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— Imagino que Anita era quem postava as flores.

— Ela trabalhava para uma companhia aérea e as enviava de onde se encontrava.

— E como você descobriu que era Anita que a ajudava?

— Pela fotografia na qual ela aparece na janela do quarto de Harriet.

— Mas ela podia estar envolvida... poderia ser a assassina. Como deduziu que Harriet estava viva?

Mikael olhou demoradamente para Henrik Vanger. Depois sorriu pela primeira vez desde que voltara a Hedestad,

— Anita estava envolvida no desaparecimento de Harriet, mas não poderia tê-la matado.

— Como teve a certeza disso?

— Porque isto não é um romance policial e de mistério. Se Anita tivesse matado Harriet, você já teria encontrado o corpo há muito tempo. Portanto, o mais lógico é que ela tivesse ajudado Harriet a fugir e a se manter distante. Quer vê-la?

— Mas é claro que quero ver Harriet.

Mikael foi buscar Harriet, que o aguardava em frente aos elevadores do saguão de entrada. No primeiro momento não a reconheceu; depois que eles haviam se separado no aeroporto, na véspera, ela refizera a cor escura original de seus cabelos. Vestia calça preta, camisa branca e um casaco cinza elegante. Estava magnífica e Mikael inclinou-se para lhe dar um beijo de encorajamento no rosto,

Henrik levantou-se da poltrona quando Mikael abriu a porta para deixar Harriet Vanger passar. Ela respirou fundo.

— Bom dia, Henrik.

O velho a examinou dos pés à cabeça. Depois Harriet avançou e o beijou no rosto. Mikael fez um sinal com o queixo para Dirch Frode, fechou a porta e deixou os dois a sós.

Lisbeth Salander não estava mais em casa quando Mikael voltou à ilha. O equipamento de vídeo e a moto haviam desaparecido, assim como a sacola com as roupas e os produtos de toalete dela no banheiro.

Ele percorreu os cômodos. A casa de repente lhe pareceu sinistra, estranha, irreal. Olhou as pilhas de papéis na saleta de trabalho, que ele devia distribuir em pastas e entregar a Henrik Vanger, mas não teve ânimo de começar a arrumação. Foi até o Konsum para comprar pão, leite, queijo e alguma coisa para beliscar à noite. Ao voltar, preparou um café, instalou-se no jardim e leu os jornais da tarde com a cabeça vazia, sem pensar em nada.

Por volta das cinco e meia da tarde, um táxi passou pela ponte e voltou três minutos depois. Mikael avistou Isabella Vanger no banco traseiro.

Por volta das sete, estava cochilando na cadeira do jardim quando Dirch Frode chegou e o despertou.

— Como foi o encontro de Henrik e Harriet? — perguntou Mikael.

— Essa triste história tem também seu lado divertido — respondeu Frode com um sorriso contido. — Isabella irrompeu de repente no quarto de Henrik. Ela ficou sabendo que você havia voltado e estava uma fera. Berrou que era preciso acabar com essas imbecilidades sobre Harriet e que você era um investigador de merda que causara a morte do filho dela.

— De certa forma ela tem razão.

— Ordenou que Henrik demitisse você, obrigasse você a sumir daqui e que parasse de procurar fantasmas.

— Uau!

— Ela nem sequer olhou para a mulher que estava com Henrik. Certamente a tomou como uma funcionária do hospital. Não esquecerei jamais o instante em que Harriet se levantou, olhou para Isabella e disse: Bom dia, mamãe.

— E o que aconteceu?

— Foi preciso chamar o médico para reanimar Isabella. Agora ela está negando que se trata mesmo de Harriet; você é acusado de ter trazido uma impostora.

Dirch Frode estava indo anunciar a Cecília e a Alexander que Harriet ressuscitara dos mortos. Ele seguiu seu caminho e deixou Mikael a sós.

Lisbeth Salander parou para pôr gasolina num posto um pouco antes de Uppsala. Estivera dirigindo com os dentes cerrados e o olhar fixo à frente. Pagou rápido, deu a partida na moto e avançou até a saída, onde se deteve mais uma vez, indecisa.

