Выбрать главу

— Também diplomou-se em economia pela Oxford e em direito em Melbourne.

Mikael pensou no homem musculoso e sem camisa que o conduzira pelo despenhadeiro e tentou imaginá-lo de terno e gravata. Por que não?

— Isso não se resolverá de uma hora para a outra — disse Frode. — Mas ela seria uma diretora-executiva perfeita. Com um apoio apropriado, poderia orientar o grupo para uma nova direção.

— Ela não tem experiência...

— E verdade. Claro que Harriet não pode surgir do nada depois de décadas e começar a dirigir tudo em detalhe. Mas o grupo Vanger é internacional e poderíamos trazer para cá um executivo americano que não fala uma palavra de sueco... para tocar o business, como dizem.

— Cedo ou tarde vocês vão ter que enfrentar o problema do porão de Martin.

— Eu sei. Mas não podemos revelar nada sem arruinar Harriet... Alegro-me de não ser eu a ter que tomar uma decisão sobre isso.

— Que merda, Dirch! Vocês não podem silenciar sobre Martin ter sido um assassino serial.

Dirch Frode contorceu-se em silêncio. Mikael sentiu de repente um gosto ruim na boca.

— Mikael, encontro-me numa... situação muito desconfortável.

— Fale.

— Tenho um recado de Henrik. É muito simples. Ele agradece a você pelo seu trabalho e diz que considera o contrato encerrado. Isso significa que o está liberando de outras obrigações e que você não está mais obrigado a viver e a trabalhar aqui em Hedestad et cetera. Ou seja, pode partir imediatamente para Estocolmo e dedicar-se a seus compromissos.

— Ele quer que eu desapareça de cena?

— De modo nenhum. Quer que mais tarde venha visitá-lo para conversarem sobre o assunto. Disse que espera poder manter sem restrições seus compromissos na direção da Millennium. Mas...

Dirch Frode pareceu ainda mais constrangido.

— Mas não quer mais que eu escreva uma crônica sobre a família Vanger, não é?

Frode assentiu com a cabeça. Pegou um caderno, abriu-o e entregou a Mikael.

— Ele escreveu esta carta para você.

Prezado Mikael!

Tenho o maior respeito pela sua integridade e não vou ofendê-lo tentando ditar o que deve escrever. Pode escrever e publicar exatamente o que quiser, não tenho a intenção de exercer a menor pressão sobre você.

Nosso contrato permanece em vigor, se quiser reivindicá-lo. Tem elementos suficientes para terminar a crônica sobre a família Vanger. Mikael, nunca implorei nada a ninguém em toda a minha vida. Sempre achei que um homem deve seguir sua moral e sua convicção. Mas desta vez não tenho escolha.

Peco-lhe, tanto como amigo quanto como co-proprietário da Millennium, que não revele a verdade sobre Gottfried e Martin. Sei que não é correto, mas não vejo nenhuma saída nessa escuridão. Devo escolher entre dois males, e só há perdedores.

Peco-lhe que não escreva nada que prejudique Harriet. Você viveu isso na pele, sabe o que significa ser objeto de uma campanha da imprensa. A campanha dirigida contra você foi de proporções relativamente modestas, mas imagine o que será de Harriet se a verdade for conhecida. Ela viveu um calvário durante quarenta anos e não precisa sofrer ainda mais pelos atos que o irmão e o pai dela cometeram. Então eu lhe peço que reflita nas consequências que essa história poderá ter para milhares de funcionários do grupo. Isso destruiria Harriet e nos aniquilaria.

Henrik

— Henrik disse também que, se você quiser exigir uma indenização pelas perdas ocasionadas pela não-publicação da história, ele está totalmente aberto a discutir isso. Pode propor as condições financeiras que quiser.

— Henrik Vanger está tentando me comprar. Diga-lhe que eu teria preferido que ele nunca tivesse me feito essa oferta.

— Essa situação é tão penosa para Henrik quanto para você. Ele gosta imensamente de você e o considera um amigo.

