Mikael levantou devagar a cabeça e olhou Dirch bem nos olhos.
— E provavelmente a coisa mais difícil que já precisei fazer na vida — disse Frode. — Mas acho que agora apenas uma sinceridade total e todas as cartas na mesa podem salvar a situação.
— Diga logo.
— Quando Henrik o convenceu a aceitar esse trabalho no Natal passado, nem ele nem eu pensamos que iria dar em alguma coisa. Foi exatamente o que ele disse: queria fazer uma última tentativa. Ele examinou minuciosamente a sua situação, baseando-se muito no relatório feito pela senhorita Salander. Contou com seu isolamento, propôs uma boa remuneração e utilizou uma boa isca.
— Wennerström — disse Mikael. Frode assentiu com a cabeça.
— Vocês blefaram?
— Não.
Lisbeth Salander levantou uma sobrancelha, interessada.
— Henrik vai cumprir todas as suas promessas — continuou Frode. —Dará uma entrevista e lançará publicamente um ataque frontal contra Wennerström. Você terá todos os detalhes mais tarde, mas em linhas gerais o fato é o seguinte: quando Wennerström esteve ligado ao departamento financeiro do grupo Vanger, ele utilizou vários milhões de coroas para especular com moedas estrangeiras. Isso bem antes desse tipo de especulação se generalizar. Agiu por conta própria, sem pedir a autorização da direção. Os negócios não iam bem e ele se viu de uma hora para a outra com um déficit de sete milhões de coroas, que tentou cobrir, de um lado, mexendo na contabilidade e, de outro, especulando ainda mais. Foi desmascarado e despedido.
— Ele obteve ganhos pessoais nessas operações?
— Sim, desviou cerca de meio milhão de coroas, e o mais cômico dessa história, se é que se pode dizer assim, é que essa quantia serviu para fundar o grupo Wennerström. Temos provas de tudo. Você pode utilizar essa informação à vontade e Henrik sustentará publicamente suas afirmações. Mas...
— Mas essa informação não tem o menor valor! — disse Mikael, batendo com a mão na mesa.
Dirch Frode assentiu com a cabeça.
— Aconteceu há trinta anos e é um capítulo encerrado — disse Mikael.
— Mas você terá a confirmação de que Wennerström é um escroque.
— Wennerström se aborrecerá que isso venha a público, porém não será atingido mais que por uma bolinha de papel soprada num canudo. Dará de ombros e divulgará um comunicado de imprensa dizendo que Henrik Vanger é um velho ultrapassado que implica com ele sem motivo, depois afirmará que na verdade agiu por ordem de Henrik. Mesmo que não possa provar sua inocência, saberá espalhar fumaça suficiente para que a história logo perca o interesse.
Dirch Frode tinha um aspecto sinceramente pesaroso.
— Vocês me enganaram — disse Mikael por fim.
— Mikael... não era nossa intenção.
— A culpa é minha. Eu buscava indícios de falsidade e deveria ter entendido que esse era um deles. — Deu uma risada brusca, um riso seco. — Henrik é um velho tubarão. Tinha um produto para vender e me disse o que eu precisava ouvir.
Mikael levantou-se e foi até a bancada da cozinha. Virou-se para Frode e resumiu seus sentimentos em duas palavras.
— Vá embora.
— Mikael... lamento que...
— Caia fora, Dirch!
Lisbeth Salander não sabia se devia se aproximar de Mikael ou deixá-lo em paz. Ele resolveu o problema para ela ao pegar de repente a jaqueta, sem dizer nada, e bater a porta atrás de si.
Durante mais de uma hora, ela andou de um lado para o outro na cozinha. Sentia-se tão inquieta que limpou a mesa e lavou a louça — tarefa que normalmente deixava para Mikael. Várias vezes foi até a janela espiar. Por fim, resolveu pôr sua jaqueta de couro e ir procurá-lo.
Primeiro foi até o porto de recreio, onde havia luzes ainda nas janelas, mas não viu sinal de Mikael. Seguiu o caminho da praia, onde eles faziam seus passeios noturnos. A casa de Martin Vanger estava às escuras e já se notava que não era mais habitada. Foi até a pedra do promontório, onde Mikael e ela costumavam se sentar, depois retornou para casa. Ele ainda não tinha voltado.
