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Lisbeth refletiu até a balsa atracar ao pé do Grande Hotel. Análise das consequências. Com relutância, ela acabou permitindo que Mikael a apresentasse a Erika. Ele ligou o celular e chamou.

Erika recebeu o telefonema de Mikael em meio a um almoço profissional com Malu Eriksson, que ela pretendia contratar como secretária de redação. Malu tinha vinte e nove anos e havia trabalhado como substituta durante cinco anos. Nunca teve emprego fixo e começava a perder as esperanças de encontrar um. Nenhum anúncio havia sido feito para o cargo; Erika entrou em contato com Malu através de um velho colega jornalista. Chamou-a no mesmo dia em que Malu terminava uma substituição, para saber se lhe interessava um bico na Millennium.

— É apenas por três meses — disse Erika. — Mas, se der certo, posso vir a contratá-la.

— Ouvi boatos de que a Millennium em breve vai fechar.

— Não acredite em boatos.

— Esse Dahlman que devo substituir... — Malu hesitou. — Ele vai para um dos jornais de Hans-Erik Wennerström...

Erika assentiu com a cabeça.

— Não é segredo para ninguém nesse meio que estamos em litígio com Wennerström. Ele não gosta de pessoas que trabalham na Millennium.

— Isso significa que, se eu aceitar o cargo, também vou ser incluída nessa categoria.

— É muito provável que sim.

— Mas Dahlman conseguiu trabalho no Finansmagasinet...

— Pode-se dizer que é a retribuição de Wennerström pelos serviços prestados por Dahlman. Ainda está interessada?

Malu refletiu um instante e depois assentiu com a cabeça.

— Quer que eu comece quando?

Foi nesse momento que Mikael Blomkvist chamou, interrompendo a entrevista de contratação.

Erika utilizou as próprias chaves para abrir a porta do apartamento de Mikael. Era a primeira vez, desde a breve aparição dele no final de junho, que ela o encontrava. Entrou na sala e viu uma jovem de uma magreza anoréxica sentada no sofá, vestindo uma jaqueta de couro gasto e com os pés apoiados na mesinha de centro. A princípio, deu uns quinze anos à moça, até ver seus olhos. Contemplava essa aparição quando Mikael chegou trazendo café e biscoitos.

Mikael e Erika se examinaram.

— Desculpe meu comportamento estranho — disse Mikael.

Erika inclinou a cabeça para o lado. Alguma coisa havia mudado em Mikael. Parecia mais sofrido, mais magro. Seus olhos estavam envergonhados, e por um breve segundo ele evitou o olhar dela. Erika olhou para o pescoço, onde se via uma mancha amarelada, pálida mas muito distinta.

— Andei evitando você. É uma longa história e não estou muito orgulhoso do meu papel nela. Mas falaremos disso mais tarde... Agora, gostaria de apresentá-la a essa jovem. Erika, essa é Lisbeth Salander. Lisbeth, Erika Berger é a diretora de publicação da Millennium e minha melhor amiga.

Lisbeth observou as roupas elegantes e a aparência segura de Erika, e em menos de dez segundos concluiu que ela não seria sua melhor amiga.

A reunião durou cinco horas. Erika telefonou duas vezes para desmarcar outras reuniões. Dedicou uma hora à leitura de algumas partes do texto que Mikael lhe pôs nas mãos. Tinha mil perguntas a fazer, mas percebeu que levaria semanas antes de obter uma resposta. O importante era o texto, que ela acabou colocando a seu lado. Se uma parte mínima daquelas afirmações fosse correta, eles estavam diante de uma situação totalmente nova.

Erika olhou para Mikael. Nunca duvidara da honestidade dele, mas bastou um segundo para sentir uma vertigem e se perguntar se o caso Wennerström não teria afetado a mente dele — se não o fizera imaginar coisas. No mesmo instante, Mikael lhe mostrou duas caixas cheias de dados impressos. Erika empalideceu. Naturalmente quis saber como havia obtido aquele material.

