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— E simples. Conheço computadores. Nunca tive problema para ler um texto e entender exatamente o que está escrito lá.

— E a sua memória fotográfica — ele disse tranquilamente.

— Acho que sim. Não sei bem como a coisa funciona. Não é só com computadores e redes telefônicas, mas também com o motor da minha moto, aparelhos de tevê, aspiradores de pó, processos químicos e fórmulas astrofísicas. Admito, sou meio maluca, uma verdadeira freak.

Mikael franziu as sobrancelhas. Não disse nada por um bom tempo.

A síndrome de Asperger, pensou. Ou algo parecido. Um talento para ver esquemas e entender raciocínios abstraías onde os outros não vêem senão a mais completa desordem.

Lisbeth olhou fixamente a mesa.

— A maioria das pessoas pagaria caro para ter esse dom.

— Não quero falar sobre isso.

— Tudo bem, deixa pra lá. Por que você voltou?

— Não sei. Talvez tenha sido um erro. Ele a perscrutou com o olhar.

— Lisbeth, pode me dar uma definição da palavra "amizade"?

— Gostar muito de alguém.

— Sim, mas o que faz gostar muito de alguém? Ela encolheu os ombros.

— Minha definição da amizade se baseia em duas coisas — ele disse. — O respeito e a confiança. Esses dois fatores precisam necessariamente estai presentes. E deve ser recíproco. Pode-se ter respeito por alguém, mas se não houver confiança, a amizade vira pó.

Ela continuou calada.

— Tudo bem você não querer falar de si mesma comigo; só que, mais cedo ou mais tarde, vai precisar decidir se tem confiança em mim ou não. Quero que sejamos amigos, mas não posso ser seu amigo sozinho.

— Gosto de trepar com você.

— O sexo não tem nada a ver com a amizade. Claro que amigos podem fazer amor, mas ouça, Lisbeth: se eu tiver que escolher entre sexo e amizade com você, sei muito bem o que escolherei.

— Não entendo. Quer fazer amor comigo ou não?

Mikael mordeu o lábio. Por fim, suspirou.

— Não é bom que pessoas que trabalham juntas façam amor juntas — ele murmurou. — Acaba dando problemas.

— Posso estar enganada, mas me parece que você e Erika trepam assim que surge uma chance. E além disso ela é casada.

Mikael ficou um momento em silêncio.

— Eu e Erika... temos uma história que começou muito antes de trabalharmos juntos. O fato de ela ser casada não lhe diz respeito.

— Está vendo? Agora é você que não quer falar dos seus assuntos. A amizade não era uma questão de confiança?...

— Sim, mas o que eu quero dizer é que não falo de uma amiga nas costas dela. Seria trair sua confiança. Também não falaria de você com Erika nas suas costas.

Lisbeth Salander pensou sobre o que ele disse. A conversa havia ficado complicada e ela não gostava de conversas complicadas.

— Gosto de trepar com você — repetiu.

— E eu também... mas já tenho idade para ser seu pai.

— Não dou a mínima para a sua idade.

— Você não pode ignorar nossa diferença de idade. Ela não é um bom ponto de partida para uma relação duradoura.

— Quem falou de algo duradouro? — disse Lisbeth. — Acabamos de resolver um caso em que homens com uma sexualidade pervertida de merda desempenharam um papel e tanto. Se dependesse de mim, homens como esses seriam exterminados, todos.

— Bem, pelo menos você não faz concessões.

— Não — disse ela, com seu sorriso enviesado que não era bem um sorriso. — Mas você não é como eles.

Levantou-se.

— Vou tomar um banho e depois pretendo me deitar nua na sua cama. Se você se sente muito velho, pode ir dormir na cama de armar.

Mikael olhou para ela. Quaisquer que fossem os problemas de Lisbeth Salander, a timidez não era um deles. Ele sempre saía perdendo nas discussões que tinha com ela. Foi lavar as xícaras de café e depois entrou no quarto.

