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Tratava-se de um calhamaço de seiscentas e quinze páginas em formato de bolso. A pequena tiragem de dois mil exemplares antevia um lançamento a fundo perdido, mas a primeira edição esgotou-se em poucos dias e Erika rapidamente providenciou uma reimpressão de mais dois mil exemplares.

Os críticos constataram que desta vez Mikael Blomkvist não havia economizado munição no que se referia à divulgação de suas fontes, e nisso tinham toda a razão. Dois terços do livro eram dedicados a anexos, com cópias diretas da documentação proveniente do computador de Wennerström. Juntamente com a publicação do livro, a Millennium disponibilizou em seu site trechos dessas páginas sob forma de dados que podiam ser baixados no formato PDF. Qualquer um que se interessasse podia ter acesso a esses dados.

A estranha ausência de Mikael Blomkvist fazia parte da estratégia de mídia que Erika e ele haviam montado. Todos os jornais do país o procuravam. Para o lançamento do livro, porém, Mikael concedeu uma entrevista exclusiva ao programa Ela da TV4, que mais uma vez saiu na frente das tevês públicas. Não se tratava, porém, de uma conversa entre amigos, e as perguntas foram tudo menos obsequiosas.

Ao assistir ao vídeo da entrevista, Mikael ficou particularmente satisfeito com seu desempenho numa troca de réplicas. A entrevista fora realizada ao vivo no momento em que a Bolsa de Estocolmo estava em queda livre e jovens arrivistas do mundo financeiro ameaçavam se jogar pela janela. Perguntaram-lhe sobre a responsabilidade da Millennium no naufrágio da economia sueca que ocorria naquele momento.

— Afirmar que a economia da Suécia está naufragando é um contra-senso — respondeu Mikael sem pestanejar.

A entrevistadora da TV4 mostrou-se perplexa. A resposta não seguia o esquema previsto e ela foi obrigada a improvisar. A pergunta seguinte foi exata-mente a que Mikael esperava: "Estamos passando pelo maior desastre individual da história da Bolsa sueca e o senhor afirma que é um contra-senso?".

— Veja, não podemos misturar estas duas coisas: a economia sueca e o mercado da Bolsa sueca. A economia sueca é a soma de todas as mercadorias e de todos os serviços produzidos neste país diariamente. São os telefones da Ericsson, os veículos da Volvo, os frangos da Scan e os transportes marítimos de Kiruna a Skövde. Essa é a economia sueca, e hoje ela continua tão forte ou tão fraca quanto uma semana atrás.

Fez uma pausa retórica e bebeu um gole de água.

— A Bolsa é algo bem diferente. Nela não há economia, nenhuma produção de mercadorias ou de serviços. Há somente fantasias nas quais, de uma hora para outra, decide-se que essa ou aquela empresa vale alguns bilhões a mais ou a menos. Isso não tem nada a ver com a realidade nem com a economia sueca.

— Quer dizer então que não tem a menor importância que a Bolsa esteja cm plena queda livre?

— Isso mesmo, não tem a menor importância — respondeu Mikael com uma voz tão cansada e resignada que ele parecia uma espécie de oráculo. Sua frase seguinte seria citada mais de uma vez ao longo do ano. Ele prosseguiu: — Significa apenas que os grandes especuladores estão transferindo suas aplicações financeiras em empresas suecas para empresas alemãs. Se comportam como as hienas das finanças que um repórter um pouco mais corajoso deveria saber identificar e levar ao pelourinho como traidores da pátria. São eles que, de forma sistemática e deliberada, minam a economia sueca para satisfazer os interesses de seus clientes.

Em seguida, a entrevistadora da TV4 cometeu o erro de fazer exatamente a pergunta que Mikael desejava ouvir.

— Então está querendo dizer que a mídia não tem nenhuma responsabilidade?

