À uma e cinco da tarde, com alguns minutos de atraso, entrou no Bank Dorffmann, situado a cerca de setenta metros do Bank Hauser General. Irene Nesser marcara um encontro com um certo Herr Hasselmann, diretor. Desculpou-se pelo atraso num alemão perfeito com sotaque norueguês.
— Não há problema, Fräulein — disse o diretor Hasselmann. — Em que posso ajudá-la?
— Gostaria de abrir uma conta. Tenho algumas debêntures que desejo resgatar.
Irene Nesser pôs a pasta em cima da mesa.
O diretor Hasselmann percorreu o conteúdo, primeiro bem depressa, depois mais e mais devagar. Levantou uma sobrancelha e sorriu educadamente.
Ela abriu cinco contas que podia movimentar pela internet e cujo titular era uma empresa-fantasma particularmente anônima em Gibraltar, que um intermediário local abrira para ela mediante cinquenta mil coroas emprestadas de Mikael Blomkvist. Ela converteu cinquenta debêntures em dinheiro, que foi depositado nas contas. Cada debênture tinha o valor de um milhão de coroas.
Seus negócios no Bank Dorffmann demoraram muito tempo e ela se atrasou ainda mais no seu cronograma. Não teria tempo para concluir as demais operações antes do fechamento dos bancos no dia. Irene Nesser voltou então ao hotel Matterhorn, onde passou uma hora exibindo-se e marcando presença. Mas estava com dor de cabeça e em seguida se retirou. Comprou analgésicos na recepção, pediu para ser acordada às oito da manhã seguinte e voltou ao quarto.
Eram quase cinco da tarde e todos os bancos da Europa já estavam fechados. No continente americano, porém, os bancos acabavam de abrir. Ela pôs seu Powerbook para funcionar e conectou-se à internet pelo celular. Passou uma hora esvaziando as contas recém-abertas no Bank Dorffmann.
O dinheiro foi dividido em partes e utilizado para pagar faturas de um grande número de empresas-fantasmas no mundo inteiro. Quando terminou, o dinheiro fora curiosamente transferido de novo para o Bank of Kroenenfeld nas ilhas Caimãs, mas desta vez numa conta diferente daquela de onde saíra mais cedo naquele mesmo dia.
Irene Nesser considerou que essa primeira etapa estava segura e que era quase impossível de ser rastreada. Fez uma única retirada dessa conta; um pouco mais de um milhão de coroas foi transferido para uma conta vinculada a um cartão de crédito que ela utilizava. O titular da conta era uma sociedade anônima com o nome Wasp Enterprises, registrada em Gibraltar.
Alguns minutos depois, uma loura de franja deixou o Mattherhorn por uma porta lateral do bar do hotel. Verônica Sholes foi ao hotel Zimmertal, cumprimentou o recepcionista com um educado gesto de cabeça, pegou o elevador e subiu até seu quarto.
Dedicou-se então a vestir o uniforme de combate de Verônica Sholes, refazendo a maquiagem e pondo uma camada suplementar de base sobre a tatuagem, antes de descer ao restaurante do hotel para comer um delicioso peixe. Pediu uma garrafa de vinho do Porto do qual nunca ouvira falar mas que custava mil e duzentas coroas, bebeu apenas um copo e deixou negligentemente o resto, antes de dirigir-se ao bar do hotel. Distribuiu quinhentas coroas de gorjeta, o que lhe valeu a atenção dos atendentes.
Passou três horas flertando com um jovem italiano bêbado, com um nome aristocrático que ela nem se deu o trabalho de guardar. Dividiram duas garrafas de champanhe, das quais ela consumiu apenas um copo.
Por volta das onze da noite, o sedutor de bigodes inclinou-se e apalpou seus seios sem o menor constrangimento. Satisfeita, ela afastou sua mão. Ele parecia não ter notado que apalpara seios de borracha. Em vários momentos, comportaram-se de maneira bastante indiscreta para causar uma certa indignação nos outros hóspedes. Pouco antes da meia-noite, notando que o segurança começava a ficar de olho neles, Verônica Sholes ajudou seu amigo italiano a subir ao quarto dele.
Enquanto ele estava no banheiro, serviu-lhe um último copo de vinho tinto. Abriu um saquinho de papel e adicionou ao vinho uni comprimido de sonífero triturado. Ele bebeu e, um minuto depois, jazia de bruços sobre a cama. Ela desatou-lhe o nó da gravata, tirou seus sapatos, lavou os copos no banheiro e os enxugou. Então deixou o quarto.
