
— Isabella sabia? — exclamou Mikael, consternado.
A voz de Harriet Vanger ficou mais dura.
— Claro que sim. Nada se passava em nossa família sem que Isabella soubesse. Mas ela nunca dava atenção às coisas desagradáveis ou que pudessem depreciá-la. Meu pai podia me estuprar na sala diante de seus olhos sem que ela visse. Era incapaz de reconhecer que algo não ia bem na minha vida ou na dela.
— Cheguei a conhecê-la. É uma víbora.
— E o que foi a vida inteira. Muitas vezes refleti sobre o relacionamento entre meu pai e ela. Concluí que depois do meu nascimento eles raramente, ou nunca mais, tiveram relações sexuais. Meu pai tinha mulheres, mas estranhamente temia Isabella. Estava afastado dela sem poder se divorciar.
— Ninguém se divorcia na família Vanger.
Ela riu pela primeira vez.
— É verdade. O fato é que eu não tive coragem de contar. O mundo inteiro ficaria sabendo. Meus colegas de escola, todos na família...
Mikael pôs a mão sobre a de Harriet.
— Harriet, estou arrasado.
— Eu tinha catorze anos quando ele me violentou pela primeira vez. Levava-me regularmente à cabana. Várias vezes Martin também estava lá. Forçava nós dois a fazer coisas com ele. Segurava-me nos braços para que Martin... se satisfizesse em cima de mim. E assim, depois da morte do meu pai, Martin estava pronto para assumir o papel dele. Queria que eu fosse sua amante e achava natural que eu me submetesse. E nesse momento não tive mais escolha, fui obrigada a fazer o que Martin queria. Havia me livrado de um carrasco para cair nas garras de outro, e tudo o que podia fazer era procurar nunca ficar a sós com ele.
— Henrik teria...
— Você ainda não entendeu — ela disse, elevando a voz.
Mikael viu os homens na tenda ao lado virarem-se para eles. Ela baixou de novo a voz e inclinou-se para ele.
— Está com todas as cartas agora. Tire você mesmo as conclusões. Levantou-se e foi buscar mais duas cervejas. Quando voltou, Mikael disse uma única palavra.
— Gottfried?
Ela fez que sim com a cabeça.
— No dia 7 de agosto de 1965, meu pai me obrigou a acompanhá-lo até a cabana. Henrik estava viajando. Meu pai havia bebido e tentou me forçar. Mas não conseguiu gozar e começou a delirar. Ele era sempre... grosseiro e violento comigo quando estávamos a sós, mas dessa vez ultrapassou os limites. Urinou em cima de mim. A seguir contou-me o que gostaria de fazer comigo. Um pouco antes havia falado das mulheres que matara. Vangloriava-se. Citava a Bíblia. Aquilo durou horas. Não entendi a metade do que ele dizia, mas percebi que ele estava completamente maluco.
Ela tomou um gole de cerveja.
— A certa altura, por volta de meia-noite, ele teve uma crise. Parecia um louco furioso. Estávamos no mezanino. Ele pôs uma camiseta em volta do meu pescoço e apertou com toda a força. Vi tudo preto. Não duvido um segundo que ele realmente tentou me matar e, pela primeira vez naquela noite, conseguiu me estuprar.