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— Mas...

— Não quero uma única coroa. — Ela sorriu de esguelha, de repente. — A menos que elas venham sob a forma de um presente de aniversário.

— Agora é que me dei conta que não sei quando é o seu aniversário.

— O jornalista é você. Descubra.

— Sinceramente, Sally, estou falando sério quando digo que quero dividir o dinheiro com você.

— Eu também estou falando sério. Não quero o seu dinheiro. Quero as cento e vinte mil coroas emprestadas, e preciso delas para amanhã.

Mikael Blomkvist calou-se. Ela nem quer saber qual é o valor da sua parte.

— Sally, irei hoje ao banco com você e emprestarei o que você me pede. Mas no fim do ano teremos uma outra conversa sobre a sua parte. — Ele levantou a mão. — Por falar nisso, quando é o seu aniversário?

— Trinta de abril — ela respondeu. — Não é perfeito? Sempre saio com uma vassoura entre as pernas para festejar com as feiticeiras a noite de santa Walpurgis.

Ela aterrissou em Zurique às sete e meia da noite e tomou um táxi até o hotel Matterhorn. Havia feito uma reserva sob o nome de Irene Nesser e apresentou um passaporte norueguês com esse nome. Irene Nesser tinha cabelos louros um pouco compridos. Ela comprara a peruca em Estocolmo e utilizara dez mil coroas do empréstimo de Mikael Blomkvist para adquirir dois passaportes através de seus contatos obscuros com a rede internacional de Praga.

Subiu para o seu quarto, trancou a porta e se despiu. Estendeu-se na cama e ficou olhando para o teto do quarto, cuja diária era de mil e seiscentas coroas. Sentiu-se vazia. Já havia gasto a metade da quantia que Mikael emprestara e, embora tivesse juntado o que tinha em sua própria poupança, seu orçamento era estreito. Parou de pensar e adormeceu imediatamente.

Despertou pouco depois das cinco da manhã. Primeiro tomou um banho e depois passou um bom tempo camuflando a tatuagem do pescoço com uma espessa camada de base e pó. O segundo item da lista era uma hora marcada num salão de beleza, no saguão de um hotel consideravelmente bem mais caro, às seis e meia. Comprou mais uma peruca loura, com franja reta, depois foi à manicure para aplicar falsas unhas vermelhas sobre suas unhas roídas, falsos cílios, mais pó, blush, batom e outros embelezamentos. Custo: um pouco mais de oito mil coroas.

Pagou com um cartão de crédito de Verônica Sholes e apresentou como identidade um passaporte inglês com esse nome.

A parada seguinte foi na Camille's House of Fashion, cento e cinquenta metros adiante. Uma hora depois, saiu vestida com botas pretas, saia cor de areia combinando com a blusa, casaco curto e boina. Apenas peças caras, de grife. Teve o cuidado de deixar que a vendedora escolhesse as roupas. Comprou ainda uma luxuosa maleta de couro e uma bolsa de mão Samsonite. Para completar, brincos discretos e uma corrente de ouro ao redor do pescoço. O cartão de crédito acusou um débito de quarenta e quatro mil coroas.

Pela primeira vez na vida, Lisbeth Salander tinha também um busto que, quando se olhou no espelho da porta, a fez perder a respiração. Os seios eram tão falsos como a identidade de Verônica Sholes. Eram de borracha e tinham sido comprados numa loja de Copenhague frequentada por travestis.

Lisbeth Salander estava pronta para o combate.

Pouco depois das nove, ela caminhou duas quadras até o respeitável hotel Zimmertal, onde reservara um quarto em nome de Verônica Sholes. Deu o equivalente a cem coroas de gorjeta a um rapaz que carregou a maleta que acabara de comprar e onde estava sua sacola de viagem. A suíte era pequena e a diária era de apenas vinte e duas mil coroas. Ela fizera a reserva para uma noite. Quando ficou sozinha, olhou ao redor. A janela oferecia uma vista esplêndida para o lago de Zurique, o que não a interessou nem um pouco. Passou os cinco minutos seguintes examinando-se, de olhos arregalados, num espelho. Via uma pessoa totalmente diferente. Verônica Sholes, de peitos generosos e cabelos com franja reta, tinha mais maquiagem no rosto que a que Lisbeth usaria em um mês. Ela parecia... diferente.