No dia seguinte, Verônica Sholes tomou o café-da-manhã em seu quarto às seis, deixou uma gorjeta generosa, pagou a conta e foi embora do Zirnmertal quando não eram ainda sete horas. Antes de deixar o quarto, passou cinco minutos apagando as impressões digitais em maçanetas de porta, armários, pia do banheiro, aparelho de telefone e em outros objetos que havia tocado.
Irene Nesser fechou sua conta no hotel Matterhorn por volta das oito e meia, pouco depois de acordar. Tomou uni táxi e deixou suas malas num guarda-volumes da estação ferroviária. Passou as horas seguintes indo a nove bancos, nos quais depositou partes das debêntures das ilhas Caimàs. Às três da tarde, havia convertido cerca de dez por cento das debentures em dinheiro, depositado em cerca de trinta contas. Guardou o restante dos títulos num cofre bancário.
Irene Nesser teria de voltar a Zurique, mas não havia pressa.
Às quatro e meia, Irene Nesser tomou um táxi até o aeroporto. Foi ao banheiro e com uma tesoura destruiu o passaporte e o cartão de crédito de Verônica Sholes, fazendo-os sumir com a descarga de água na privada. Jogou a tesoura num cesto de lixo. Depois do 11 de setembro de 2001, não era aconselhável chamar a atenção com objetos pontiagudos na bagagem de mão.
Irene Nesser embarcou no voo CD 890 da Lufthansa para Oslo, depois pegou um ônibus até a estação ferroviária central da cidade, onde foi ao banheiro fazer uma triagem de suas roupas. Pôs todos os pertences da personagem Verônica Sholes — a peruca e as roupas de grife — em três sacos plásticos, que jogou em diferentes lixeiras da estação. Deixou a bolsa Samsonite, vazia, num compartimento aberto do guarda-volumes. A corrente de ouro e os brincos eram objetos de designer cuja pista poderia ser seguida; ela os fez sumir numa boca de lobo.
Após um momento de uma angustiada hesitação, Irene Nesser decidiu conservar os seios falsos de borracha.
Dispondo de pouco tempo, fez um lanche rápido, um hambúrguer no McDonald's, enquanto transferia o conteúdo da luxuosa maleta de couro para sua sacola de viagem. Ao sair, deixou a maleta vazia em cima da mesa. Comprou um copo de caffè latte num quiosque e correu para pegar o trem noturno com destino a Estocolmo bem no momento em que anunciavam a partida. Havia reservado uma cabine no vagão-leito.
Só depois que trancou a porta da cabine é que sentiu sua adrenalina baixar a um nível normal pela primeira vez em dois dias. Abriu a janela e, desrespeitando a proibição de fumar, acendeu um cigarro para acompanhar o café enquanto o trem se afastava de Oslo.
Repassou mentalmente sua cheklist, para ter certeza de que não esquecera nenhum detalhe. Um momento depois, franziu o cenho e tateou os bolsos da jaqueta. Tirou de lá a caneta do hotel Zimmertal, avaliou-a pensativamente por um minuto ou dois e em seguida jogou-a pela janela.
Quinze minutos depois, esticou-se no leito e dormiu quase instantaneamente.
EPÍLOGO: ACERTO DE CONTAS – QUINTA-FEIRA 27 DE NOVEMBRO A TERÇA-FEIRA 30 DE DEZEMBRO
A edição temática da Millennium sobre Hans-Erik Wennerström tinha quarenta e seis páginas e caiu como uma bomba na última semana de novembro. A matéria principal era assinada por Mikael Blomkvist e Erika Berger. Nas primeiras horas, a imprensa não soube muito bem como lidar com esse furo; um texto do mesmo gênero, publicado um ano antes, condenara Mikael Blomkvist a uma pena de prisão por difamação e ocasionara seu aparente afastamento da revista Millennium. Sua credibilidade, portanto, era bastante frágil. E eis que o mesmo jornalista voltava na mesma revista com uma história carregada de acusações bem mais pesadas que o texto pelo qual fora condenado. O conteúdo parecia às vezes tão absurdo que alguns suspeitaram da saúde mental dos autores. Assim, a imprensa sueca permaneceu desconfiada e na expectativa.