— Henrik Vanger é um sujeito esperto — disse Mikael, voltando a se irritar. — Ele quer abafar a história. Joga com os meus sentimentos e sabe que eu também gosto dele. O que ele está dizendo é que na prática eu tenho as mãos livres para publicar o que quiser, mas, se eu fizer isso, ele será obrigado a rever sua postura com relação à Millennium.

— Tudo mudou depois que Harriet reapareceu.

— E agora Henrik quer saber qual é o meu preço. Não vou entregar Harriet às feras, mas alguém precisa falar sobre as mulheres que Martin levou para o porão. Dirch, não sabemos quantas mulheres ele massacrou. Quem vai falar em nome delas?

Lisbeth Salander levantou de repente os olhos do computador. Sua voz tinha uma doçura desagradável quando ela se virou para Dirch Frode.

— No grupo de vocês não há ninguém com a intenção de comprar a mim também?

Frode olhou-a surpreso. Mais uma vez, ele havia ignorado a existência dela.

— Se Martin Vanger estivesse vivo neste instante, eu o entregaria às feras — ela prosseguiu. — Seja qual fosse o arranjo de vocês com Mikael, eu iria contar tudo sobre ele ao jornal mais próximo. E, se pudesse, o arrastaria à sua própria sala de tortura, o prenderia naquela mesa e lhe enfiaria agulhas nos colhões. Mas ele está morto.

Ela se virou para Mikael antes de continuar.

— O arranjo podre deles me convém. Nada do que fizermos poderá reparar o mal que Martin Vanger causou a suas vítimas. Mas por outro lado surgiu uma situação interessante. Você está numa posição em que pode continuar prejudicando mulheres inocentes, especialmente essa Harriet que você defendeu tão calorosamente quando voltávamos de carro para cá. Minha questão é a seguinte: o que é pior? Que Martin Vanger a tenha violentado na cabana ou que você faça isso em papel impresso? Você está diante de um belo dilema. O comitê de ética da Associação dos Jornalistas talvez possa te dar uma ideia de que caminho seguir.

Ela fez uma pausa. Mikael não conseguiu mais sustentar o olhar de Lisbeth Salander. Baixou os olhos para a mesa.

— Só que eu não sou jornalista — disse ela por fim.

— O que está querendo? — perguntou Dirch Frode soltando um suspiro

— Martin filmou suas vítimas. Quero que tentem identificar o maior número possível dessas mulheres e dêem às famílias delas uma compensação apropriada. E depois quero que o grupo Vanger faça uma doação anual e permanente de dois milhões de coroas ao SOS-Mulheres Vítimas de Maus-tratos. Por um minuto, Dirch Frode meditou no preço a pagar. Depois assentiu com a cabeça.

— Pode viver com isso, Mikael? — perguntou Lisbeth.

Mikael sentiu-se subitamente desesperado. Passara toda a sua vida profissional denunciando o que outros tentavam esconder, e sua moral o proibia de participar da ocultação dos crimes terríveis cometidos no porão de Martin Vanger. O objetivo de seu trabalho era justamente denunciar o que ele sabia. Não hesitava em criticar colegas que não contassem a verdade. No entanto, ali estava ele discutindo o abafamento do caso mais macabro de que jamais ouvira falar.

Permaneceu calado por um bom tempo. Depois também assentiu com a cabeça.

— Melhor assim. — Dirch Frode virou-se para Mikael. — E quanto à oferta de Henrik de uma compensação financeira...

— Enfie naquele lugar — disse Mikael. — E agora quero que vá embora, Dirch. Entendo sua posição, mas neste momento estou tão furioso com você, com Henrik e com Harriet que, se ficar, vamos deixar de ser amigos.

Dirch Frode permaneceu sentado à mesa sem fazer menção de se levantar.

— Ainda não posso ir — disse. — Não terminei. Tenho outro recado que você também não vai gostar. Henrik insistiu para que eu o transmitisse esta noite. Amanhã você pode ir ao hospital esfolá-lo, se quiser.