Às nove e meia, desceu ao bar do hotel para tomar o café-da-manhã, que consistiu em duas xícaras de café e um bagel com geléia. Custo: duzentas e dez coroas. Mas não são mesmo doidas as pessoas que pagam isso?

Pouco antes das dez da manhã, Verônica Sholes pousou sua xícara de café na mesa, pegou seu telefone celular e digitou um número que a conectava ao Havaí. Depois de três chamadas, ouviu um sinal que confirmava a conexão via modem. Verônica Sholes respondeu digitando um código de seis algarismos no celular e enviou uma mensagem de texto com a instrução para que fosse aberto um programa que Lisbeth Salander havia preparado exatamente para essa finalidade.

Em Honolulu, o programa foi acionado num site anônimo de um servidor formalmente situado na universidade. O programa era simples. Sua única função consistia em enviar instruções que abriam outro programa em outro servidor, no caso um site comercial muito conhecido que oferecia serviços pela internet na Holanda. Esse programa, por sua vez, tinha como tarefa procurar o disco rígido espelhado de Hans-Erik Wennerström e assumir o comando do programa que gerenciava o conteúdo de mais de três mil contas bancárias no mundo inteiro.

Somente uma apresentava algum interesse. Lisbeth Salander observara que Wennerström verificava essa conta duas ou três vezes por semana. Se ele fosse buscar justamente esse arquivo em seu computador, tudo pareceria normal. O programa assinalava pequenas mudanças esperadas, calculadas segundo a evolução da conta nos últimos seis meses. Se Wennerström entrasse na conta nas próximas quarenta e oito horas e emitisse ordens de pagamento ou de transferência, o programa registraria obedientemente esses pedidos. Mas na verdade a mudança ocorreria apenas no disco rígido espelhado na Holanda.

Verônica Sholes desligou seu celular no momento em que ouviu quatro breves sinais confirmando que o programa fora acionado.

Ela deixou o Zimmertal e foi até o Bank Hauser General, em frente ao hotel, onde havia marcado um encontro com um certo Herr Wagner, diretor, às dez da manhã. Chegou três minutos antes e utilizou esse tempo de espera para ficar bem em frente à câmera de segurança, que a fotografou quando ela se dirigiu às salas de consultas privadas.

—Estou precisando de ajuda para algumas transações — disse Verônica Sholes num impecável inglês de Oxford. Quando abriu sua pasta de documentos, deixou cair sem querer uma caneta com o logotipo do hotel Zimmerhil, que indicava que ela estava hospedada lá. O diretor Wagner gentilmente pegou a caneta e lhe devolveu. Ela lançou-lhe um sorriso malicioso e anotou o número da conta num bloco colocado à sua frente na mesa.

O diretor Wagner a examinou rapidamente e a classificou como a filha mimada de algum ricaço.

— São algumas contas no Banco de Kroenenfeld nas ilhas Caimãs. Transferência automática mediante códigos de compensação bancária.

Fräulein Sholes, imagino que a senhorita tenha todos os códigos de compensação...

Aber natürlich — ela respondeu, com um sotaque tão pronunciado que ficou evidente seu conhecimento mínimo do alemão.

Ela começou a recitar séries de números de dezesseis algarismos sem recorrer ao papel uma única vez. O diretor Wagner viu que a manhã ia ser trabalhosa, mas por quatro por cento sobre as transferências estava disposto a atrasar o almoço.

Levou mais tempo do que ela previa. E somente depois do meio-dia, um pouco atrasada em seus horários, é que Verônica Sholes deixou o Bank Hauser General para retornar ao hotel Zimmertal. Exibiu-se na recepção antes de subir ao quarto e tirar as roupas que acabara de comprar. Conservou os seios de borracha, mas substituiu a peruca pela de cabelos louros mais compridos de Irene Nesser. Vestiu roupas mais familiares: botas de salto alto, calça preta, uma blusa e uma elegante jaqueta de couro comprada na Malungsboden, em Estocolmo. Examinou-se no espelho. Sua aparência continuava bem-cuidada, mas sem sinais da herdeira rica. Antes de deixar o quarto, Irene Nesser contou algumas debêntures, que acomodou numa pequena pasta.