Lisbeth foi procurar do lado da igreja. Nenhum sinal de Mikael também. Ela hesitou um momento, perguntando-se o que devia fazer. Resolveu pegar a moto, pôs uma lanterna no estojo debaixo do assento e partiu pelo caminho da praia outra vez. Demorou um pouco até pegar o atalho invadido em parte pela vegetação e mais algum tempo até encontrar a trilha que conduzia à cabana de Gottfried. Avistou-a de repente na escuridão, atrás de algumas árvores, quando estava quase chegando. Não viu Mikael na varanda e a porta estava trancada.
Já ia voltar ao povoado, quando se deteve ao avistar a silhueta de Mikael no escuro, no pontão onde Harriet afogara o pai. Deu um suspiro de alívio.
Mikael percebeu que ela se aproximava pelo barulho das tábuas e se virou. Ela sentou ao lado dele sem dizer nada. Por fim ele rompeu o silêncio.
— Desculpe. Eu precisava ficar um pouco sozinho.
— Eu entendo.
Ela acendeu dois cigarros e estendeu um a ele. Mikael olhou para ela. Lisbeth Salander era a pessoa mais anti-social que ele conhecera; recusava-se a falar de coisas pessoais e nunca aceitara a menor demonstração de simpatia dele. Tinha salvado sua vida e agora saía no meio da noite para procurá-lo pela ilha. Ele pôs um braço em torno dela.
— Agora sei o quanto valho. Abandonamos todas aquelas mulheres — disse. — Eles vão abafar a história. Tudo que há no porão de Martin vai desaparecer.
Lisbeth não respondeu.
— Erika tinha razão — ele continuou. — Teria sido melhor se eu tivesse ido à Espanha dormir com as espanholas por um mês, depois voltar a me encarregar de Wennerström. Foram meses jogados fora.
— Se você tivesse ido à Espanha, Martin Vanger continuaria agindo no seu porão.
Silêncio. Eles ficaram ali juntos por bastante tempo até que Mikael se levantou e propôs que voltassem.
Mikael adormeceu antes de Lisbeth. Ela ficou acordada escutando a respiração dele. Esperou um momento, depois foi à cozinha fazer café. Sentou-se no banco, no escuro, e fumou vários cigarros enquanto refletia intensamente. Para ela, era evidente que Vanger e Frode iam enganar Mikael. Essa gente era assim por natureza. Mas o problema era de Mikael, e não dela. Ou era?
Acabou tomando uma decisão. Esmagou o cigarro, foi para junto de Mikael, acendeu a lâmpada de cabeceira e sacudiu-o até que despertasse. Eram duas e meia da manhã.
— Que foi?
— Tenho uma pergunta pra te fazer. Sente-se. Mikael sentou-se, ainda sonolento.
— Quando você foi condenado por difamação, por que não se defendeu? Mikael sacudiu a cabeça e olhou para ela. Depois olhou para o despertador.
— É uma longa história, Lisbeth.
— Conte. Não tenho pressa.
Ele permaneceu um bom tempo em silêncio, refletindo sobre o que deveria dizer. Por fim decidiu contar a verdade.
— Eu não tinha como me defender. O conteúdo do artigo estava errado.
— Quando pirateei seu computador e os e-mails que você trocou com Erika Berger, havia muitas referências ao caso Wennerström, mas sempre para discutir detalhes práticos do processo e nunca o que realmente aconteceu. O que foi que não deu certo?
— Lisbeth, não posso revelar a verdadeira história. Caí numa armadilha. Erika e eu estamos totalmente de acordo que seria ainda mais prejudicial à nossa credibilidade se tentássemos contar o que de fato se passou.
— Então me diga, Super-Blomkvist. Ontem à tarde você me passou um sermão sobre amizade, confiança e não sei mais o quê. Acha que estou pretendendo divulgar a sua história pela internet?
Mikael protestou uma ou duas vezes. Lembrou a Lisbeth que era madrugada e que não tinha ânimo para pensar no assunto. Ela permaneceu obstinadamente sentada até ele ceder. Mikael foi lavar o rosto e esquentar o café. Então voltou para a cama e contou como, dois anos antes, seu ex-colega de classe Robert Lindberg havia despertado sua curiosidade na cabine de um veleiro atracado na marina de Arholma.