Foi preciso um bom tempo para convencê-la de que a estranha jovem, que ainda não pronunciara uma só palavra, tinha acesso irrestrito ao computador de Hans-Erik Wennerström. E não só isso: também havia pirateado vários dos computadores de seus advogados e colaboradores próximos.

A reação natural de Erika foi dizer que eles não podiam utilizar esse material, pois fora obtido por meios ilícitos.

Mas isso não era um empecilho. Mikael lembrou-a de que eles não eram obrigados a declarar como haviam obtido as informações. Podiam muito bem contar com uma fonte que tivera acesso ao computador de Wennerström e copiara seu disco rígido em alguns CDs.

Erika logo se deu conta da arma que tinha nas mãos. Sentia-se exausta e gostaria de fazer algumas perguntas, mas não sabia por onde começar. Por fim, deixou-se cair no sofá e balançou a cabeça.

— Mikael, o que aconteceu em Hedestad?

Lisbeth Salander levantou vivamente a cabeça. Mikael ficou em silêncio por um longo tempo. Respondeu fazendo outra pergunta.

— Como está se entendendo com Harriet Vanger?

— Bem, eu acho. Estive com ela duas vezes. Christer e eu fomos a Hedestad na semana passada para uma reunião do conselho administrativo. Exageramos um pouco no vinho, ficamos bem embriagados.

— E como foi a reunião?

— Harriet cumpre suas promessas.

— Ricky, sei que você está frustrada de ver que estou me esquivando e inventando pretextos para não falar. Nunca tivemos segredos um para o outro e, de repente, tenho seis meses da minha vida que... não consigo te contar.

Erika olhou Mikael bem nos olhos. Conhecia-o de cor, mas o que viu em seus olhos era algo completamente novo. Ele parecia suplicar, implorar que ela não perguntasse. Ela abriu a boca e olhou para ele totalmente desamparada. Lisbeth observava essa conversa muda com um olhar neutro. Não se intrometeu.

— Foi tão catastrófico assim?

— Pior. Tenho medo dessa conversa. Prometo te contar, mas passei vários meses reprimindo meus sentimentos e deixando meu interesse se voltar todo para Wennerström... Ainda não estou inteiramente preparado. Preferiria que Harriet tivesse te contado.

— O que são essas marcas no pescoço?

— Lisbeth salvou a minha vida. Se não fosse ela, eu estaria morto agora. Erika arregalou os olhos. Ela olhou a moça da jaqueta de couro.

— E agora você precisa fazer um acordo com ela. Ela é a nossa fonte. Erika ficou imóvel durante um bom tempo, refletindo. Então fez uma coisa que desconcertou Mikael e chocou Lisbeth, e que surpreendeu a ela própria também. O tempo todo em que estivera junto à mesa da sala de Mikael, ela sentira o olhar de Lisbeth Salander. Uma moça taciturna com vibrações hostis.

Erika levantou-se, contornou a mesa e tomou Lisbeth nos braços. Lisbeth defendeu-se como uma minhoca sendo enfiada num anzol.

29.  SÁBADO 1° DE NOVEMBRO TERÇA-FEIRA 25 DE NOVEMBRO

Lisbeth Salander navegava no ciberimpério de Hans-Erik Wennerström, Estava grudada à tela do computador havia mais de onze horas. A ideia vaga que se materializara num canto inexplorado de seu cérebro, na última semana em Sandhamn, transformara-se numa atividade obsessiva. Durante quatro semanas, isolou-se em seu apartamento e ignorou todos os chamados de Dragan Armanskij. Passou de doze a quinze horas por dia na frente do monitor e, no resto do tempo em que estava acordada, pensava no mesmo problema.

Ao longo do mês, teve contatos esporádicos com Mikael Blomkvist; ele estava tão obcecado e ocupado quanto ela com seu trabalho na redação da Millennium. Duas ou três vezes por semana conversavam por telefone e ela o mantinha continuamente informado sobre a correspondência de Wennerström e de seus outros negócios.

Pela centésima vez, repassou cada detalhe. Não temia ter esquecido alguma coisa, mas não estava certa de haver entendido o que reunia todas aquelas conexões complexas.