Levantaram-se por volta das dez, tomaram banho juntos e se instalaram no jardim para o café-da-manhã. Aproximadamente às onze horas, Dirch Frode telefonou e disse que o enterro seria às duas. Perguntou se tinham a intenção de ir.

— Acho que não — disse Mikael.

Frode perguntou se poderia passar por volta das seis da tarde para terem uma conversa. Mikael disse que não havia problema.

Passou algumas horas guardando os papéis nas pastas e depois levando-as ao escritório de Henrik. Por fim, restaram só seus próprios cadernos de anotações e as duas pastas sobre o caso Hans-Erik Wennerström, que havia seis meses ele não abria. Suspirou e colocou-as na mala.

Dirch Frode se atrasou e só chegou às oito da noite. Ainda vestia a roupa de enterro e parecia muito preocupado quando se sentou no banco da cozinha. Aceitou com prazer a xícara de café que Lisbeth lhe serviu. Ela se sentou na outra mesa e concentrou-se em seu computador, enquanto Mikael perguntava como a ressurreição de Harriet repercutira na família.

— Pode-se dizer que eclipsou a morte de Martin. Mas a mídia também ficou sabendo do caso dela.

— E como vocês estão explicando a situação?

— Harriet conversou com um jornalista do Kuriren. Sua versão c que fugiu de casa porque não se entendia com a família, mas que, afinal, acabou se dando bem, pois hoje dirige uma empresa com um volume de negócios tão grande quanto o do grupo Vanger.

Mikael assobiou.

— Percebi que ovelhas australianas davam dinheiro, mas não sabia que chegava a tanto.

— A criação de ovelhas vai muito bem, mas não é a única fonte de renda. As empresas Cochran possuem também minas, refinam opalas, atuam no setor de transporte, de eletrônica e se dedicam a uma série de outras coisas.

— Não diga! E como foi a sequência dos acontecimentos?

— Para dizer a verdade, não sei. Pessoas foram chegando no transcorrer do dia e a família está reunida pela primeira vez depois de muitos anos. Vêm tanto do lado de Fredrik Vanger quanto do de Johann Vanger, e há muitos da nova geração, os que têm entre vinte e trinta anos. Deve haver uns quarenta Vanger em Hedestad agora à noite; uma metade está no hospital com Henrik, esgotando-o, e a outra metade no Grande Hotel, conversando com Harriet.

— Harriet é a grande sensação. Quantas pessoas estão sabendo da verdade sobre Martin?

— Por enquanto, somente eu, Henrik e Harriet. Tivemos uma longa conversa a sós. Essa história de Martin e de... suas perversões é a nossa principal preocupação hoje. A morte de Martin gerou uma crise enorme no grupo.

— Entendo.

— Não há um sucessor natural, mas Harriet vai ficar em Hedestad durante algum tempo. Entre outras coisas, precisamos ver quem possui o quê, como as heranças serão divididas, coisas do gênero. Harriet tem direito a uma parte da herança, que teria sido bem maior se ela tivesse ficado aqui o tempo todo. E uma situação complicada.

Mikael riu. Dirch Frode permaneceu sério.

— Isabella passou mal no enterro. Foi hospitalizada. Harriet se recusa a vê-la.

— Entendo.

— Por outro lado, Anita vai chegar de Londres. Convocamos um conselho de família para a próxima semana. Será a primeira vez em vinte e cinco anos que ela participa.

— Quem será o novo diretor-executivo?

— Birger luta pelo cargo, mas está fora de questão. O que vai acontecer é que Henrik reassumirá como diretor temporário até que alguém de fora seja contratado, ou então alguém da família...

Não terminou a frase. Mikael levantou as sobrancelhas.

— Harriet? Não está falando sério.

— Por que não? E uma mulher de negócios muito competente e respeitada.

— Ela tem uma empresa para dirigir na Austrália.

— Sim, mas seu filho Jeff Cochran dirige o negócio na ausência dela.

— Ele é studs manager numa criação de ovelhas. Se entendi direito, cuida para que as ovelhas se reproduzam bem.