Ainda se sentia mal. Estava furiosa quando deixou Hedeby, mas a raiva lentamente se dissolvera ao longo do trajeto. Não sabia muito bem por que estava tão zangada com Mikael Blomkvist, nem mesmo se era com ele que estava zangada.

Só tinha na cabeça Martin Vanger, aquela maldita Harriet Vanger e aquele maldito Dirch Frode, toda aquela maldita família Vanger bem instalada em Hedestad, que reinava em seu pequeno império fazendo intrigas uns contra os outros. Eles haviam precisado da ajuda dela. Normalmente não a teriam sequer cumprimentado, muito menos lhe confiado segredos.

Família de merda!

Inspirou profundamente e pensou na mãe enterrada naquela manhã. Aquilo, sim, não tinha solução. A morte da mãe significava que a ferida jamais seria curada, pois Lisbeth jamais teria resposta às perguntas que gostaria de ter feito a ela.

Pensou em Dragan Armanskij atrás dela durante o enterro. Deveria ter dito alguma coisa a ele. Pelo menos ter enviado um sinal de que sabia que ele estava ali. Mas aí ele teria usado aquilo como pretexto para querer organizar a vida dela. Se lhe desse a pontinha do dedo, ele iria pegar o braço inteiro. Ele nunca entenderia.

Pensou no dr. Nils Canalha Bjurman, seu tutor, que, ao menos por enquanto, estava neutralizado e fazendo o que ela mandava.

Sentiu um ódio implacável e cerrou os dentes.

Pensou em Mikael Blomkvist e perguntou-se qual seria a reação dele se soubesse que ela estava sob tutela e que toda a sua vida não passava de um maldito ninho de ratos.

Percebeu que não queria mal a ele. Mikael fora simplesmente a pessoa de quem ela dispunha para descarregar sua raiva, sobretudo quando sentia vontade de matar alguém. Não adiantava nada culpá-lo.

Sentia-se estranhamente ambígua em relação a ele.

Ele metia o nariz em toda parte, fuçava a vida privada dela e... Mas ela também tinha gostado de trabalhar com ele. E essa era uma sensação estranha — trabalhar com alguém! Não tinha esse hábito, mas fora algo surpreendentemente sem dor. Ele não ficava martelando nos ouvidos dela, não ficava tentando lhe dizer como deveria viver sua vida.

E fora ela que o seduzira, não o contrário.

Sem contar que havia sido bom.

Então por que essa vontade de chutá-lo?

Suspirou e contemplou com olhos infelizes um caminhão enorme que passava pela rodovia E4.

Mikael ainda estava no jardim por volta das oito da noite quando ouviu o barulho da moto e viu Lisbeth Salander passar pela ponte. Ela estacionou e tirou o capacete. Aproximou-se da mesa do jardim e examinou a cafeteira, que estava fria e vazia. Mikael olhou para ela surpreso. Ela pegou a cafeteira e entrou na casa. Quando voltou, havia tirado o macacão de couro e posto um jeans e uma camiseta com a inscrição I can be a regular bitch. Just try me.

— Achei que já estivesse em Estocolmo — disse Mikael.

— Dei meia-volta em Uppsala.

— Um passeio longo.

— Estou com a bunda dolorida.

— Por que deu meia-volta?

Ela não respondeu. Mikael não insistiu e esperou que ela falasse enquanto tomavam o café. Passados dez minutos, ela rompeu o silêncio.

— Gosto da sua companhia — ela reconheceu a contragosto. Eram palavras que nunca havia pronunciado.

— Foi... interessante trabalhar com você nesse caso.

— Também gostei de trabalhar com você — disse Mikael.

— Humm.

— Nunca trabalhei com um pesquisador tão competente. Certo, sei que você é uma hacker terrível e conhece círculos suspeitos com os quais, depois de um simples telefonema, pode montar urna escuta telefônica em Londres em vinte e quatro horas, mas de fato você obtém resultados.

Ela o olhou pela primeira vez desde que se sentara ali. Ele conhecia muitos dos seus segredos. Como era possível?