— Ao contrário, a mídia tem uma enorme responsabilidade. Durante pelo menos vinte anos, um grande número de jornalistas econômicos se omitiu de examinar o caso Hans-Erik Wennerström. Em vez disso, esses jornalistas ajudaram a construir o prestígio dele através de retratos idólatras e delirantes. Se tivessem trabalhado corretamente durante todos esses anos, não estaríamos nessa situação hoje.

Sua aparição significou uma mudança de atitude. Erika foi percebendo que somente no instante em que Mikael defendia calmamente suas acusações na televisão é que a imprensa sueca ia entendendo, embora a Millennium figurasse nas manchetes havia uma semana, que a história era consistente e que as alegações da revista eram de fato reais. A atitude dele determinou o rumo da história.

Depois dessa entrevista, o caso Wennerström passou imperceptivelmente da área de economia para a da reportagem policial. Houve também uma mudança na maneira de pensar da imprensa. Antes, os repórteres policiais raramente, ou nunca, escreviam sobre crimes econômicos, exceto para falar da máfia russa ou dos contrabandistas de cigarros iugoslavos. Não se esperava que repórteres policiais investigassem as operações escusas da Bolsa. Um jornal vespertino chegou a levar ao pé da letra o que Mikael havia dito e abriu duas páginas duplas com fotos de um dos corretores mais importantes de agências financeiras adquirindo títulos alemães. A manchete do jornaclass="underline" "Eles estão vendendo o país". Os corretores foram convidados a comentar as acusações. Todos se recusaram. Mas o volume de transações diminuiu consideravelmente nesse dia e alguns corretores desejosos de parecer progressistas começaram a remar contra a corrente. Mikael Blomkvist divertia-se a valer.

A pressão foi tão forte que homens sérios de terno escuro assumiram um ar grave e pecaram contra a regra número um do círculo mais fechado das finanças suecas — pronunciaram-se sobre um colega. De repente, dirigentes aposentados da Volvo, industriais e diretores de banco apareceram na tevê respondendo às perguntas e tentando diminuir os prejuízos. Todos admitiam a gravidade da situação e queriam se distanciar o mais rápido possível do grupo Wennerström, desembaraçando-se de suas ações. Wennerström (eles constataram quase por unanimidade) não era um verdadeiro industrial e nunca fora inteiramente aceito no "clube". Alguém lembrou que, no fundo, era apenas um filho de operário do Norrland que talvez tivesse se deixado levar pelo sucesso. Outro descreveu suas ações como uma tragédia pessoal. Não faltou quem dissesse que sempre duvidara de Wennerström — era muito arrogante e mal-educado.

Nas semanas seguintes, à medida que os documentos que a Millennium apresentara eram examinados com lupa e o quebra-cabeça remontado, foi estabelecida a ligação entre o império wernnerströmiano de empresas obscuras e a máfia internacional, que englobava tudo, desde o tráfico de armas e a lavagem de dinheiro vindo do tráfico sul-americano de drogas até a prostituição em Nova York e até mesmo, indiretamente, o comércio sexual de crianças no México. Uma empresa de Wennerström sediada em Chipre suscitou uma indignação colossal quando se divulgou que ela havia tentado comprar urânio enriquecido no mercado negro da Ucrânia. Por toda parte, uma ou outra das inúmeras empresas-fantasmas de Wennerström parecia surgir num contexto nebuloso.

Erika Berger constatou que o livro sobre Wennerström era o que Mikael já havia escrito de melhor. O estilo era desigual e a própria linguagem era pobre em alguns momentos — ele não tivera tempo de cuidar da forma —, mas Mikael dava o troco e o livro inteiro era movido por uma raiva que seria forçosamente percebida por qualquer leitor.

Por acaso, Mikael Blomkvist topou com seu antagonista, o ex-repórter de economia William Borg, à porta do Moulin, onde Mikael, Erika Berger e Christer Malm foram festejar com seus colaboradores o Dia de Santa Luzia, numa noitada generosamente regada a bebidas, patrocinada pela revista. Borg estava acompanhado de uma garota completamente bêbada, da idade de Lisbeth Salander.